Juros reais do Tesouro Direto caem e encostam nas mínimas de 2024
Os juros reais do Tesouro Direto voltaram do feriado prolongado de Carnaval em forte queda, reacendendo o debate sobre custo de oportunidade, dinâmica inflacionária e perspectivas de longo prazo para a dívida pública brasileira. A sessão desta quarta-feira (18) foi marcada por recuo expressivo nas taxas dos papéis atrelados ao IPCA, sobretudo na ponta mais longa da curva, aproximando-as dos menores níveis registrados neste ano.
Apesar da leve alta dos rendimentos dos Treasuries nos Estados Unidos, o mercado local viu os prêmios encolherem em bloco, impulsionados pela valorização do real frente ao dólar, pela maior procura por ativos de menor risco doméstico e pela leitura de que o Banco Central manterá o ciclo de cortes na Selic. Para o investidor, o movimento abre espaço tanto para realocação de portfólio quanto para reflexão sobre horizontes de aplicação e preservação de poder de compra.
Por que as taxas recuaram na volta do feriado?
O ambiente internacional trazia, na manhã de quarta-feira, dois vetores que costumam jogar a favor da alta de juros: tensão geopolítica no Oriente Médio – com rumores de eventual escalada dos EUA contra o Irã – e avanço marginal de rendimentos das Treasuries de 10 e 30 anos. Ainda assim, o efeito não se propagou por completo para o Brasil.
Especialistas atribuem a descorrelação a fatores locais. Entre eles, destacam-se:
1. Fluxo cambial positivo: o dólar à vista recuava 0,45% perto do meio-dia, devolvendo parte da pressão compradora observada nas semanas anteriores. Quando o real se aprecia, investidores estrangeiros tendem a enxergar oportunidade em títulos públicos brasileiros, alavancando demanda e comprimindo taxas.
2. Leilão primário adiado: a agenda de oferta de papéis do Tesouro Nacional costuma ser religiosamente cumprida, mas semanas com feriados prolongados diluem o volume de emissões. A escassez pontual de novos títulos favoreceu o fechamento de curvas no mercado secundário.
3. Expectativa de corte de juros: as últimas comunicações do Comitê de Política Monetária reforçaram a possibilidade de novos cortes de 0,5 ponto percentual na Selic. Com menor remuneração nominal à vista, a busca por prêmios acima da inflação se intensifica.
Os números que chamaram atenção
Entre todos os indicadores do dia, o Tesouro IPCA+ 2050 foi o que mais brilhou. A taxa real passou de 6,92% na sexta-feira (13) para 6,86% no pós-Carnaval, flertando fortemente com a mínima de 6,84% vista em 2 de fevereiro. Na comparação de poucos dias, um recuo de 0,06 ponto percentual parece modesto, mas, para um título com 26 anos de duração, o impacto em marcação a mercado é relevante.
O movimento não se restringiu ao horizonte de 2050. O cupom do IPCA+ 2045 caiu para 7,13% e o do 2040 para 7,16%. No trecho intermediário, o IPCA+ 2032 desceu a 7,52%. Já nos papéis prefixados, o Tesouro 2029 fechou em 12,65% ao ano, contra 12,71% antes do feriado, enquanto o 2032 recuou sete pontos-base, para 13,28%.
Para efeito de comparação, o Treasury de 10 anos estava em 4,081% e o de 30 anos, em 4,704%. A diferença de 290 a 310 pontos-base entre yields americanos e brasileiros, embora ainda elevada, começa a atrair o conceito de “compression trade” – quando gestores veem potencial de convergência de spreads ao longo do tempo.
O que significa chegar perto da mínima do ano?
Num investimento ligado ao índice de preços, a taxa real contratada é a remuneração acima da inflação que o investidor receberá se levar o título até o vencimento. Ao se aproximar da mínima do ano, o cupom indica que o mercado, naquele momento, aceita receber menos prêmio por risco de longo prazo.
Isso pode decorrer de:
Confiança na trajetória fiscal: mesmo sem grandes novidades em relação ao arcabouço, alguns agentes entendem que o governo demonstrou disposição de vetar reajustes salariais considerados excessivos, sinal de disciplina que ajuda a conter projeções de despesa futura.
