O recorde de captações em janeiro, que chegou a R$ 59,9 bilhões segundo a Anbima, reforçou a percepção de que 2024 pode inaugurar um ciclo de forte expansão no mercado de capitais brasileiro.
No mês, o volume foi 30,5% superior ao de igual período de 2023 e o maior da série iniciada em 2012. O resultado ganhou protagonismo graças à renda fixa, às notas comerciais e aos FIDCs, que surpreenderam pelas cifras inéditas para o primeiro mês do ano.
Entenda, a seguir, o que explica esse cenário, quais instrumentos lideraram a captação, por que eles atraem empresas de diferentes portes e quais tendências se desenham para os próximos meses.
O que está por trás do novo recorde
De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), janeiro costuma ser um mês de retomada gradual das emissões após o recesso de fim de ano. Em 2024, porém, o ritmo foi bem acima do esperado.
Três fatores principais ajudam a esclarecer o fenômeno:
1. Ambiente macroeconômico mais previsível: a trajetória de queda da Selic, iniciada no segundo semestre de 2023, reduziu o custo de captação e aumentou o apetite das companhias por emissões no mercado doméstico.
2. Calendário corporativo: muitas empresas anteciparam ofertas para janeiro visando garantir condições favoráveis antes de possíveis oscilações de preços de ativos em período de divulgação de balanços e reuniões de política monetária.
3. Instrumentos desburocratizados: o crescimento explosivo de notas comerciais e FIDCs, considerados “portas de entrada” para o mercado de capitais, possibilitou que companhias de menor e médio porte encontrassem alternativas de financiamento sem recorrer a empréstimos bancários tradicionais.
Renda fixa segue dominante, mas com nuances
A renda fixa concentrou R$ 46,2 bilhões das captações de janeiro, mantendo-se como a principal via de financiamento corporativo. Dentro dessa categoria, as debêntures responderam por R$ 26,9 bilhões, número levemente inferior aos R$ 28,5 bilhões de janeiro de 2023.
Apesar da pequena retração, as debêntures continuam relevantes. A Anbima destacou que:
• Destinação dos recursos: 41,4% foram direcionados a investimentos em infraestrutura, enquanto 28,2% serviram para reforço de capital de giro das empresas (gestão ordinária).
• Prazo médio: os papéis vencerão, em média, em 7,3 anos, sinalizando maior confiança dos investidores em compromissos de longo prazo.
Contudo, os holofotes do mês se voltaram para instrumentos menos tradicionais:
Notas comerciais: atingiram R$ 6,4 bilhões — salto de 329% ano contra ano, o maior patamar para janeiro. Por demandarem menos burocracia e despesas de registro, atraem especialmente companhias que desejam agilidade para aproveitar janelas oportunas de mercado.
FIDCs: captaram R$ 7 bilhões, quase o dobro de janeiro de 2023. A estrutura desses fundos, que adquirem recebíveis de empresas, permite transformar fluxos de caixa futuros em capital imediato, ajudando a oxigenar operações de setores como varejo, serviços e agronegócio.
Por que as notas comerciais ganharam tração
Lançadas em 2019, as notas comerciais têm se firmado como um dos produtos de maior crescimento no mercado local. Seis características explicam o sucesso recente:
1. Menos etapas regulatórias: diferentemente das debêntures, dispensam escrituração em balcões de custódia, reduzindo custos operacionais.
2. Celeridade: o prazo entre decisão e efetiva emissão costuma ser mais curto, o que agrada empresas que precisam de liquidez imediata.
3. Flexibilidade de garantias: podem ser parcialmente lastreadas em recebíveis específicos, sem comprometer ativos estratégicos.
4. Perfil de investidor ampliado: com isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas quando emitidas por empresas de menor porte (norma aprovada em 2023), a base de compradores se expandiu.
5. Janela de oportunidade: a queda da Selic favorece demandantes e investidores, pois reduz o custo da dívida, mas mantém prêmio atrativo frente a aplicações conservadoras.
