Tesouro Reserva versus poupança: entenda disputa e efeitos no seu bolso

O debate “Tesouro Reserva versus poupança” ganhou força depois que o Tesouro Nacional confirmou para março o lançamento do novo título público, apontado como potencial substituto da caderneta mais popular do País. Analistas enxergam nesta novidade uma porta de entrada para milhões de brasileiros que ainda guardam recursos em uma aplicação de baixo rendimento. Mas será mesmo o ponto final da poupança?

A questão mobiliza planejadores financeiros, economistas, bancos e investidores iniciantes. A seguir, investigamos cada detalhe: o que muda, quem se beneficia, como ficam os retornos líquidos, onde há riscos ocultos e por que a cultura de poupar pode ou não se transformar nos próximos anos.

O que é o Tesouro Reserva e por que ele surge agora?

Diferentemente dos títulos tradicionais do Tesouro Direto – Selic, IPCA+ e Prefixado –, o Tesouro Reserva foi desenhado para funcionar como “conta corrente remunerada”, com aporte mínimo de R$ 1,00, liquidez diária garantida pelo governo federal e isenção de marcação a mercado. O investidor poderá vender o papel a qualquer momento, inclusive fora do horário bancário, recebendo o dinheiro integralmente no mesmo dia útil seguinte.

Segundo o Tesouro Nacional, o objetivo é oferecer praticidade semelhante à poupança, mas com remuneração indexada à taxa Selic, o que já colocaria o produto vários degraus acima dos 0,5% ao mês + TR pagos pela caderneta enquanto a Selic permanecer em dois dígitos.

O lançamento também ecoa o avanço dos “cofrinhos” e “caixinhas” nas contas digitais: funcionalidades que remuneram o saldo parado à taxa do CDI. Ao criar um título público adaptado a esse comportamento, o governo pretende popularizar o financiamento da dívida interna e, de quebra, incentivar a educação financeira.

Entendendo a rentabilidade: números na ponta do lápis

Com a Selic em 15% ao ano, a poupança rende 7,5% anuais (já livre de IR), exatamente a metade do juro básico. Caso o Tesouro Reserva pague próximo à Selic – cenário mais provável, segundo fontes da Secretaria do Tesouro – o investidor verá, mesmo após o desconto de 17,5% de Imposto de Renda (alíquota aplicável após 12 meses), um retorno de 12,37% no período. Em termos reais, a diferença chega a quase cinco pontos percentuais ao ano.

Vale ponderar dois fatores:

1) Curva de queda dos juros. O Banco Central sinaliza reduções graduais da Selic em 2024. Cada corte reduz a sobra que outros produtos têm sobre a poupança, mas a defasagem persiste enquanto a taxa básica ficar acima de 8,5% – gatilho que define a fórmula fixa de 0,5% ao mês na caderneta.

2) Come-cotas inexistente. Diferente dos fundos DI, o Tesouro Reserva não sofre tributação semestral automática. O IR só incide no resgate, o que preserva o efeito “juros sobre juros” por mais tempo.

Liquidez diária: sem aniversário, sem susto

Um dos pontos que cristalizaram o hábito de poupar foi o chamado “aniversário” da caderneta: somente no dia mensal correspondente ao depósito o rendimento é creditado. Se o investidor fizer um saque antes dessa data, perde o ganho do período. A regra é simples, mas costuma passar despercebida, gerando frustração involuntária.

No Tesouro Reserva não há janela de aniversário. A rentabilidade é diária e pró-rata, igual a CDBs de liquidez imediata e fundos de renda fixa. A única trava para quem pretende usar o dinheiro em menos de 30 dias é o IOF regressivo, imposto que zera o rendimento em retiradas precoces – situação idêntica à dos demais produtos financeiros tributados pela Receita Federal.

Garantia e risco de crédito: quem protege quem?

A poupança conta com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) até R$ 250 mil por CPF por instituição financeira, teto compartilhado com CDBs, LCI/LCA e letras de câmbio. Já o Tesouro Reserva é lastreado no Tesouro Nacional. Na prática, trata-se do menor risco de calote existente dentro das fronteiras brasileiras, pois o governo detém o monopólio de emissão da própria moeda.

Para o pequeno poupador, a diferença se traduz em segurança adicional. Num cenário extremo em que o banco que custodia o título venha a falir, o investidor ainda continuará detentor do papel – que fica registrado na BM&FBovespa em seu CPF. Portanto, o risco de crédito pode ser considerado virtualmente nulo.

Custo zero de custódia: verdade ou ilusão?

Informações preliminares indicam que o Tesouro Reserva poderá vir sem a taxa de custódia de 0,20% ao ano cobrada hoje pelos demais papéis do Tesouro Direto. O argumento é que a baixa complexidade operacional – ausência de marcação a mercado e fluxo constante de aplicações e resgates – reduziu o custo de manutenção.

