O boom dos ETFs de renda fixa despontou como um dos fenômenos mais relevantes do mercado de capitais brasileiro entre 2024 e 2026. Em pouco mais de doze meses, o patrimônio líquido da indústria quase dobrou, passando de R$ 46,4 bilhões para R$ 90,2 bilhões, segundo a Anbima. Esse salto, embora expressivo, revela apenas a superfície de um movimento estrutural que mescla mudanças tributárias, busca por eficiência de custos e maior oferta de produtos.
Neste artigo aprofundamos as razões que levaram ao crescimento acelerado, apresentamos as oportunidades que surgem para investidores de todos os perfis e analisamos as barreiras que ainda precisam ser superadas para que o mercado de ETFs alcance o mesmo grau de maturidade visto lá fora.
A seguir, você confere um panorama completo, organizado em tópicos para facilitar a leitura, respondendo às perguntas essenciais: o que são esses produtos, quem está por trás da expansão, quando e por que ela ocorreu, como investir e que fatores podem impulsionar – ou limitar – o próximo ciclo de crescimento.
O que explica a explosão recente dos ETFs de renda fixa?
Embora os ETFs estejam listados na B3 desde 2002, a maior parte dos lançamentos iniciais focava exclusivamente em índices de ações. Esse desequilíbrio começou a mudar quando as condições macroeconômicas e regulatórias favoreceram alternativas de renda fixa. O gatilho decisivo foi a alteração na tributação dos chamados fundos exclusivos, que passaram a sofrer o mecanismo de come-cotas. Investidores acostumados a adiar o pagamento de Imposto de Renda buscaram veículos igualmente eficientes, mas sem a cobrança semestral – e o ETF de renda fixa se encaixou perfeitamente nessa necessidade.
Dimensão do mercado: números que sustentam o crescimento
De acordo com dados compilados pela Anbima, o patrimônio líquido total dos fundos de índice saltou de R$ 46,4 bilhões em dezembro de 2024 para R$ 90,2 bilhões em janeiro de 2026. Outros recortes ajudam a dimensionar o avanço:
• Participação dos ETFs de renda fixa: mesmo representando apenas 24,2% dos 177 ETFs listados, a classe responde por parcela crescente dos aportes recentes.
• Penetração na indústria de fundos: menos de 1% no Brasil, frente a 35% nos Estados Unidos, o que sugere espaço para multiplicação nos próximos anos.
• Concentração de investidores: cerca de um em cada quatro investidores de ETF no País usa a plataforma de uma única gestora, a XP Asset, sinalizando potencial de pulverização conforme outras casas expandem a grade.
Por que a eficiência tributária faz tanta diferença?
Nos fundos tradicionais abertos, especialmente naqueles classificados como de longo prazo, o investidor é submetido ao come-cotas duas vezes ao ano. O recolhimento antecipado reduz o efeito dos juros compostos sobre o capital investido. Já no ETF, o imposto incide somente no resgate, proporcionando maior deferimento tributário. A mudança nas regras para fundos exclusivos expôs essa vantagem, migrando volumes significativos de recursos corporativos e patrimoniais para a estrutura de ETF.
O papel de consultores e assessores no boom dos ETFs
Paralelamente à eficiência fiscal, houve avanço do modelo de distribuição baseado em taxa fixa – em vez de rebate de comissão. Nessa configuração, consultores independentes e assessores de investimento tendem a priorizar produtos mais baratos e transparentes, pois sua remuneração não depende do spread de taxa de administração. Como os ETFs possuem custos reduzidos e negociam em Bolsa, ganharam espaço natural nas carteiras recomendadas, ampliando o universo de potenciais compradores.
Comparação internacional: lições de maturidade dos EUA
Enquanto os ETFs correspondem a 35% de todo o patrimônio da indústria de fundos norte-americana, no Brasil eles ainda não chegam a 1%. Essa distância revela dois insights importantes. Primeiro, há um oceano de crescimento possível à frente, caso o investidor brasileiro abrace com mais convicção o conceito de gestão passiva. Segundo, a trajetória de maturidade tende a ser marcada por diversificação de classes de ativos, redução gradativa de custos e avanços tecnológicos que simplifiquem a experiência de compra e de reporte.
Evolução da grade de produtos: da renda variável à renda fixa diversificada
Historicamente, boa parte dos ETFs brasileiros replicava grandes índices de ações, como Ibovespa ou IBrX. O ciclo de juros elevados, porém, penalizou a rentabilidade dos fundos de ações e favoreceu alternativas pós-fixadas ou atreladas à inflação. Gestoras como a XP Asset passaram a lançar ETFs que acompanham NTN-B (Tesouro IPCA+), LFT (Tesouro Selic) e até curvas pré-fixadas. Também há iniciativas em criptoativos e commodities, mas o foco do fluxo recente repousa na renda fixa indexada.
Oportunidades para investidores de pequeno, médio e grande porte
Liquidez diária: por serem negociados na Bolsa, os ETFs podem ser comprados ou vendidos ao longo do pregão, o que confere flexibilidade superior a diversos fundos tradicionais com prazo de cotização D+30 ou D+60.
