BDR de ETF ativo global da JPMorgan chega à B3 com gestão diferenciada
O BDR de ETF ativo global JRPI39, lançado pela J.P. Morgan Asset, marca a primeira oferta na B3 de recibos que replicam um fundo de gestão ativa internacional, ampliando o leque de alternativas para o investidor brasileiro.
Com taxa de administração de 0,35% ao ano, estratégia de geração de renda via venda de opções e mais de US$ 30 bilhões sob gestão no exterior, a novidade reforça a tendência de democratização de ativos globais mesmo diante das restrições regulatórias para ETFs ativos locais.
Neste artigo, explicamos em detalhes o que muda com a chegada desse produto, como ele funciona, quais os riscos, as expectativas de retorno e por que a iniciativa pode alterar o panorama de diversificação de portfólios no Brasil.
1. O que é o JRPI39 e por que ele é inédito no mercado brasileiro?
Recibos de depósitos são certificados que representam ativos emitidos no exterior. No caso de fundos, recebem a sigla BDR de ETF. Até a data do lançamento do JRPI39, todos os BDRs de ETF disponíveis na B3 eram lastreados em veículos passivos, isto é, fundos que apenas replicam um índice, como S&P 500, Nasdaq 100 ou MSCI World.
O JRPI39, por sua vez, espelha o ETF JPMorgan U.S. Equity Premium Income Active ETF (ticker JEPI, negociado na bolsa de Nova York). O fundo combina a compra de ações dos Estados Unidos com a venda sistemática de opções de compra (as chamadas covered calls) sobre o S&P 500. Essa dinâmica gera um fluxo de prêmios somado aos dividendos das ações, compondo uma renda potencial que os gestores estimam entre 7% e 9% ao ano em dólares, sem considerar a variação cambial.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ainda não autoriza a constituição de ETFs de gestão ativa no mercado doméstico. Por isso, trazer um ativo de fora por meio de BDR foi a solução encontrada pela gestora para oferecer a estratégia ao investidor local, conforme explica Giuliano de Marchi, presidente da J.P. Morgan Asset na América Latina.
2. Como o ETF ativo da JPMorgan gera renda adicional?
A engrenagem central do JEPI é a emissão de opções cobertas, um mecanismo que tende a reduzir a volatilidade e, simultaneamente, captar recursos extras. O processo ocorre em três etapas:
a) Seleção fundamentalista de ações do S&P 500: a equipe de gestão escolhe papéis com perfil de geração de caixa, balanços saudáveis e dividendos acima da média.
b) Montagem da carteira principal: entre 200 e 300 nomes compõem o portfólio, garantindo diversificação setorial.
c) Venda de opções de compra: mensalmente, o fundo vende call options sobre o S&P 500 com preços de exercício ligeiramente acima do nível do índice. Se o mercado subir além desse patamar, o fundo entrega a valorização excedente; caso contrário, embolsa integralmente o prêmio arrecadado, que se soma aos dividendos das ações.
Por possuir as ações que dão lastro às opções (daí o termo covered), o fundo mitiga o risco de chamada de margem e a necessidade de comprar papéis às pressas, algo que poderia ocorrer em operações descobertas.
3. Qual o histórico de desempenho do JEPI e por que ele atraiu mais de US$ 30 bilhões?
Segundo dados da JPMorgan Asset, o JEPI é atualmente o maior ETF ativo do planeta, superando a marca de US$ 30 bilhões em ativos sob gestão. Em 2023, mesmo diante do rali expressivo do S&P 500 – que acumulou 17,88% em dólares – o fundo entregou 8,07% de retorno total e 8,11% de variação em cota, superando a inflação norte-americana e mantendo sua proposta de volatilidade mais branda.
O interesse global pelo produto explodiu a partir de 2020 por dois motivos principais:
Renda periódica competitiva: a combinação de dividendos e prêmios de opções gerou pagamentos mensais historicamente atrativos, superando muitas carteiras de “dividend aristocrats”.
Menor risco em mercados laterais: em períodos de baixa ou de lateralidade, a queda potencial é parcialmente compensada pelos prêmios e pelos dividendos, tornando a estratégia popular entre investidores em busca de preservação de capital com ganho real.
4. Estrutura do BDR JRPI39: como comprar e o que observar
Por ser um BDR, o JRPI39 segue regras específicas definidas pela B3:
Negociação em reais: as cotas são transacionadas em moeda local (R$ 51,40 no dia do lançamento). O lote padrão é de uma unidade, facilitando aportes fracionados.
