Multimercados sofrem em março: entenda as perdas e oportunidades

No início de 2024, multimercados sofrem em março e o investidor brasileiro volta a questionar por que veículos considerados diversificadores de risco perderam força praticamente ao mesmo tempo. Relatório diário da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) — compilado até 10 de março — mostra que nove das onze grandes estratégias registram rentabilidade negativa no mês, situação que liga o alerta em um momento de incerteza internacional.

Nesta análise aprofundada, explicamos como cada classe performou, o que explica o desempenho desigual, quais foram os choques externos capazes de abalar gestores experientes e, principalmente, que lições o investidor pessoa física pode extrair para equilibrar seu portfólio sem abrir mão da renda variável ou da renda fixa de longo prazo. A seguir, detalhamos as perdas, o contexto macroeconômico, as projeções e as recomendações dos especialistas.

Panorama dos fundos multimercados em 2024

Os fundos multimercados se consolidaram como uma das principais escolhas do investidor que busca retornos superiores à taxa básica de juros correndo riscos controlados. Em essência, esse tipo de veículo investe simultaneamente em diversas classes de ativos — câmbio, juros, renda variável, commodities, derivativos e, em alguns casos, crédito privado no Brasil e no exterior. A possibilidade de operar comprado ou vendido, alocando de acordo com a visão macro dos gestores, costuma proteger a cota nas viradas de ciclo.

Entretanto, a fotografia de março revela um cenário distinto. Segundo a Anbima, apenas as estratégias Juros e Moedas (+0,44%) e Balanceados (+0,12%) conseguiram preservar capital. Todas as demais acumulam perdas que variam de -0,02% (Capital Protegido) a -1,56% (Long and Short Neutro). O recuo médio dos mandatórios da categoria Macro, tradicional termômetro do humor do mercado, é de 1,40% no mesmo intervalo.

A soma do patrimônio líquido dos fundos de Investimento no Exterior — cerca de R$ 740 bilhões — reforça que o fenômeno não atinge apenas produtos de nicho. Mesmo gigantes globais recuaram 1,00%, impactando aplicações de milhares de brasileiros que decidiram dolarizar parte da carteira.

Desempenho das onze estratégias: números e causas

Para compreender o peso de cada resultado, vale destrinchar a tabela oficial divulgada pela entidade representativa do setor.

1. Juros e Moedas (+0,44%)
Estratégia que aloca majoritariamente em renda fixa local, títulos públicos indexados ao CDI e curtíssimo prazo, além de pequenas posições em câmbio. Ganhou com o fechamento de vértices da curva de juros internos, movimento favorecido por projeções de inflação ancoradas.

2. Balanceados (+0,12%)
Segmento híbrido que combina renda fixa, crédito privado e até 40% em renda variável doméstica. Sentiu menos a aversão ao risco global graças ao carrego dos títulos pós-fixados em carteira.

3. Capital Protegido (-0,02%)
Fundos estruturados que utilizam barreiras de derivativos para tentar entregar ganho limitado, mas evitar prejuízo expressivo. A retração quase imperceptível mostrou que a proteção funcionou, mas o custo de estruturação impediu retorno real positivo.

4. Trading (-0,10%)
Obriga o gestor a operar alavancado, com alta rotatividade. A volatilidade de commodities e câmbio reduziu a eficácia de operações de curto prazo.

5. Livre (-0,25%)
Categoria mais ampla, permite liberdade total de ativos e alavancagem. Resgates de R$ 265,9 milhões sugerem que investidores migraram para liquidez imediata após choque geopolítico.

6. Dinâmico (-0,20%)
Fundos que seguem modelos quantitativos ou sistemáticos. Parte deles carregava posições pró-risco, rapidamente desfavorecidas pelo giro de sentimento global.

7. Long and Short Direcional (-0,54%)
Opera pares de ações, comprado em papéis considerados baratos e vendido em caros. Quando o mercado se desloca sem discriminar fundamentos, o “short” não compensa o “long”, gerando perda líquida.

8. Long and Short Neutro (-1,56%)
Mantém beta próximo de zero em relação ao Ibovespa. Em março, correlação entre os pares aumentou, neutralizando o benefício da descorrelação tradicional.

