Crise de confiança no dólar alimenta migração global a ativos reais
A crise de confiança no dólar deixou de ser um debate restrito a especialistas em política monetária e, gradativamente, tornou-se o fio que conecta diversos movimentos de mercado observados em 2023 e 2024. A percepção de que os Estados Unidos estariam utilizando sua musculatura financeira como ferramenta de pressão geopolítica — e não apenas como âncora de estabilidade global — levou investidores, governos e gestores a repensar a forma de proteger patrimônio, reservar liquidez e distribuir risco.
Esse descompasso de expectativas foi tema central da edição de estreia da nova fase do programa Stock Pickers, comandado por Lucas Collazo. No estúdio, Artur Carvalho, economista-chefe da Truxt Investimentos, e Bruno Garcia, gestor da mesma casa, destrincharam por que enxergam o fenômeno como “estrutural e irreversível” — expressão que, no jargão do mercado, significa algo maior que um soluço conjuntural.
Ao longo de quase uma hora de conversa, os convidados explicaram o que está minando a credibilidade do sistema de “checks and balances” norte-americano, como isso transborda para o mercado de câmbio, por que o ouro desponta como vencedor e de que forma países, inclusive aliados históricos dos EUA, caminham para diminuir a dependência do dólar.
O que mudou na percepção global sobre a moeda americana
A supremacia do dólar remonta aos acordos de Bretton Woods (1944), quando a devastação da Segunda Guerra empurrou o planeta a adotar uma referência cambial única. Desde então, crises vieram e se foram — da dívida latino-americana nos anos 1980 ao colapso do subprime em 2008 — sem abalar de forma estrutural a moeda. Entretanto, segundo Artur Carvalho, “algo diferente” começou a emergir nos últimos anos. O economista avalia que a erosão institucional vista em Washington, marcada por decisões cada vez mais erráticas do Executivo e chanceladas por um Legislativo polarizado, acendeu alerta em capitais estrangeiras.
Carvalho sustenta que a inquietação não se limita a questões econômicas, mas abrange dimensões políticas e jurídicas. A capacidade que o governo federal norte-americano passou a demonstrar para congelar reservas de países considerados adversários, sancionar pessoas físicas e jurídicas ou, ainda, revogar acordos comerciais de maneira unilateral, gerou a sensação de que manter todos os ovos na mesma cesta pode ser arriscado.
Nesse contexto, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney — mencionado por Carvalho durante o programa — vocalizou em Davos aquilo que muitos diplomatas sussurravam em corredores multilaterais: se o dólar é usado como arma, buscar abrigo em alternativas não é opção, mas imperativo de sobrevivência.
Rotation Trade: capital saindo marginalmente dos EUA
Lucas Collazo introduziu o termo Rotation Trade para definir o processo de realocação marginal de capitais que, historicamente, orbitavam o mercado norte-americano. Esse fluxo, embora ainda incipiente quando comparado ao oceano de recursos financeiros que circula em Wall Street, já é suficiente para mexer com preços de commodities, títulos soberanos emergentes e, sobretudo, com o ouro.
Na prática, o movimento se materializa em três frentes:
1. Reservas internacionais: Banco centrais de economias emergentes e desenvolvidas compram ouro e reduzem a proporção de treasuries (títulos do Tesouro americano) em seus cofres.
2. Investidores institucionais: Fundos soberanos, fundos de pensão e gestoras independentes ampliam exposição a moedas alternativas, como o renminbi chinês, e a ativos tangíveis — infraestrutura, energia, metais preciosos.
3. Pessoas físicas: Famílias com maior poder aquisitivo recorrem a instrumentos de diversificação que fogem do espectro tradicional de “60/40” (60 % ações americanas, 40 % bonds em dólar), buscando ETFs de commodities ou de ações de países menos correlacionados aos EUA.
O ouro como protagonista da nova ordem de reserva
Historicamente visto como porto seguro em tempos de turbulência, o ouro volta a ser celebrado. Ainda que seu preço em dólares flutue, a commodity reúne duas características cruciais para o momento: é finita e está fora do alcance de sanções políticas diretas, desde que armazenada fisicamente em território controlado.