Antecipação de desinflação: a curva VNA futura – derivada de preços de NTN-B – embute expectativas de IPCA mais comportado. Se a inflação convergir para o centro da meta, basta um prêmio real menor para compensar os riscos.
Rotação de portfólio global: com a temporada de resultados chegando ao fim em Wall Street e parte das bolsas em máximas históricas, gestores globais aproveitam janelas de realização para aumentar posições em renda fixa emergente.
Impacto prático para quem já investe
Cotistas que compraram IPCA+ 2050 acima de 7% há poucas semanas tendem a observar valorização significativa no preço unitário (PU) do papel. Na renda fixa, quando as taxas caem, o preço sobe. Isso pode representar ganho de capital para quem decidir vender antecipadamente, mas ele só se concretiza se houver alienação do título.
Do lado oposto, quem planeja novas compras se depara agora com remuneração um pouco menor. Há, portanto, a clássica dúvida: “ainda vale a pena entrar?” A resposta depende de horizonte de investimento e tolerância a volatilidade. Se o objetivo é blindar poder de compra por 20, 30 anos, receber IPCA + 6,8% pode permanecer atrativo, afinal trata-se de taxa real robusta quando comparada à média histórica pós-Plano Real, em torno de 5% ao ano.
Prefiro prefixados ou indexados?
Os prefixados apresentaram recuos proporcionais semelhantes, mas seguem acima de 12% para prazos médios de sete a quinze anos. Ao escolher entre prefixado e atrelado à inflação, o investidor precisa avaliar cenários distintos:
Prefixado: paga taxa nominal conhecida, excelente se a inflação ficar controlada. Contudo, é mais sensível a choques inflacionários ou reavaliações da política monetária.
IPCA+: protege contra alta de preços, pois remunera acima do IPCA. Em compensação, oscila mais fortemente com variações de cupom real e pode gerar marcação negativa se as taxas subirem.
Com a Selic em tendência de queda, prefixados costumam ganhar relevância, mas não necessariamente substituem o papel da indexação inflacionária, que segue imprescindível para reservas de longo prazo.
Cenário doméstico: fatores de risco no radar
Do lado político-econômico, dois eventos recentes dominaram a discussão no mercado:
Liquidação extrajudicial do Banco Pleno: o Banco Central decidiu fechar a instituição, medida que não possui relevância sistêmica, mas reforça o compromisso da autoridade monetária com a saúde do sistema financeiro. Ainda que o impacto direto em juros seja mínimo, episódios de intervenção costumam gerar busca por segurança, favorecendo papéis soberanos.
Veto parcial de Lula a reajustes de servidores: ao barrar aumentos automáticos para Legislativo e TCU, o Executivo enviou sinal de responsabilidade fiscal, componente crucial para manter credibilidade junto a investidores. Qualquer recuo nessa frente pode reverter o fechamento de curvas observado.
Como a valorização do real influencia os títulos
Embora o Tesouro Direto esteja precificado em reais, a dinâmica cambial exerce influência indireta. Primeiro, porque a entrada líquida de dólares no País diminui a pressão inflacionária via bens transacionáveis; segundo, porque aumenta a base de capital estrangeiro disposto a comprar títulos brasileiros. Quanto menor o risco-câmbio percebido, menor prêmio exigido em juros.
Na quarta-feira, a divisa americana chegou a ser negociada a R$ 5,20, refletindo não apenas fluxo, mas expectativas sobre o diferencial de juros futuros. Se o real se mantiver forte, o Treasury pode subir sem que a NTN-B precise acompanhar na mesma magnitude.
Comparação histórica das taxas reais longas
Para dimensionar o quão baixas estão as taxas de 6,8% a 7,1% para 2050-2060, vale recorrer a um breve histórico:
• Em 2021, antes do ciclo de aperto monetário, o IPCA+ 2050 chegou a ser negociado a 3,8% ao ano, patamar extraordinariamente baixo, que depois se provou insustentável.