9. Macro (-1,40%)
Talvez o recuo mais simbólico, pois esses gestores costumam prever tendências globais. A leitura de que o fluxo migraria de dólar e bolsa americana para emergentes — combinação vencedora até fevereiro — virou do avesso com a escalada do conflito no Oriente Médio e a disparada do petróleo.

10. Estratégia Específica (-0,05%)
Reúne mandatos dedicados a teses singulares, como inflação implícita ou volatilidade. A heterogeneidade explica a perda moderada.

11. Investimento no Exterior (-1,00%)
Focaliza aplicações fora do País. Recuo se deveu à valorização do dólar — fator que, em tese, deveria ajudar —, mas foi superado pelo tombo de bolsas globais e correção de renda fixa longa nos EUA.

Por que multimercados sofrem em março?

Existem pelo menos cinco vetores para explicar por que multimercados sofrem em março em quase todas as frentes:

Choque geopolítico repentino
O avanço das tensões envolvendo Irã e aliados no Oriente Médio elevou o prêmio de risco de todos os ativos. Incerteza sobre oferta de petróleo impulsionou a commodity acima de US$ 90 o barril, derrubando bolsas emergentes exatamente onde gestores estavam mais comprados.

Reprecificação do dólar
Nos primeiros dois meses do ano, a narrativa de enfraquecimento da moeda americana dominava relatórios. Quando o fluxo corre para segurança, o dólar se fortalece abruptamente. Posições vendidas em greenback, comuns entre macros brasileiros, geraram perda rápida.

Commodities fora do radar
Alguns gestores apostavam na continuidade da queda do petróleo e na alta do ouro como “hedge” à inflação. A disparada do primeiro e a correção do segundo criaram efeito duplo negativo: prejuízo direto na commodity e descasamento do mecanismo de proteção.

Correlação inesperadamente alta
Em momentos de pânico, correlações entre classes de ativos convergem para +1. Estratégias long and short ou alocação relativa perdem a eficácia porque tanto os lados comprados quanto vendidos cedem simultaneamente ou sobem juntos, anulando a arbitragem.

Alavancagem e desalavancagem forçada
Alguns fundos empregam instrumentos derivativos. Quando a perda atinge determinado limite, a política de risco obriga a redução de exposição, cristalizando prejuízos e, muitas vezes, impedindo participação em eventuais repiques subsequentes.

O papel da concentração de teses pró-risco

Bruno Maueler, Co-CIO e Diretor de Soluções de Investimentos da Azimut Brasil Wealth Management, alerta que a maioria dos gestores Macro “estava muito concentrada em posições pró-risco”, especialmente na tese de diversificação dos grandes investidores internacionais para fora dos EUA. Essa leitura tornou-se praticamente consensual após a sucessão de dados que apontavam desaceleração suave da economia americana e corte de juros do Federal Reserve no horizonte.

Quando todo o mercado abraça a mesma estratégia, a fragilidade cresce. Uma notícia contrária — como o medo de choque de oferta de petróleo — gera movimento de desalavancagem coordenada, aprofundando a desvalorização dos ativos emergentes e punindo quem não tivesse travas.

Fluxo de captação: o que dizem os números?

Apesar das perdas generalizadas, a indústria de multimercados registrou captação líquida de R$ 717 milhões em março até o dia 10, segundo a própria Anbima. O contrassenso se explica porque:

Investimento no Exterior captou R$ 1,073 bilhão. Muitos investidores continuam convencidos de que a diversificação geográfica é indispensável.

Estratégia Específica adicionou R$ 382,1 milhões, reflexo de mandatos institucionais contratados meses antes que apenas liquidaram agora.

Em contrapartida, Juros e Moedas registrou resgate líquido de R$ 420,2 milhões e os Livres perderam R$ 265,9 milhões. Ou seja, segmentos que mais preservaram capital viram saída de recursos, sinalizando que parte do público buscava liquidez imediata para cumprir outras obrigações ou realocar para renda fixa tradicional, beneficiada pela Selic ainda elevada.

