Liquidação do Pleno escancara rombo bilionário no FGC e agita setor

Liquidação do Pleno escancara rombo bilionário no FGC e agita setor

O rombo bilionário no FGC ganhou novos capítulos com a liquidação extrajudicial do Banco Pleno, elevando a conta total de ressarcimentos para R$ 51,8 bilhões. O movimento soma-se aos desembolsos já em curso para credores do Master e do Will Bank, e lança dúvidas sobre a solidez do colchão de segurança que protege pequenos poupadores no Brasil.

Em meio a discussões sobre aportes emergenciais, antecipação de contribuições e eventual uso de compulsórios, o mercado financeiro acompanha de perto os próximos passos do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e do Banco Central, temendo reflexos no custo de funding dos bancos e na confiança dos investidores.

Este artigo aprofunda as origens do déficit, explica como funciona o mecanismo de garantia, detalha o plano de recomposição proposto pelas instituições e traz orientações práticas para correntistas e aplicadores que procuram proteger seu patrimônio.

O que é o FGC e por que existe

O Fundo Garantidor de Créditos foi criado em 1995, no rastro do Plano Real, para blindar depositantes e investidores de varejo contra quebras bancárias. O modelo brasileiro segue práticas internacionais: os próprios bancos contribuem mensalmente para uma reserva comum, que cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição, em depósitos à vista, poupança, CDBs, LCIs, LCAs, letras de câmbio, entre outros títulos.

Na prática, o FGC funciona como um seguro. Quando o Banco Central decreta intervenção ou liquidação de uma instituição, o Fundo assume a responsabilidade de pagar os credores elegíveis. Quanto maior a frequência ou o tamanho das quebras, maior a pressão sobre o patrimônio do FGC — o que explica o cenário atual.

Dados recentes apontam um patrimônio de cerca de R$ 160 bilhões, dos quais R$ 125 bilhões estariam líquidos e disponíveis. À primeira vista, o montante parece confortável. Entretanto, a sequência de liquidações do conglomerado Master — que inclui Master Financeira, Will Bank e agora Pleno — provocou uma sangria sem precedentes.

Como o rombo chegou a R$ 51,8 bilhões

O estopim para a escalada do rombo bilionário no FGC foi a crise de liquidez do grupo Master, que se intensificou ao longo de 2023. Investigações internas e alertas de mercado indicaram descasamento entre prazos de ativos e passivos, além de práticas de crédito consideradas agressivas.

Em 2024, o Banco Central decretou a liquidação do Master, acionando imediatamente a cobertura do FGC. Foram identificados R$ 40,6 bilhões a pagar. Meses depois, em janeiro, o Will Bank — braço digital do mesmo conglomerado — também entrou em liquidação, adicionando R$ 6,3 bilhões à fatura.

Com a decisão de 2025 de vender o Pleno a um ex-sócio do Master, acreditava-se que o risco sistêmico havia arrefecido. No entanto, indícios de deterioração financeira levaram o BC a intervir novamente em 2026, culminando na liquidação do Pleno em 2027. A nova instituição responde por R$ 4,9 bilhões em valores garantidos, distribuídos entre cerca de 160 mil credores.

Somados, Master, Will Bank e Pleno perfazem R$ 51,8 bilhões. O montante não considera linhas emergenciais implantadas pelo FGC no auge da crise, que drenaram recursos pouco divulgados, mas significativos.

Efeitos imediatos para correntistas e investidores

Do ponto de vista do consumidor, a principal consequência é o prazo de recebimento. Até a semana passada, mais de 90% dos valores devidos pelo Master — cerca de R$ 37 bilhões — já haviam sido pagos. No caso do Will Bank, houve prioridade para clientes com até R$ 1 mil a receber, totalizando R$ 200 milhões.

Quem tem valores superiores ainda aguarda a consolidação da base de dados pelo liquidante designado pelo BC. Para o Pleno, o processo técnico — que envolve autenticidade de saldos, checagem de titularidade e cruzamento de sistemas — ainda vai começar, o que jogará os prazos para o segundo semestre.