• No ápice das tensões fiscais de outubro de 2022, a mesma referência ultrapassou 7,5% ao ano.
• Em meados de 2023, oscilou entre 6,5% e 7,3%, refletindo a transição de governo e ajustes no arcabouço.
Portanto, 6,86% não é a mínima histórica; ainda assim, configura um ponto inferior dentro da banda de doze meses e pode chamar atenção de quem monitora janelas de entrada.
Imagem: Internet
Quais são as projeções para a Selic e o impacto nos prêmios?
O relatório Focus mais recente projeta Selic em 9,0% no fim de 2024. Alguns economistas revisaram para 8,5%, diante da leitura de inflação corrente benigna e ausência de choques externos de oferta. Caso o Copom entregue cortes mais profundos, os juros nominais curtos cairão, deixando prêmios longos menos necessários.
No entanto, analistas de renda fixa alertam: prêmios longos também carregam risco fiscal estrutural, que não se reduz na mesma velocidade da Selic. A diferença entre 6,86% real e meta de 8,5% nominal indica que, mesmo em cenário de juros baixos, ainda há colchão de segurança – contanto que o IPCA siga domado.
Abrindo a caixa-preta da marcação a mercado
Quando o investidor compra Tesouro Direto, passa a ver diariamente a oscilação do preço. Essa variação é consequência da marcação a mercado, que compara o cupom do título com as taxas praticadas no mercado secundário. Se as taxas recuam, o valor de face sobe; se sobem, o valor cai.
Consideremos dois exemplos hipotéticos:
Exemplo A: compra de IPCA+ 2050 a IPCA + 7,20% em janeiro. Com a taxa atual a 6,86%, o preço pode ter se valorizado algo próximo de 10%. Caso o investidor venda agora, realiza o lucro.
Exemplo B: compra de mesmo papel em 2021 a IPCA + 4,00%. Mesmo com taxa caindo hoje, o preço ainda pode estar abaixo daquele praticado em 2021, pois a disparada para além de 7% em 2022 corroeu parte do PU. A lição: a volatilidade na renda fixa longa é real e significativa.
Efeitos na formação de portfólio previdenciário
Consultores financeiros costumam indicar exposição a NTN-Bs longas para complementar aposentadorias, devido à característica de correção inflacionária. O recuo para perto de 6,8% reforça a atratividade, mas também exige disciplina:
• Alocação gradual: diluir compras ao longo de semanas reduz risco de adquirir tudo no “topo” de preço.
• Objetivo alinhado ao vencimento: se a aposentadoria está a 25 anos de distância, papéis 2045-2050 possuem maturidade conveniente.
• Tolerância a quedas temporárias: títulos longos podem cair 15% a 20% em marcação a mercado sem que haja inadimplência. Resistir a pânico faz parte da estratégia.
Estratégias de curto prazo para traders
Nem todo participante do Tesouro Direto busca carregar até o vencimento. Traders mais ativos procuram explorar movimentos táticos como o visto nesta quarta-feira. Duas abordagens se destacam:
1. Posição direcional comprada: ao antecipar que a taxa cairia com fluxo pós-feriado, o investidor poderia ter comprado NTN-Bs na sexta-feira e vendido hoje, embolsando ganho de capital.
2. Switch entre vértices: consiste em vender um título que valorizou (ex.: 2050) e comprar outro cujo spread contra a curva se ampliou (ex.: 2032), mantendo risco soberano, mas tentando capturar distorções relativas.
Questões regulatórias e de liquidez
Desde a reforma do Tesouro Direto em 2022, o programa passou a realizar ofertas diárias com spreads mais estreitos entre compra e venda. Ainda assim, títulos muito longos, como 2060, podem exibir liquidez menor, gerando oscilações mais abruptas. O investidor deve estar ciente de que o preço de revenda nunca é garantido e depende de condições de mercado.
Além disso, há incidência de Imposto de Renda regressivo sobre os rendimentos, começando em 22,5% para posições inferiores a seis meses e atingindo 15% após dois anos. No caso de vendas antecipadas, a tributação pode alterar o resultado líquido da operação.