Expectativas para os próximos meses

Não existe consenso sobre a velocidade de recuperação. O próprio Maueler explica que alguns fundos, por mandato, precisam reduzir o nível de exposição após uma perda relevante. Dessa forma, quando o mercado volta, eles capturam apenas fração do alívio. Outros, que acreditam em choque passageiro, mantêm posições e podem recuperar mais rápido — mas também carregam risco maior se a crise escalar.

Entre os fatores acompanhados de perto pelos gestores estão:

Política monetária nos EUA – Sequência de dados de inflação e emprego determinará se o Fed inicia ciclo de cortes ainda em junho ou adia para o segundo semestre.

OPEP+ e preço do petróleo – Qualquer sinal de aumento de oferta pode aliviar pressões e favorecer ativos de países importadores de energia, como o Brasil.

Reformas locais e arcabouço fiscal – A discussão sobre metas fiscais e reformas microeconômicas no Congresso Nacional influencia o diferencial de juros real brasileiro, atrativo aos investidores estrangeiros.

Fluxo de emergentes – Se os ETFs globais voltarem a direcionar capital a América Latina e Ásia, os multimercados comprados em Bolsa podem se beneficiar.

Como o investidor deve agir

Diante do fato de que multimercados sofrem em março, a pergunta-chave é: continuar aportando, realizar prejuízo ou diversificar ainda mais? Especialistas apontam três pilares de decisão:

1. Entender o perfil de risco pessoal
Mesmo dentro dos multimercados, o grau de volatilidade varia. Fundos Macro e Livre costumam ser mais arriscados que Juros e Moedas ou Balanceados. Ajustar a exposição ao que você tolera emocionalmente evita decisões precipitadas.

2. Avaliar histórico de gestão e política de risco
Gestores que já atravessaram outras crises costumam ter protocolos claros de redução de alavancagem. Ler a carta mensal e o formulário de informações complementares ajuda a medir a disciplina da casa.

3. Manter perspectiva de longo prazo
Multimercados não substituem renda fixa conservadora nem representam aposta direcional em ações. Eles devem funcionar como camada intermediária, contribuindo para a descorrelação. Um mês negativo, por si só, não invalida a estratégia.

Glossário: principais categorias de multimercados

Para quem ainda se confunde sobre as diferenças entre as onze estratégias, segue um resumo objetivo:

Macro – Baseia-se em cenários econômicos globais; pode usar câmbio, juros e Bolsa.
Livre – Gestor tem liberdade ampla de ativos e alavancagem.
Dinâmico – Utiliza modelos quantitativos para alternar posições.
Trading – Giro curto, busca capturar oscilações diárias.
Long and Short Direcional – Mantém exposição líquida comprada em ações.
Long and Short Neutro – Mantém exposição líquida próxima de zero.
Capital Protegido – Estruturas de derivativos que travam perdas.
Balanceados – Mistura renda fixa, crédito, ações e, às vezes, fundos imobiliários.
Juros e Moedas – Investe majoritariamente em renda fixa pós-fixada e câmbio.
Estratégia Específica – Mandatos focados em teses pontuais, como inflação.
Investimento no Exterior – Aloca parcela relevante fora do País.

Conclusão

O mês de março expôs a vulnerabilidade dos fundos multimercados a choques exógenos e à construção de teses em consenso. Ainda assim, a classe mantém papel indispensável na diversificação do investidor moderno. Entender que multimercados sofrem em março não significa descartá-los, mas, sim, reforçar a necessidade de escolha criteriosa do gestor, visão de prazo superior a um ciclo de política monetária e adequação ao apetite de risco individual.

Ao fim, a indústria demonstrou resiliência: mesmo em cenário adverso, captou recursos líquidos e manteve patrimônio superior a R$ 2 trilhões. O próximo trimestre será crucial para revelar quem aprendeu as lições da “tempestade perfeita” e quem continuará exposto a riscos de cauda sem redes de proteção. Acompanhar atentamente cartas mensais, movimentações de carteira e, sobretudo, a disciplina na execução da estratégia são atitudes que podem transformar volatilidade em oportunidade.


Com informações de InfoMoney

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