O Recorde captação mercado de capitais em janeiro de 2026 revela um início de ano robusto para as companhias brasileiras, que levantaram R$ 59,9 bilhões segundo a Anbima. O volume, o maior da série histórica iniciada em 2012, indica uma ampliação de 30,5% sobre o mesmo mês de 2025.
Neste artigo, explicamos o que impulsionou o marco, detalhamos cada instrumento de captação, analisamos os perfis das empresas envolvidas e avaliamos os efeitos sobre investidores e economia real. A seguir, entenda por que o capital de risco está mais acessível, quem liderou as emissões e de que forma os números reforçam a diversificação do financiamento corporativo no Brasil.
Panorama geral: números que definem o recorde
O levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) consolida todas as ofertas públicas de títulos de dívida e de participação realizadas em janeiro. O montante de R$ 59,9 bilhões supera, com folga, o resultado máximo anterior para o mês, alcançado em 2021, e coloca 2026 como potencial novo ano recordista, caso o ritmo se mantenha.
Em linhas gerais, a renda fixa respondeu por R$ 46,2 bilhões do total (77%), enquanto a renda variável representou R$ 7,9 bilhões (13%), provenientes de dois follow-ons. Os demais 10% foram captados via instrumentos híbridos, como fundos imobiliários (FIIs) e Fiagros.
Renda fixa: debêntures seguem hegemônicas, mas portas de entrada crescem
Dentro da renda fixa, as debêntures mantêm a liderança histórica. Em janeiro, esse título corporativo respondeu por R$ 26,9 bilhões. Embora o número represente leve retração sobre os R$ 28,5 bilhões de janeiro de 2025, o instrumento segue relevante para companhias de médio e grande porte.
Destinação dos recursos levantados via debêntures:
- Investimentos em infraestrutura: 41,4% do total, com operações lastreadas na Lei 12.431, que concede benefícios fiscais ao investidor.
- Gestão ordinária: 28,2%, canalizando caixa para capital de giro, alongamento de passivos ou necessidades operacionais.
O prazo médio das emissões ficou em 7,3 anos, sinalizando disposição de credores em aportar recursos de longo prazo nas empresas brasileiras. Para analistas, a maturação alongada demonstra confiança na estabilidade macroeconômica e na queda estrutural de juros.
Notas comerciais: salto de 329% indica menor burocracia e agilidade
As notas comerciais, títulos de curto e médio prazo criados em 2021 para simplificar o acesso ao mercado de capitais, tiveram o melhor janeiro já registrado: R$ 6,4 bilhões. O avanço de 329% frente a igual mês de 2025 mostra que companhias de menor porte estão migrando parte de suas necessidades de caixa para esse instrumento, que dispensa escritura pública e agiliza o processo de registro.
Segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney, a tendência ganhou fôlego com a digitalização de balcões de distribuição, o que aproxima o emissor de potenciais investidores institucionais de forma mais ágil e barata.
FIDCs dobram e reforçam financiamento de cadeias produtivas
Também considerados porta de entrada, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) captaram R$ 7,0 bilhões, crescimento de 98,6% sobre o ano anterior. O mecanismo permite que empresas antecipem recebíveis — como duplicatas, contratos de prestação de serviços ou pagamentos via cartão — a taxas normalmente inferiores às praticadas pelos bancos em linhas tradicionais.
Com a Selic em trajetória de baixa, a estrutura de FIDC torna-se atrativa para quem busca rendimento superior ao CDI, mas ainda com lastro em créditos diversificados. A securitização ajuda a pulverizar risco e, ao mesmo tempo, injeta liquidez imediata nas cadeias produtivas.
CRIs e CRAs: retração diante de ajustes setoriais
Na contramão do desempenho global, os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e do Agronegócio (CRAs) recuaram 21,3% e 60,1%, respectivamente. Em valores absolutos, foram R$ 3,2 bilhões em CRIs e R$ 908 milhões em CRAs.
Especialistas atribuem o declínio a dois fatores:
- Reprecificação de carteiras imobiliárias: O segmento de fundos imobiliários entrou em fase de ajuste após forte valorização em 2024-2025. Com preços mais contidos, emissões se tornaram mais seletivas.
- Volatilidade de commodities agrícolas: O cenário externo trouxe incertezas sobre os preços de grãos, reduzindo o apetite de originadores e investidores por CRAs.
Apesar da queda pontual, a Anbima avalia que tanto CRIs quanto CRAs tendem a recuperar participação conforme juros recuam e projetos de infraestrutura e logística avançam.
Instrumentos híbridos: FIIs crescem, Fiagros oscilam
No campo híbrido, os Fundos Imobiliários (FIIs) levantaram R$ 4,8 bilhões — uma alta de 18,9% na base anual. O movimento reflete a combinação de menor taxa básica de juros, busca por renda mensal isenta de IR para pessoa física e expansão do estoque de lajes corporativas e galpões logísticos.