Para Carvalho, a “remonetização do ouro” se intensificou após 2022, quando diversas nações perceberam que reservas depositadas em bancos ocidentais corriam o risco de bloqueio em eventual conflito diplomático. Desde então, bancos centrais aceleraram compras do metal, fenômeno corroborado por dados do World Gold Council, que apontam recordes de aquisição oficial — informação citada de forma genérica pelos gestores, sem divulgação de números específicos no programa.
O reflexo é visível: mesmo em um ambiente de juros elevados nos EUA, o ouro sustenta valorização consistente, contrariando a correlação negativa tradicional entre metal e yields de Treasuries.
Desigualdade e polarização: as raízes sociopolíticas do fenômeno
Bruno Garcia adotou lente mais sociológica. Para ele, os problemas que corroem a confiança na potência norte-americana remontam à crise do subprime, em 2008. “A partir dali, a distância entre ricos e pobres alargou-se num ritmo que as instituições não conseguiram mitigar”, afirma.
O gestor avalia que o sentimento de injustiça social erodiu a imagem do establishment político. Esse vácuo abriu espaço para lideranças tidas como “antipolítica”, cujo discurso simplista, mas de forte apelo, encontra ressonância em uma classe média decepcionada. O exemplo mais gritante é Donald Trump, cuja ascensão — e possível retorno — simbolizaria, para Garcia, a “revolta do eleitorado contra o sistema”.
A consequência prática desse ambiente, segundo ele, é a adoção de políticas econômicas menos previsíveis, o que aumenta o prêmio de risco de se manter 100 % dolarizado.
Uso político de instrumentos financeiros: ponto de inflexão
O debate no Stock Pickers também explorou o crescente emprego de sanções financeiras como braço de política externa. Episódios recentes — como o bloqueio de reservas de países em conflito — serviram de alerta para pares que, mesmo alinhados a Washington, temem virar alvo ao menor desentendimento diplomático.
Essa percepção dialoga com a tese de desvinculação (decoupling) que a China, segunda maior economia do planeta, vem construindo. O país asiático trabalha na criação de infraestrutura de pagamentos e financiamento paralela à dominada pelos EUA, o que inclui o avanço do CIPS (China International Payment System) como alternativa ao SWIFT e a intensificação de acordos bilaterais precificados em renminbi.
Embora o programa apresentado por Collazo não tenha mergulhado nesses detalhes, é possível compreender, a partir dos fatos relatados, que cada passo rumo à desdolarização fortalece a convicção de que estamos diante de uma inflexão histórica.
Consequências para emergentes: oportunidade ou armadilha?
Se capitais deixam marginalmente os EUA, o destino natural são outras geografias. Países emergentes — Brasil incluso — aparecem como beneficiários em potencial, pois combinam rendimentos reais elevados, base industrial relevante e mercado de capitais em evolução.
No entanto, Garcia adverte que o “fluxo não bate à porta de quem não fez lição de casa”. Sustentar narrativa de estabilidade fiscal, garantir independência do banco central e fortalecer marcos regulatórios são pré-requisitos para capturar essa migração de recursos. A onda de juros em queda no Brasil, por exemplo, pode se converter em reforço ao mercado acionário doméstico, desde que a confiança na condução macroeconômica permaneça.
Na prática, a entrada líquida de capital estrangeiro em Bolsa ou em títulos soberanos brasileiros implica apreciação cambial, redução do custo de financiamento interno e maior fôlego para empresas investirem. Porém, a volatilidade externa continua alta e qualquer solavanco nos EUA reverbera aqui, razão pela qual diversificação segue mandatória.
Como gestores estão reposicionando carteiras
Questionados sobre as decisões táticas adotadas em portfólios, Carvalho e Garcia destacaram quatro eixos:
Imagem: Internet
1. Aumento de ouro físico e via ETFs: Serve como contrapeso ao risco de “debasement” do dólar.
2. Exposição a commodities metálicas e energéticas: No cenário de transição energética, metais como cobre e níquel tendem a ser demandados, ao passo que a segurança energética mantém o petróleo relevante.
3. Ações de países subavaliados: Japão foi citado como exemplo de mercado “esquecido” que voltou ao radar, refletindo valuation atrativo e reformas de governança corporativa.