Horário de pregão: segue o mesmo time frame das ações e demais BDRs, inclusive no after market.
Custódia: o recebimento de proventos (dividendos e prêmios) ocorre de forma direta na conta da corretora, convertido para reais pela instituição depositária.
Imposto de renda: os ganhos obtidos na venda de BDR com lucro estão sujeitos à alíquota de 15% para operações normais (lucro líquido mensal inferior a R$ 20 mil não é isento, diferentemente de ações). Os dividendos repassados sofrem tributação no país de origem e chegam líquidos ao investidor brasileiro, sem nova incidência local.
Sem hedge cambial: a variação do dólar impactará positivamente ou negativamente o resultado em reais. Na prática, o investidor está exposto ao desempenho das ações do S&P 500 e ao câmbio.
5. Por que a CVM ainda não permite ETFs ativos locais?
A regulamentação brasileira privilegia a padronização e a transparência de índices reconhecidos publicamente. ETFs passivos têm metodologia objetiva, conferida por provedores independentes, o que facilita auditoria. Em fundos ativos, a carteira pode mudar diariamente por decisão do gestor, exigindo relatórios mais robustos e fiscalizações adicionais.
A autarquia já discute a possibilidade de flexibilizar o arcabouço, mas, segundo especialistas, a mudança depende de aprimoramentos tecnológicos e de processos de divulgação que garantam igualdade de informação para todos os cotistas. Enquanto isso, a porta de entrada para estratégias ativas globais permanece sendo o BDR.
6. Impactos para o investidor de varejo: vantagens e riscos
Benefícios:
• Renda em dólar: prêmios de opções + dividendos somam pagamentos mensais em moeda forte.
• Diversificação geográfica: exposição a cerca de 300 empresas líderes norte-americanas.
• Acesso facilitado: investimento direto via home broker, sem necessidade de conta no exterior.
Riscos:
• Volatilidade cambial: a mesma alta do dólar que protege o investidor em crises pode corroer lucros quando a moeda americana se deprecia.
• Limitação de alta: se o S&P 500 subir muito, o fundo sacrifica parte do ganho por conta das opções vendidas.
• Tributação sem isenção: diferente das ações, não há faixa de lucro mensal liberada de IR.
Imagem: Internet
7. Como o JRPI39 se encaixa em diferentes perfis de portfólio?
A seguir, alguns cenários práticos de alocação, sempre dependendo de análise individual e, preferencialmente, de orientação profissional:
Conservador em fase de acumulação: a parcela internacional costuma ser pequena (5%-10%). Nesse caso, o JRPI39 pode representar o “núcleo” da renda variável externa, já que fornece entrega de dividendos e volatilidade moderada.
Investidor moderado: quem busca equilíbrio entre crescimento e renda costuma manter 10%-20% fora do país. Combinar JRPI39 com ETFs passivos de crescimento (IVVB11, por exemplo) pode diluir o risco de limitar ganhos em bull markets muito acentuados.
Perfil arrojado focado em renda: para quem aceita exposição relevante ao dólar e já convive confortavelmente com variações de capital, o fundo pode ser a engrenagem principal de fluxo de caixa mensal, desde que ciente da redução potencial de valorização em ciclos eufóricos.
8. Comparação com alternativas disponíveis no mercado
Para ilustrar, listamos abaixo características de três grupos de ativos que competem, em tese, pelo mesmo espaço de portfólio:
a) REITs internacionais: fundos imobiliários dos EUA também oferecem dividendos em moeda forte, mas concentram risco em um único setor. O JRPI39 dilui ao longo de múltiplas indústrias.
b) Ações de “dividend kings” no exterior: comprar papéis individuais (Johnson & Johnson, Coca-Cola, etc.) exige conta fora ou BDRs avulsos. O JRPI39 simplifica a gestão ao embutir mais de 200 nomes e a estratégia de opções.
c) ETFs de baixa volatilidade: produtos como SPLV (Low Volatility) reduzem risco, porém pagam menos dividendos porque não captam prêmio de opções. O JRPI39 busca aliar rendimento e suavização.
9. Expectativas de retorno: entendendo a meta de 7%-9% ao ano
O alvo de 7%-9% considera quatro componentes:
• Dividend yield: em torno de 2%-3% ao ano, variando conforme distribuição de lucros das empresas.