No entanto, a decisão final ainda depende de ajustes entre Tesouro, B3 e agentes de custódia. Se houver cobrança, a atratividade cai ligeiramente, mas dificilmente comprometerá a vantagem sobre a poupança, cuja rentabilidade permanecerá limitada por lei.

Perfil de investidor: cultura versus racionalidade

Por que, então, mais de R$ 750 bilhões seguem estacionados nas contas de poupança, mesmo diante de alternativas tão superiores? Economistas recorrem ao conceito de “inércia financeira cultural”. A caderneta tornou-se sinônimo de “lugar seguro” para gerações inteiras. É simples, gratuita, integrada ao talão de cheques e, para muitas famílias, funciona também como conta-salário.

Paula Bazzo, planejadora financeira certificada pela Planejar (CFP), lembra que CDBs de liquidez diária oferecem há tempos rentabilidade melhor com o mesmo FGC, mas ainda assim o migration gap persiste. “Trata-se menos de matemática pura e mais de comportamento. As pessoas temem o desconhecido”, afirma.

Martin Iglesias, gerente de produtos de investimento do Itaú Unibanco, concorda e destaca o esforço dos bancos em educar o cliente. “A poupança entrega simplicidade, mas força o investidor a abrir mão de retorno. Nosso papel é mostrar que há caminhos igualmente fáceis com ganhos maiores.”

Google, fintechs e a revolução da experiência digital

Nos últimos cinco anos, aplicativos de bancos digitais transformaram a forma de interagir com o dinheiro. Termos como “guardar automático”, “caixinha” e “meta de curto prazo” popularizaram conceitos que antes exigiam calculadora financeira. Ao integrar o Tesouro Reserva diretamente nesses ecossistemas, o governo espera surfar na mesma onda que levou milhões a testar cashback, Pix parcelado e investimentos via robôs de alocação.

Especialistas realçam que UX (user experience) vale tanto quanto rendimento. Um aplicativo que mostre saldo atualizado segundo a segundo, permita resgate em um clique e esclareça a alíquota exata de IR aumenta a confiança de quem dá os primeiros passos. Se o Tesouro Reserva entregar essa jornada, o impacto pode ser mais devastador para a poupança do que qualquer estatística comparando taxas nominais.

Impacto no crédito imobiliário: a outra face da moeda

A cada R$ 100 depositados na poupança tradicional, 65% devem ser direcionados pelos bancos a financiamentos habitacionais do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). Essa engrenagem sustenta cerca de 11% do PIB em crédito imobiliário, segundo a Abecip.

Gabriel Galípolo, diretor do Banco Central, já classificou o mecanismo como “Robin Hood às avessas”, porque tira rendimento dos pequenos poupadores para subsidiar juros mais baixos à classe média que compra imóvel financiado. Na visão de Filipe Pontual, diretor-executivo da Abecip, não existe solução mágica: “Caso a poupança continue encolhendo, precisaremos expandir LCI, LIG e CRI para não travar o setor imobiliário” – instrumentos que transferem o ônus do financiamento ao mercado de capitais.

Dessa forma, o Tesouro Reserva, embora salutar para a rentabilidade do investidor, pressiona o estoque de recursos direcionados à habitação. Um desafio de política pública se anuncia: como equilibrar inclusão financeira, crédito acessível e sustentabilidade fiscal.

Cenários para os próximos cinco anos

Cenário 1 – Adoção em massa. O Tesouro Reserva reproduz a experiência de uma conta remunerada sem taxa de custódia. Bancos integram a funcionalidade em poucos cliques; em dois anos o saldo supera R$ 300 bilhões. A poupança encolhe para patamar inferior a R$ 600 bilhões, acelerando a necessidade de fontes alternativas de funding imobiliário.

Cenário 2 – Crescimento gradual. Taxa de custódia simbólica (0,10% a.a.) e Selic rumo a 9%. A diferença líquida para a poupança diminui, mas se mantém atraente. Investidores mais informados adotam o produto; demais permanecem na caderneta. Saldo do Tesouro Reserva chega a R$ 120 bilhões em cinco anos.

Cenário 3 – Baixa penetração. A UX não corresponde às expectativas, e a Selic cai abaixo de 8,5%, acionando a regra de 70% da Selic para a poupança. Com spread reduzido, o incentivo para migrar some. O título vira nicho, usado apenas por quem já investe no Tesouro Selic.