Por outro lado, os Fiagros captaram R$ 955 milhões, retração de 8,6%. A classe, criada em 2021 para financiar o agronegócio via mercado de capitais, segue em consolidação e ainda sofre influência da volatilidade de commodities. Mesmo assim, o patamar permanece relevante para um produto recém-lançado.
Renda variável: retomada de follow-ons aquece o ano
Depois de um 2025 com baixa atividade em ofertas subsequentes (follow-ons), janeiro trouxe dois negócios que somaram R$ 7,9 bilhões. Embora a Anbima não divulgue nomes nas prévias mensais, o valor sugere operações de grandes empresas listadas buscando desalavancar balanços ou financiar aquisições.
O retorno gradual das emissões de ações alinha-se à melhora de sentimento global, ao início do ciclo de corte de juros pelo Banco Central e às discussões em torno de reformas pró-mercado. Caso o ambiente macro continue favorável, casas de research estimam que 2026 poderá registrar até R$ 120 bilhões em ofertas primárias e secundárias.
Por que o mercado de capitais captou tanto? Cinco vetores explicam
Para compreender os 30,5% de crescimento anual, é fundamental analisar as forças que movem emissoras e investidores:
- Selic em queda: A taxa recuou de 13,75% em meados de 2023 para 11,25% em janeiro de 2026, barateando o custo de oportunidade de novos projetos.
- Agenda de infraestrutura: O novo PAC e concessões estaduais elevaram a demanda por funding de longo prazo, beneficiando debêntures incentivadas.
- Modernização regulatória: A Lei de Liberdade Econômica e ajustes da CVM simplificaram emissões, apoiando notas comerciais e FIDCs.
- Digitalização de distribuição: Plataformas digitais popularizaram o acesso tanto para investidores qualificados quanto para varejo, ampliando a base compradora.
- Busca por diversificação: Fundos de pensão e seguradoras elevaram alocações em crédito privado para mitigar concentração em títulos públicos.
Quem são as empresas que mais se beneficiam?
Embora a Anbima divulgue apenas dados agregados, a segmentação por tipo de título oferece pistas sobre os perfis corporativos que lideraram o movimento:
- Grandes grupos de infraestrutura: Concessionárias de rodovias, saneamento e energia elétrica aproveitaram juros mais baixos para alongar passivos via debêntures incentivadas.
- Empresas de médio porte com faturamento de R$ 100-500 milhões: Buscaram notas comerciais para financiamento de capital de giro, evitando prazos e custos bancários tradicionais.
- Companhias de tecnologia e serviços: Muitas recorrem a FIDCs para antecipar recebíveis de assinaturas ou transações via cartão.
- Agroindústrias exportadoras: Apesar da queda de CRAs, parte do setor recorreu a Fiagros e debêntures para expandir armazenagem e logística.
Impacto para o investidor pessoa física
Com a expansão de ofertas, investidores de varejo encontram maior diversidade e potencial retorno acima do CDI. Debêntures incentivadas, por exemplo, oferecem isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas, reforçando o apelo. Já notas comerciais e FIDCs, apesar de não terem benefício fiscal, podem entregar prêmios adicionais por carregarem risco corporativo intermediário.
Contudo, analistas recomendam atenção a quatro pontos:
- Risco de crédito: As ofertas facilitadas não eliminam a necessidade de due diligence.
- Liquidez secundária: Nem todos os papéis contam com mercado ativo após a emissão.
- Estrutura de garantias: Conferir se existe covenants, fianças ou colaterais.
- Duração: Emissor e investidor devem alinhar prazos para evitar carrego forçado.
Comparação histórica: evolução desde 2012
Desde o início da série histórica da Anbima, em 2012, o mês de janeiro apresentava captações médias de R$ 15 a R$ 20 bilhões. O salto para quase R$ 60 bilhões em 2026 simboliza a maturidade do mercado de capitais brasileiro. Em 14 anos, a participação da renda fixa privada no estoque total de dívida nacional saltou de 7% para cerca de 15%, segundo dados do Banco Central e da própria Anbima.
A consolidação ocorreu em três ondas:
- 2012-2016: Criação de debêntures incentivadas atraiu investidores isentos.
- 2017-2021: Jovens plataformas digitais, como corretoras independentes, democratizaram o acesso a crédito privado.
- 2022-2026: Regulamentações simplificaram emissões de baixo valor, impulsionando FIDCs e notas comerciais.
Desafios à frente: sustentabilidade do ritmo recorde
Apesar do forte início de ano, a manutenção de volumes elevados dependerá de fatores macro e microeconômicos:
- Trajetória da Selic: Cortes adicionais podem baratear ainda mais o funding, mas também reduzir prêmios exigidos por investidores.