4. Redução marginal de treasuries longos: Com curva de juros ainda pressionada, manter duration curta é visto como forma de preservar liquidez sem carregar muito risco de marcação a mercado.
Riscos de curto prazo: o que pode sair do roteiro?
Embora enxerguem o fenômeno como irreversível, os gestores não descartam oscilações de curto prazo que podem, temporariamente, fortalecer o dólar. Entre elas:
• Choque de aversão a risco: Em crises agudas, o instinto de autopreservação leva à compra de moeda americana, movimento conhecido como “flight to quality”.
• Surpresa inflacionária nos EUA: Caso o Federal Reserve prolongue apertos monetários, yields maiores tendem a atrair capital em busca de retornos mais altos.
• Mudança de sinal político: Eleições ou acordos bipartidários que restabeleçam previsibilidade institucional podem reacender parte da confiança perdida.
Esses elementos ajudam a lembrar que estratégias de proteção não devem extrapolar alocação responsável e que “apostar contra o dólar” de forma concentrada pode custar caro.
Geopolítica e regulação: peças adicionais do quebra-cabeça
Nenhum ativo existe no vácuo regulatório. A corrida por alternativas ao dólar desperta discussões em órgãos multilaterais sobre mecanismos de supervisão e padronização de contratos. Países que desejam liquidar comércio em moedas locais enfrentam obstáculos, como liquidez limitada, falta de mercado de derivativos profundo e menor transparência de dados.
Além disso, a convivência de múltiplos sistemas de pagamento pode fragmentar o mercado global, elevando custos de transação. Para os especialistas, o ouro dribla parte desse impasse justamente porque não depende de rede de liquidação eletrônica: é tangível e universalmente aceito.
Lições para o investidor brasileiro
O debate traz recados práticos:
Diversifique em ativos reais: A inclusão de ouro, fundos imobiliários globais ou infraestrutura pode reduzir correlação com mercado americano.
Proteja sua renda fixa: Mesmo com juros mais baixos no Brasil, manter parte do portfólio em índices de inflação e prefixados curtos ajuda a navegar choques externos.
Olhe além das fronteiras: ETFs de ações japonesas, asiáticas ou latino-americanas oferecem exposição a economias beneficiadas pela realocação de capital.
Foque na qualidade: Empresas com balanço sólido, baixo endividamento em dólar e capacidade de repassar preços tendem a atravessar períodos de estresse com menos sobressaltos.
O futuro do dólar: hegemonia abalada, não extinta
Apesar da narrativa de “fim do dólar”, os próprios gestores reconhecem que a moeda ainda possui vantagens competitivas sem paralelo: profundidade de mercado, arcabouço jurídico robusto e status de ativo livre de risco soberano. A novidade reside no fato de que, pela primeira vez em muitas décadas, o status hegemônico começa a ser contestado na prática — e não apenas na retórica.
Desse modo, o cenário mais provável desenhado por Carvalho e Garcia é o de um mundo multipolar, no qual dólar segue relevante, mas divide espaço com reservas em ouro, em moedas regionais fortes e em ativos tangíveis. Essa transição, contudo, tende a ser gradual, movida por ondas de eventos — algumas intensas, outras suaves — que reconfiguram carteiras ao redor do globo.
Conclusão: uma janela histórica se abre
O colapso da confiança nos Estados Unidos, alimentado por crescente imprevisibilidade governamental e desigualdade social, impulsiona investidores a repensar premissas aparentemente inabaláveis. Ao mesmo tempo em que expõe vulnerabilidades do sistema atual, cria oportunidades para países capazes de oferecer estabilidade institucional e remuneração atrativa.
Para quem investe, a recomendação dos especialistas é clara: aceitar a incerteza como parte do jogo e adotar postura ativa de diversificação. Ouro, commodities, ações de mercados subavaliados e renda fixa doméstica bem calibrada formam o núcleo de um portfólio desenhado para navegar a era da crise de confiança no dólar.
Se o futuro reservará um triunfo definitivo do metal amarelo ou a reinvenção da moeda norte-americana, ninguém pode afirmar. O que parece fora de dúvida, porém, é que o investidor que ignorar os sinais de mudança corre o risco de chegar tarde a uma das maiores transformações financeiras do século XXI.
Com informações de InfoMoney