Baixo custo: taxas de administração costumam ficar abaixo de 0,30% ao ano, contra 1% a 2% em muitos fundos de renda fixa ativos.
Transparência: a carteira do ETF é pública, pois o gestor precisa replicar rigorosamente o índice-espelho. Isso elimina surpresas na composição de ativos.
Acesso fracionado: via negociação em lote padrão (geralmente 10 cotas) ou mercado fracionário, permitindo alocações a partir de poucas centenas de reais.
Eficiência tributária: imposto devido apenas no resgate, preservando o efeito dos juros compostos.
Desafios e barreiras a vencer
Apesar do otimismo, gestores e especialistas reconhecem obstáculos que podem frear o ritmo de adesão:
Imagem: Internet
• Juros reais elevados: NTN-B acima de 7% ao ano geram um “vórtice de liquidez” na própria dívida pública, competindo com qualquer outro produto.
• Experiência do usuário: muitos home brokers ainda classificam ETF de renda fixa como se fosse fundo de ações, confundindo o investidor na hora do informe de rendimentos.
• Educação financeira: a sigla ETF, somada a códigos como LFTB11 ou IB5M11, cria barreira de compreensão para quem está dando os primeiros passos.
• Baixa liquidez em alguns tickers: embora os produtos mais populares tenham bom volume, parte dos ETFs recém-lançados ainda opera com poucos negócios diários, gerando spread maior.
Perspectiva de longo prazo: quem pode ser o grande vencedor?
Gestores da XP Asset, que respondem por cerca de 10% do patrimônio de ETFs no País, projetam que o veículo será o grande ganhador quando o humor de mercado mudar para um ciclo de alta – o chamado bull market. A lógica é simples: no ambiente de juros cadentes, o investidor tende a buscar risco adicional e diversificação, e o ETF oferece exposição rápida a diferentes curvas, prazos e índices setoriais.
Estratégias práticas de alocação utilizando ETFs de renda fixa
Para além do discurso institucional, investidores podem aplicar algumas táticas concretas:
Core-satellite: manter a “parte núcleo” da carteira em um ETF de renda fixa pós-fixado (Selic) para liquidez e segurança, adicionando “satélites” atrelados à inflação ou prefixados para buscar ganhos reais adicionais.
Duração tática: alterar o peso entre ETFs de curto e longo prazo conforme a expectativa de curva de juros. Em ciclos de queda, aumentar a parcela de duration longa pode capturar valorização.
Portfólio 100% ETF: replicar a proposta das grandes casas externas e montar alocação completa: caixa em renda fixa, diversificação internacional via ETF de ações globais e proteção com ETF de ouro ou dólar.
Impacto da tecnologia e do open finance no futuro dos ETFs
Com o avanço de plataformas de consolidação de investimentos e do open finance, tende a melhorar a visualização integrada da carteira. Isso corrige a “sopa de letrinhas” apontada pelos gestores, pois o investidor passa a ver alocação percentual por classe de ativo em interface amigável, independentemente do ticker negociado. A experiência aprimorada pode acelerar a adoção dos ETFs de renda fixa por públicos ainda reticentes.
Competição entre gestoras: de produto avulso a grade completa
A XP Asset aposta em replicar o modelo da Charles Schwab, nos Estados Unidos, oferecendo “grade completa” para que o investidor monte todo o portfólio apenas com ETFs. A tendência é que outras casas acompanhem o movimento, criando batalha de custos semelhantes à vista na indústria americana. Com mais oferta e disputa por taxa de administração, o investidor tende a ganhar em preço e qualidade.
Projeções: até onde o mercado pode chegar?
Se o Brasil replicar, mesmo que parcialmente, a penetração de 35% observada nos EUA, o patrimônio da indústria de ETFs pode multiplicar por mais de trinta vezes nos próximos anos. Ainda que esse cenário seja otimista, dobrar ou triplicar a participação atual – hoje abaixo de 1% – já significaria dezenas de bilhões de reais adicionais em ETFs de renda fixa. A combinação de reformas tributárias, digitalização da distribuição e queda estrutural de juros reais seria o combustível para essa expansão.
Conclusão: por que acompanhar de perto o boom dos ETFs de renda fixa
O boom dos ETFs de renda fixa representa uma mudança geracional no mercado de capitais brasileiro. Impulsionado por eficiência tributária, ampliação da oferta de produtos, avanço da educação financeira e competição de custos, o veículo vem consolidando espaço nas carteiras de investidores pessoa física e institucional. As barreiras existentes – especialmente a experiência de usuário e o nível elevado de juros reais – não invalidam o potencial de longo prazo.
Para quem busca liquidez, transparência e diversificação a baixo custo, os ETFs de renda fixa oferecem um caminho direto. A evolução regulatória e tecnológica será determinante para que o mercado brasileiro reduza a distância em relação às economias desenvolvidas. Nesse contexto, entender o funcionamento, comparar índices, avaliar duração e optar pela composição adequada ao perfil de risco não é apenas recomendável – é indispensável para capturar os benefícios dessa tendência que deve moldar o futuro dos investimentos no País.
Com informações de InfoMoney