- Reformas estruturais: A aprovação de medidas como a Reforma Tributária em fase infraconstitucional pode aumentar previsibilidade e incentivar emissões.
- Ambiente externo: Choques de commodities, desaceleração nos EUA ou tensões geopolíticas afetam fluxo de capitais para emergentes.
- Qualidade de crédito corporativo: Elevação da alavancagem em alguns setores exige monitoramento para evitar inadimplência sistêmica.
Perspectivas para 2026: o que esperar dos próximos meses
Consultorias como PwC e bancos de investimento projetam que os próximos trimestres deverão consolidar a retomada de IPOs, suspensos nos últimos dois anos por instabilidade global. Com a inflação controlada em torno de 4% e o câmbio relativamente estável, empresas de varejo online, saúde e educação podem voltar ao pipeline.
Na renda fixa, a tendência é de continuidade de emissão de debêntures verdes e sociais, alinhadas a critérios ESG. A legislação sobre títulos sustentáveis, aprovada no fim de 2025, deve ganhar regulamentação detalhada ainda no primeiro semestre, aumentando a transparência sobre uso de recursos.
Opinião de especialistas
Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, destaca que o recorde de janeiro “evidencia o leque de opções no mercado de capitais para atender as necessidades de financiamento das companhias de diversas características e portes”. Segundo ele, a combinação de juros mais baixos e instrumentos flexíveis permitiu que empresas menores captassem junto com as gigantes.
Para Ana Paula Vescovi, economista-chefe de uma grande instituição financeira, “o efeito-âncora fiscal obtido com a nova regra de resultado primário, aliado à perspectiva de continuidade de cortes da Selic, cria um ambiente propício para emissões de longo prazo”. Ela alerta, porém, para a necessidade de manutenção do arcabouço fiscal para preservar a confiança.
Conexão com a economia real: por que captação recorde importa
Os recursos levantados em janeiro já começaram a irrigar projetos de expansão fabril, construção de rodovias, modernização de plantas industriais e desenvolvimento de tecnologias de ponta. Ao reduzir dependência de empréstimos bancários, as empresas diversificam fontes, barateiam custo médio da dívida e liberam linhas tradicionais para micro e pequenas empresas que ainda não acessam o mercado.
Segundo estudo da Fundação Getulio Vargas, cada R$ 1 bilhão emitido em debêntures para infraestrutura pode gerar até 15 mil empregos diretos e indiretos ao longo da cadeia de execução de obras. Portanto, o recorde de R$ 59,9 bilhões tem potencial de movimentar dezenas de milhares de postos de trabalho em 2026.
O papel das fintechs na democratização das ofertas
Outro fator decisivo para o salto de janeiro foi a atuação das fintechs de investimento. Plataformas 100% digitais facilitaram a emissão de notas comerciais e FIDCs de menor valor, ligando empresas regionais a investidores de todo o País. Em alguns casos, a colocação levou menos de 48 horas do protocolo à liquidação, algo impossível há uma década.
Com tecnologia de tokenização em blockchain, casas especializadas pretendem lançar, ainda em 2026, debêntures tokenizadas, conferindo rastreabilidade e liquidez quase instantânea no mercado secundário.
Educação financeira: desafio e oportunidade
A maré favorável para emissões também reforça a necessidade de educação financeira. Pesquisas indicam que, apesar do avanço, menos de 15% dos 9,5 milhões de investidores de varejo compreendem plenamente o risco de crédito privado. Programas de certificação como CPA-20 e CEA ganham relevância para assessores que distribuem produtos sofisticados.
Entidades de classe, como Anbima e Planejar, deverão intensificar campanhas de esclarecimento sobre rating, duration e risco de liquidez, reduzindo episódios de má alocação.
Conclusão: janeiro como termômetro de um ciclo de expansão
O Recorde captação mercado de capitais em janeiro de 2026 funciona como um termômetro otimista. O ambiente de juros decrescentes, a sofisticação de instrumentos e a crescente participação do investidor pessoa física configuram um círculo virtuoso de financiamento corporativo.
Caso fatores macroeconômicos permaneçam colaborativos e o arcabouço regulatório continue evoluindo, o mercado de capitais pode consolidar-se como principal fonte de funding de longo prazo para empresas brasileiras, reduzindo a dependência histórica de crédito bancário e fomentando o desenvolvimento sustentável da economia.
Em resumo: janeiro cravou uma marca histórica de R$ 59,9 bilhões, com predomínio da renda fixa e ascensão de alternativas flexíveis como notas comerciais e FIDCs. O resultado reforça a importância do mercado de capitais como alicerce da retomada do investimento produtivo no País.
Resta acompanhar se a pujança de início de ano se transformará em tendência duradoura ao longo de 2026, impulsionando novas histórias de crescimento corporativo, inovação e geração de empregos.
Com informações de InfoMoney