Visão dos gestores de renda fixa
Em relatórios divulgados nesta semana, diversos gestores locais reiteraram overweight em inflação curta (NTN-B 2029-2035) e postura tática em prefixados. O racional é que a difusão do IPCA caiu, mas núcleos ainda exigem vigilância, o que manteria papéis curtos rentáveis sem assumir risco excessivo de duration.
Para horizontes acima de 20 anos, a opinião se divide. Parte dos gestores defende que 6,8% já precifica cenário benigno demais para o Brasil. Outros, porém, lembram que a dívida bruta/PIB tem trajetória estável caso o arcabouço seja cumprido, e que a base de investidores institucionais domésticos, como fundos de pensão, permanece carente de ativos de duration longa.
Como acompanhar a curva em tempo real
O Tesouro Nacional divulga cotações de referência pela manhã e após o fechamento, mas o investidor pessoa física pode conferir taxas de compra e venda a qualquer momento no site do Tesouro Direto ou em plataformas de instituições financeiras.
Ferramentas gratuitas, como o boletim diário da B3, exibem a curva soberana em minutos singulares. Já quem utiliza aplicativos de corretoras costuma receber alertas instantâneos quando a taxa atinge patamar predeterminado.
Checklist para decidir a compra após a queda
Antes de efetuar nova aplicação, faça as seguintes perguntas:
1. Meu horizonte de investimento é compatível com o vencimento do título?
2. Tenho reserva de emergência em produtos mais líquidos?
3. Estou confortável com oscilações negativas temporárias?
4. Qual é a parcela do portfólio já exposta à inflação?
5. Tenho expectativa de precisar resgatar antes do prazo?
Responder a esses pontos ajuda a evitar decisões por impulso motivadas por manchetes sobre “menor taxa do ano”.
Projeções alternativas de inflação e taxa real
Modelos estocásticos de algumas casas apontam que, em cenário de inflação convergindo para 3% a partir de 2026 e Selic neutra de 7%, o juro real de equilíbrio tenderia a 4,5%-5%. Se isso se materializar, o atual cupom de 6,8% paga prêmio excedente de quase 2 pontos-percentuais ao ano, argumento que sustenta compras de longa duração.
Em contrapartida, se a inflação persistir a 5% e houver deterioração fiscal, a taxa de equilíbrio pode subir para 7%-7,5%, o que implicaria desvalorização de preços de NTN-Bs compradas hoje. O investidor deve, portanto, ponderar cenários e probabilidades.
FAQ – Perguntas frequentes sobre o tema
Qual a diferença entre rendimento anual e rendimento real?
Rendimento anual divulgado pelo Tesouro Direto já é líquido de inflação no caso dos papéis IPCA+. Trata-se da taxa real. Nos prefixados, a taxa é nominal.
É possível perder dinheiro em Tesouro Direto?
Se levar até vencimento, não há risco de calote considerado relevante. Contudo, quem vende antes pode realizar perdas se o preço do título cair.
Taxas podem cair ainda mais?
Sim. Em 2021, chegaram a 3,8%. Nada impede nova queda se houver surpresas positivas em inflação, fiscal ou crescimento global.
Posso receber cupom semestral?
Alguns títulos (2045, 2037, 2060) pagam juros a cada semestre. Essa modalidade gera fluxo de caixa periódico, mas reinvestir cupons é essencial para manter rentabilidade comparável aos papéis sem cupom.
Conclusão: oportunidades e cautela caminham juntas
A volta do Carnaval trouxe alívio às curvas de juros brasileiras, fazendo com que os juros reais do Tesouro Direto se aproximassem das menores marcas de 2024. O movimento cria janela de ganhos para quem já estava posicionado e chama a atenção de novos investidores interessados em inflação longa protegida.
Antes de decidir, porém, é fundamental avaliar perfil de risco, horizonte de tempo e diversificação. Taxas podem continuar descendo, mas também podem reverter se o cenário macro desafiar expectativas. Em qualquer hipótese, informação e planejamento permanecem as melhores defesas do investidor.
Com informações de InfoMoney