• Prêmios de opções: historicamente 4%-6%, dependendo da volatilidade implícita do S&P 500.
• Valorização potencial: pequena parcela adicional se o índice subir menos que a barreira das opções.
• Custo de 0,35%: já descontado na estimativa.
Importante notar que, em anos com forte bull market, como 2023, o ganho relativo ao índice se comprime. Já em fases de correção, o produto tende a segurar melhor as perdas.
10. Passo a passo para investir no JRPI39
1. Abrir conta em corretora autorizada pela B3
2. Transferir recursos em reais via TED, PIX ou rede bancária;
3. Digitar o código JRPI39 no home broker;
4. Escolher quantidade de cotas (lote mínimo: 1);
5. Acompanhar proventos na área logada da corretora.
11. Como a JPMorgan planeja avançar no segmento de ETFs ativos no Brasil?
Giuliano de Marchi confirmou que o JRPI39 é apenas “o primeiro de uma série” de soluções planejadas para os próximos anos. Segundo ele, a gestora monitora demanda por produtos focados em crédito, títulos de dívida global e estratégias temáticas, sempre com viés de geração de renda ou proteção.
Mesmo sem promessa de prazo, a expectativa é que, caso a CVM modernize as normas, a JPMorgan lance veículos domiciliados no Brasil, reduzindo custos de servicing e eliminando questões cambiais para quem quiser manter exposição em real.
12. Reações do mercado e perspectivas regulatórias
Analistas consultados por casas de pesquisa apontam que a iniciativa deve estimular concorrência. Gestoras que hoje oferecem fundos locais de funds of funds (FoFs) tendem a sentir pressão de taxas, uma vez que BDR de ETF possui estrutura simplificada; parte desses FoFs ainda cobra performance, encarecendo o investimento.
Do ponto de vista regulatório, o lançamento serve como “teste de apetite” para a CVM avaliar se o público compreende os riscos de um produto ativo com derivativos. Caso a adoção seja ampla sem gerar reclamações relevantes, o órgão pode se sentir mais confortável para avançar em flexibilizações.
13. Estratégias de mitigação de riscos para quem planeja comprar
Alocação gradual: usar aportes mensais para diluir preço e volatilidade cambial.
Rebalanceamento periódico: revisar participação no portfólio semestralmente, adequando-se a objetivos.
Reserva de emergência em real: manter liquidez local evita vendas forçadas em momentos de dólar baixo.
Conhecimento tributário: controlar DARF até o último dia útil do mês subsequente para evitar multas.
14. Perguntas frequentes (FAQ)
O JRPI39 paga dividendos mensais?
Sim. O ETF-base distribui proventos todo mês. O valor chega ao investidor brasileiro convertido para reais, sujeito a variação cambial.
Existe risco de alavancagem?
Não. A estratégia de covered call pressupõe posse do ativo objeto, eliminando a exposição a margens adicionais.
A taxa de 0,35% é competitiva?
Na comparação com fundos multimercados ou FoFs que replicam estratégias parecidas, o custo é inferior. Em ETFs passivos, contudo, há opções ainda mais baratas (0,07%-0,20%).
O produto serve como substituto de renda fixa?
Não. Trata-se de renda variável, sujeita a oscilações de preço e sem garantia de retorno nominal positivo.
15. Conclusão: que papel o BDR de ETF ativo global pode desempenhar nos próximos anos?
O lançamento do JRPI39 inaugura oficialmente a era dos BDRs de ETF ativo global na B3, rompendo a limitação regulatória doméstica e oferecendo ao investidor de varejo brasileiro uma ferramenta de geração de renda em dólar, diversificação geográfica e potencial redução de volatilidade.
Embora traga riscos inerentes à renda variável e à flutuação cambial, o produto se destaca por combinar simplicidade operacional, custo relativamente baixo e histórico robusto de captação internacional. Caso o formato prove-se bem-sucedido, não apenas outros players deverão seguir o exemplo, como também pode acelerar o debate sobre a liberação de ETFs ativos locais, fomentando inovação e concorrência no mercado de capitais brasileiro.
Como sempre, a recomendação central é estudo aprofundado, avaliação de perfil de risco e, se necessário, consulta a profissionais qualificados antes de qualquer decisão de alocação.
Com informações de InfoMoney