O mecanismo de pagamento segue um rito padronizado: assim que a lista definitiva é homologada, o FGC libera os recursos via contas em grandes bancos de varejo, normalmente sem tarifas. O correntista recebe uma senha por e-mail ou SMS e pode transferir o dinheiro para a instituição de sua preferência.

Importante salientar que o teto de R$ 250 mil é por instituição. Quem mantinha aplicações acima desse valor no mesmo banco poderá ter parte dos recursos não coberta e precisará habilitar-se como credor quirografário na liquidação, condição com baixa taxa de retorno histórico.

Impacto sobre o sistema bancário

Embora R$ 51,8 bilhões representem apenas 0,5% dos R$ 10 trilhões em ativos bancários no país, o volume relativo ao FGC é expressivo. Isso porque o Fundo vive do aporte dos próprios bancos, baseados em um percentual sobre depósitos elegíveis. Quanto maior a despesa com garantias, maior a necessidade de recomposição e, portanto, maior o encargo para as instituições saudáveis.

Analistas calculam que a despesa adicional poderá reduzir em até 5% o lucro líquido projetado do setor em 2024, sobretudo nos bancos de médio porte, para os quais a contribuição é proporcionalmente mais pesada. A depender do ritmo de pagamentos, existe o risco de encarecimento do custo de captação, que pode ser repassado a linhas de crédito para empresas e consumidores.

Por outro lado, especialistas lembram que a própria existência do FGC é fator de confiança, evitando corridas bancárias que poderiam causar perdas ainda maiores para todo o sistema. A analogia clássica é o seguro-saúde: todos pagam um pouco para que quem precise seja coberto, ainda que as emergências, quando ocorrem, sejam caras.

Como os bancos pretendem recompor o fundo

Conforme apurou o Broadcast/Estadão, o Conselho do FGC aprovou um plano de recomposição que antecipa o equivalente a sete anos de contribuições. A medida será executada em três blocos:

1. 2023 a 2027 – Adiantamento imediato de cinco anos de pagamentos, injetando capital novo no curto prazo.

2. 2027 – Nova antecipação de 12 meses, caso o ritmo de saídas permaneça elevado.

3. 2028 – Terceira rodada de adiantamento, completando o ciclo de sete anos.

Para viabilizar a operação, estuda-se elevar temporariamente em 30% a 60% a alíquota mensal cobrada sobre depósitos. Fontes do setor avaliam que, na prática, o peso extra permanecerá na linha de despesas administrativas, sem repasse imediato ao consumidor final, mas isso vai depender da saúde financeira de cada banco.

Outro ponto em debate é a possibilidade de direcionar parte dos depósitos compulsórios — recursos que os bancos mantêm parados no BC — para alimentar o FGC. A ideia precisaria de aval do Conselho Monetário Nacional. Ainda não há posicionamento oficial do Banco Central.

O papel do Banco Central

Como supervisor do sistema, o Banco Central tem três frentes de ação: autorizar o uso excepcional de instrumentos de liquidez, fiscalizar as gestões dos bancos liquidandos e aprovar mudanças na regulamentação do FGC sempre que envolvam política de crédito ou reservas compulsórias.

No caso do conglomerado Master, o BC também responde por eventual responsabilização de ex-administradores caso se comprovem irregularidades. Processos dessa natureza costumam levar anos, mas podem resultar em multas, inabilitação de gestores e bloqueio de bens para ressarcir prejuízos do Fundo.

A autoridade monetária defende que o FGC permaneça privado e autônomo, mas admite ajustar calibragens de alíquotas, limites de cobertura e exigências prudenciais em caso de estresse prolongado.

Cenários futuros: o FGC corre risco de colapsar?

Apesar do salto para R$ 51,8 bilhões, o FGC dispõe de patrimônio nominalmente três vezes maior que o rombo. Ainda assim, a tendência é de elevação do risco-moral se novas quebras ocorrerem em cadeia.

Consultorias de risco projetam três cenários:

Cenário base – Não há novas liquidações significativas. O rombo bilionário no FGC é absorvido ao longo de cinco anos, e o Fundo volta ao nível histórico de liquidez em 2030.