Comparativo rápido de características

Poupança
• Rendimento: 0,5% a.m. + TR (Selic > 8,5%)
• Liquidez: imediata, mas com regra do “aniversário”
• Garantia: FGC até R$ 250 mil
• Tributação: isenta de IR e IOF
• Usabilidade: alta, conta gratuita

Tesouro Reserva
• Rendimento: estimado próximo à Selic
• Liquidez: D+0* (saque 24h) / D+1 para crédito na conta
• Garantia: Tesouro Nacional (soberano)
• Tributação: IR regressivo (22,5% a 15%) + IOF até 30 dias
• Usabilidade: depende do app da corretora/banco

*Horário de corte deve ser divulgado na semana de estreia.

Tributação detalhada: mitos e verdades

Grande parte da resistência à renda fixa fora da poupança gira em torno do Imposto de Renda. Importante lembrar que a alíquota máxima de 22,5% só incide em resgates feitos antes de seis meses. Para quem planeja reserva de emergência – horizonte típico de 6 a 12 meses –, a cobrança cai para 20% ou 17,5%. Passados dois anos, a mordida é de 15%, nível competitivo mesmo em curvas de juros baixas.

Outra confusão frequente envolve o IOF, cujo gráfico regressivo zera após 30 dias corridos. Portanto, salvo emergências extremas, o impacto do tributo é mínimo para quem reserva fundos para imprevistos cotidianos.

Educação financeira: a chave da migração

Pesquisas de comportamento financeiro mostram que 70% dos brasileiros nunca ouviram falar em marcação a mercado, come-cotas ou letra de crédito. Nesse sentido, o Tesouro Reserva desloca a discussão para territórios conhecidos: “quanto rende”, “quando posso sacar” e “se é seguro”. Metodologias de aprendizagem baseadas em gamificação, lives com especialistas e tutoriais integrados às plataformas serão vitais para acelerar a curva de conhecimento.

O estímulo governamental também pode vir por campanhas semelhantes às do IRPF: anúncios em TV aberta, podcasts patrocinados e parcerias com influenciadores de finanças pessoais. Quanto mais gente entender que o Tesouro Direto é acessível como um Pix, maior será a migração orgânica.

Como decidir entre Tesouro Reserva e poupança?

A resposta passa por três perguntas-guia:

1) Prazo de uso do dinheiro. Até 30 dias? A diferença de rentabilidade quase desaparece por causa do IOF. Acima desse horizonte, compensa migrar.

2) Tolerância a mudanças. Prefere não mexer em aplicativo, não estudar tabela de IR e dormir tranquilo sabendo que “sempre foi assim”? Continue na poupança.

3) Importância da rentabilidade. Se buscar maximizar cada centavo, o Tesouro Reserva tende a entregar retorno superior em praticamente todos os cenários de juros projetados pelos economistas.

Passo a passo para investir no Tesouro Reserva

1. Abrir conta em banco ou corretora habilitada. A maioria já participa do Tesouro Direto.

2. Realizar o teste de perfil de investidor. Obrigatório pela CVM; leva dois minutos.

3. Transferir recursos via TED ou Pix. Valor mínimo: R$ 1,00.

4. No menu “Tesouro Direto”, escolher Tesouro Reserva. Definir montante e confirmar.

5. Acompanhar pelo app. O saldo será atualizado diariamente com os juros acumulados.

Opiniões divergentes: substituição total ou coexistência?

Enquanto alguns analistas projetam queda abrupta no estoque da poupança, outros acreditam em coexistência pacífica. Para Filipe Pontual, da Abecip, “é cedo para prever o tamanho do estrago”. Ele alerta que ainda não se conhecem a remuneração exata, o modelo de custódia e a janela de liquidez fora do horário bancário.

Do lado oposto, casas de research veem o Tesouro Reserva como “low hanging fruit” – oportunidade óbvia. O argumento central: a tecnologia já converteu cartão de crédito em QR code, boletos em Pix e estacionamentos em apps. Por que não faria o mesmo com a reserva de emergência?

Conclusão: tendência irreversível de evolução financeira

A história demonstra que produtos financeiros pouco rentáveis tendem a ceder espaço quando surgem substitutos de uso fácil. Foi assim com as cadernetas de poupança nos EUA após o avanço dos money market funds. No Brasil, resta saber se a perna cultural – enraizada na memória coletiva – cederá à lógica dos números.

O Tesouro Reserva chega com todos os ingredientes para triunfar: acessibilidade de R$ 1,00, risco soberano, rentabilidade atrelada à Selic, liquidez diária sem aniversário e provável isenção de custódia. O veredicto final, porém, dependerá de como o produto será apresentado à massa de poupadores e de quão suave será a jornada digital.

Se você busca proteção, praticidade e rendimento, a comparação “Tesouro Reserva versus poupança” merece entrar na sua checklist financeira de 2024. Ao fim, a escolha ideal sempre conjuga razão matemática, segurança percebida e conforto emocional.


Com informações de InfoMoney

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