6. Adoção tecnológica: plataformas digitais de distribuição simplificaram o acesso, permitindo que pequenas companhias cheguem a um público mais amplo de investidores qualificados.
FIDCs: alavanca para fluxo de caixa
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios não são novidade, porém ganharam nova vida em meio à digitalização dos sistemas de cobrança e ao crescimento dos “bank-as-a-service”. Com tecnologia, tornou-se mais simples organizar carteiras de recebíveis que antes ficavam pulverizadas em bases internas das empresas.
Efeitos práticos:
• Companhias liberam capital de giro ao converter recebíveis em dinheiro à vista.
• Investidores acessam risco corporativo diversificado, muitas vezes com avaliações de crédito externas.
• O spread entre custo bancário e custo via mercado diminuiu, estimulando emissões recordes.
Quedas nos CRIs e CRAs: o que mudou?
Nem todos os instrumentos acompanharam o recorde de captações em janeiro. Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) somaram R$ 3,2 bilhões, queda de 21,3% frente a 2023. Já os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) recuaram 60,1%, para apenas R$ 908 milhões.
Dois motivos ganharam destaque:
1. Concorrência com Fiagros: parte dos emissores agricultores e processadores migrou para a estrutura de Fiagros, que, embora tenha registrado retração de 8,6% (R$ 955 milhões), ainda oferece isenção fiscal ao investidor pessoa física, reduzindo custo efetivo de captação.
2. Mercado secundário desaquecido: a alta sensibilidade desses papéis a oscilações de juros tornou investidores mais seletivos. Muitas ofertas aguardam melhora de preços antes de vir a mercado.
Fundo Imobiliário ressurge com força
Os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) captaram R$ 4,8 bilhões, alta de 18,9% na comparação anual. O movimento reflete:
• Busca por renda passiva: mesmo com a Selic em queda, o juro real continua alto, o que torna os FIIs, distribuidores de renda mensal, atrativos em relação a títulos públicos.
• Novo ciclo de cortes de juros: a perspectiva de valorização de cotas diante de um custo de capital menor estimulou a emissão de novas cotas e aquisições de imóveis.
Imagem: Internet
Renda variável: luz amarela, mas não vermelha
Em contraste com os demais segmentos, a renda variável contou apenas com duas ofertas subsequentes de ações (follow-ons), totalizando R$ 7,9 bilhões. Em janeiro de 2023, não houve qualquer operação.
O ritmo ainda discreto decorre de fatores como volatilidade global nas bolsas e a preferência de empresas por captar dívida mais barata em vez de diluir acionistas. Entretanto, a simples volta das ofertas sinaliza que parte do mercado já enxerga espaço para emissões de ações este ano, principalmente caso o Ibovespa mantenha tendência de alta.
Impacto para empresas de diferentes portes
A Anbima destacou que o sucesso das notas comerciais e dos FIDCs demonstrou a capilaridade do mercado de capitais. Empresas de menor porte — historicamente dependentes de crédito bancário caro — puderam acessar recursos com taxas mais competitivas.
Benefícios diretos:
• Redução do risco de concentração de dívidas em bancos.
• Possibilidade de alongar prazos e melhorar o perfil da dívida.
• Maior visibilidade junto a investidores institucionais.
Essa dinâmica tende a estimular concorrência setorial, pois companhias que conseguem financiar expansão de maneira eficiente podem ganhar participação de mercado, inovar e contratar mais.
Perspectivas para 2024: o que observar
O salto observado no recorde de captações em janeiro será sustentado? Especialistas de mercado listam cinco pontos de atenção:
1. Trajetória da Selic: cada corte adicional alivia custo de dívida e amplia o universo de emissores, mas também diminui o retorno dos investidores, exigindo spreads atrativos.
2. Agenda regulatória: eventuais mudanças tributárias podem alterar incentivos de produtos como debênture de infraestrutura, CRAs e CRIs.