Cenário adverso – Mais um banco de médio porte entra em liquidação. O déficit ultrapassaria R$ 70 bilhões e exigiria medidas extraordinárias, como garantia soberana temporária ou uso de compulsórios.

Cenário severo – Espiral de desconfiança leva correntistas a migrar recursos para instituições de grande porte. Pequenos bancos sofrem aperto de liquidez, elevando a probabilidade de novas quebras. Nessa hipótese, analistas veem risco de o patrimônio disponível cair abaixo de níveis prudenciais, forçando um redesenho regulatório.

Investidor pessoa física: o que fazer a partir de agora

A principal recomendação continua sendo a diversificação. Mesmo com o rombo bilionário no FGC, o mecanismo de cobertura segue operacional. No entanto, concentrar mais de R$ 250 mil no mesmo banco — especialmente se for de médio porte — deixou de fazer sentido.

Confira um roteiro prático:

1. Verifique o emissor antes de aplicar. Bancos pequenos costumam pagar taxas maiores em CDBs e LCIs, mas avalie o rating, a saúde financeira e o histórico de liquidez.

2. Fracionar é regra. Possui R$ 1 milhão para alocar em renda fixa garantida? Divida em quatro instituições diferentes, limitando-se ao teto do FGC.

3. Monitore posições existentes. Caso possua títulos com vencimento longo em um banco pressionado, considere migrar gradualmente, mesmo aceitando taxa menor.

4. Use canais oficiais. A lista de instituições participantes do FGC está disponível no site do Fundo. Operações feitas em fintechs costumam ser lastreadas por bancos tradicionais; certifique-se de quem é o emissor real.

Cronologia da crise no conglomerado Master

2018-2020 – Expansão agressiva de crédito consignado e de cartões para público de renda média.

2021 – Relatórios internos apontam início de descasamento de prazos e aumento de inadimplência.

2023 (1º semestre) – Vazam rumores de dificuldades de liquidez; BC intensifica monitoramento.

2023 (2º semestre) – FGC cria linha emergencial para sustentar captações, evitando corrida bancária.

2024 (março) – Liquidação do Banco Master; FGC estima R$ 40,6 bilhões em garantias.

2024 (agosto) – Início do pagamento aos credores; 90% quitados em um ano.

2025 (janeiro) – Liquidação do Will Bank; rombo adicional de R$ 6,3 bilhões.

2027 (abril) – Liquidação do Banco Pleno; rombo sobe para R$ 51,8 bilhões.

Perguntas e respostas

Qual o limite de cobertura?
R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição, somados todos os produtos elegíveis.

Posso receber em conta de outro banco?
Sim. O FGC libera o pagamento em uma conta aberta automaticamente, e o cliente faz TED ou PIX para qualquer instituição.

Quanto tempo demora?
Após a homologação da lista, em média 10 dias úteis. No caso do Pleno, o cronograma ainda será divulgado.

E se tiver valor acima do limite?
A parcela excedente entra como crédito na massa falida do banco, sem garantia. O ressarcimento, se houver, depende da venda de ativos.

Existe risco de eu não receber nem o teto?
Até hoje, o FGC sempre honrou 100% das garantias dentro do limite legal.

Conclusão: lições do episódio

A liquidação do Pleno fecha um ciclo de quebras que pressionou como nunca o modelo de mutualismo do FGC. Embora o rombo bilionário no FGC preocupe, a capacidade de pagamento permanece intacta, reforçada pelo plano de antecipação de contribuições bancárias. Para pequenos poupadores, a lição é clara: use o limite de garantia a seu favor e não confunda taxa alta com segurança.

Enquanto isso, o Banco Central e o próprio mercado precisam calibrar os incentivos para evitar que bancos assumam riscos excessivos contando com a rede de proteção do Fundo. Transparência, fiscalização e educação financeira se mostram, mais uma vez, as melhores vacinas contra crises futuras.

O episódio reforça a máxima: confiança leva anos para ser construída e segundos para ser abalada. No sistema financeiro, medidas preventivas custam menos que resgates bilionários.

Com informações de InfoMoney

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