3. Liquidez global: decisões de política monetária nos Estados Unidos podem influenciar o fluxo de capitais para mercados emergentes, inclusive o Brasil.
4. Resultado corporativo: se o lucro das empresas melhorar, cresce a confiança em emissões de risco maior, como ações e debêntures sem garantia real.
5. Estratégia dos bancos: instituições financeiras podem aumentar competição via crédito direcionado, reduzindo espaço para algumas estruturas de mercado.
Como o investidor pessoa física pode se posicionar
Para quem deseja aproveitar o aquecimento do mercado de capitais, especialistas sugerem:
Diversificação: combinar títulos privados (debêntures, CRIs, CRAs), fundos (FIIs, Fiagros, FIDCs) e, eventualmente, ações, dentro do perfil de risco.
Avaliação de crédito: analisar rating, covenants e garantias antes de adquirir papéis corporativos, sobretudo em emissões de empresas de menor porte.
Foco em liquidez: lembrar que instrumentos como notas comerciais podem ter mercado secundário restrito, exigindo horizonte de investimento condizente com o vencimento.
O papel das fintechs na democratização
Plataformas digitais de investimento têm sido decisivas na popularização de emissões menores. Ao conectarem diretamente empresas e investidores, reduzem estrutura de custos e ampliam o universo de compradores qualificados.
Além disso, colaboram com educação financeira, pois disponibilizam relatórios, webinars e simuladores que explicam riscos e retornos de cada instrumento.
Comparativo histórico: evolução desde 2012
A série histórica da Anbima permite observar um amadurecimento do mercado local. Em 2012, primeiro ano medido, janeiro captou algo próximo de R$ 10 bilhões. Desde então, a taxa média de crescimento anual composta (CAGR) aproximada supera 15% ao ano, mesmo incluindo períodos de recessão em 2015-2016 e os choques da pandemia em 2020.
Esse avanço se deve, entre outros fatores, à criação de:
• Debêntures incentivadas de infraestrutura (2012).
• Novas regras de securitização do agronegócio (Lei 13.986/2020).
• Notas comerciais (2019).
• Fiagros (2021).
Cada inovação regulatória ampliou o cardápio de instrumentos, arrebanhou novos emissores e tornou o mercado menos dependente de janelas tradicionais de abertura de capital.
Riscos que não podem ser ignorados
Embora o recorde de captações em janeiro traga boas notícias, a robustez do mercado exige vigilância. Entre os principais riscos estão:
Concentração setorial: se grandes volumes se direcionarem a poucos setores, haverá maior exposição a choques específicos, como variação de preço de commodities ou de vacância imobiliária.
Risco de crédito: empresas de menor porte podem apresentar balanços menos auditados e histórico curto, elevando a probabilidade de inadimplência.
Liquidez secundária: muitos papéis têm forte demanda na emissão, mas volume reduzido de negociações depois do lançamento, o que impede o investidor de sair rapidamente da posição.
Considerações finais
O salto para R$ 59,9 bilhões captados — maior valor para janeiro desde 2012 — confirma que o mercado de capitais brasileiro vem se tornando um pilar relevante no financiamento da economia real. Empresas agora dispõem de um ecossistema completo, capaz de atender tanto gigantes que demandam debêntures de infraestrutura quanto empreendedores que buscam alternativas mais simples, como notas comerciais.
Se as condições macroeconômicas seguirem favoráveis, 2024 pode superar facilmente os R$ 500 bilhões em captações anuais, aproximando-se dos números recordes previstos para 2025. No entanto, é fundamental que emissores mantenham transparência e governança, e que investidores avaliem criteriosamente riscos e liquidez.
Em última análise, o recorde de captações em janeiro não é apenas uma estatística: representa confiança renovada na capacidade de o mercado de capitais financiar projetos, estimular inovação e impulsionar o crescimento sustentável do Brasil.
Com informações de InfoMoney

