Recorde intenção compra imóveis reflete pressão por moradia e upgrades
A expressão recorde intenção compra imóveis estampa não apenas o título desta reportagem, mas traduz também o clima que hoje domina parte significativa das famílias brasileiras com renda a partir de R$ 2,5 mil. A mais recente pesquisa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) revela que a disposição para adquirir um bem imobiliário chegou a 50% dos domicílios, o maior patamar já registrado pela série histórica.
Aplicado em 35 cidades brasileiras, o levantamento ouviu 1.250 pessoas e apresenta margem de erro de 2,8 pontos percentuais. Na comparação com os períodos anterior e pós-pandemia, o salto é expressivo: eram 43% antes de 2020, recuaram para 31% em 2022 e agora alcançam metade dos lares pesquisados.
O resultado sinaliza que o chamado “sonho da casa própria” voltou a caber nos planos de curto e médio prazos da população. Além disso, evidencia um movimento de substituição de imóveis — não apenas a primeira compra — motivado por upgrade de qualidade, busca por mais espaço e estabilidade residencial.
1. Pesquisa CBIC em detalhes: o que diz a fotografia atual
Para compreender a magnitude do dado, é preciso destrinchar a pesquisa conduzida pela Brain Inteligência Estratégica, contratada pela CBIC. O estudo utiliza metodologia quantitativa presencial, com distribuição geográfica que cobre capitais, regiões metropolitanas e cidades de médio porte. Esse desenho amostral permite captar tendências nacionais ao mesmo tempo em que considera realidades locais distintas.
Entre as famílias com intenção de comprar, 35% planejam fazê-lo em até 12 meses — grupo que, de acordo com Fábio Tadeu Araújo, diretor-sócio da Brain, já transformou desejo em planejamento efetivo. Outros 12% definem horizonte de um ano e meio, 23% trabalham com até dois anos e 30% deixam a aquisição para prazos acima de 24 meses.
A pesquisa também confirma que o objetivo predominante é a moradia principal. Dos entrevistados:
• 89% querem adquirir imóvel residencial para morar;
• 6% procuram imóvel de lazer;
• 9% manifestam interesse em imóvel comercial.
2. Motivações de compra: transições de vida lideram
Quando se olha para o conjunto de razões que impulsionam o brasileiro a buscar a compra de um imóvel, o retrato é composto por múltiplos fatores, mas domina a necessidade de reorganização familiar:
• 32% desejam sair do aluguel;
• 13% pretendem deixar a residência dos pais;
• 5% planejam mudança de cidade ou bairro;
• 3% compram em virtude de casamento;
• 2% citam separação como motivo principal.
Em síntese, 55% do total estão em fases de transição. É a busca por autonomia, adequação de espaço ou nova configuração familiar que desencadeia o movimento de compra. O restante se reparte entre quem procura upgrade (29%), investidores (11%) ou tem outras razões (5%).
3. Apartamento ganha espaço na preferência
O tipo de imóvel preferido acompanha a urbanização crescente. Quase metade dos entrevistados — 48% — apontou o apartamento como primeira opção. O dado reforça a consolidação dos grandes centros, onde verticalização, proximidade de serviços e conveniência pesam na decisão de compra.
Empreendimentos com áreas comuns bem-estruturadas, portaria remota, vagas de garagem e espaços de lazer internos passaram a compor não apenas o diferencial competitivo das construtoras, mas requisito básico do comprador. O conceito de “produto completo” ganha relevância, sobretudo para famílias que planejam passar muitos anos sem nova mudança.
4. Por que a intenção de compra bateu recorde?
Embora o estudo não relacione causalmente cada variável econômica à alta da intenção de compra, o ambiente de mercado oferece indícios. Depois de um período de incertezas, fatores macro e microeconômicos convergiram para criar uma janela de oportunidade:
A. Renda familiar relativamente estável
A faixa investigada — acima de R$ 2,5 mil — inclui trabalhadores formais, informais e autônomos que têm se beneficiado de programas de distribuição de renda e reajustes salariais em alguns setores. Essa estabilidade relativa estimula planejamento de médio prazo.
B. Oferta diversificada de crédito imobiliário
Grandes bancos e fintechs intensificaram a concorrência pelos financiamentos habitacionais. Modalidades corrigidas pela poupança, pelo IPCA ou pelo CDI ampliaram o cardápio de opções, reduzindo barreiras de entrada. Ainda que as taxas permaneçam sensíveis ao ciclo econômico, a percepção de acesso ao crédito melhora.
C. Busca por segurança patrimonial
Num cenário em que a inflação corrói o poder de compra, muitas famílias veem no imóvel um ativo de preservação de valor e geração de renda futura, sobretudo via locação.
D. Transformações nos padrões de moradia
O trabalho híbrido tornou a casa mais multifuncional. Mesmo que os dados da pesquisa não tratem diretamente do home office, é razoável associar a demanda por espaços maiores ou melhor divididos à consolidação desse modelo.
5. O componente emocional: do sonho à execução
Mais do que números, a recorde intenção compra imóveis guarda um elemento simbólico. A moradia é vista como extensão da identidade familiar. Ao revelar que 18% dos domicílios brasileiros já estão em fase prática de aquisição (35% dos 50%), o estudo demonstra que a etapa da decisão foi superada: falta concretizar, negociar, assinar.
Essa transição do desejo para a ação é crítica para o setor da construção. Ela indica que o comprador se preparou financeiramente, sondou oportunidades de financiamento, visitou estandes e comparou produtos. Em outras palavras, há liquidez reprimida pronta para se materializar em contratos e obras.
6. Impactos diretos na cadeia da construção
Quando a intenção se converte em compra, o efeito multiplicador atinge várias frentes: varejo de materiais, prestação de serviços, mercado de móveis e eletrodomésticos, geração de empregos diretos e indiretos. Construtoras revisitam cronogramas, lançam novos empreendimentos e intensificam campanhas de marketing para capturar a onda de procura.
Além disso, o movimento pressiona o poder público a avançar em agendas de infraestrutura urbana, revisão de planos diretores e agilidade nos licenciamentos. Em municípios onde a demanda supera a oferta de terrenos bem localizados, o preço do metro quadrado tende a se valorizar, afetando toda a dinâmica imobiliária.
7. Curto, médio e longo prazos: o que esperar
A distribuição temporal mostrada pelo levantamento é heterogênea. Em até 12 meses, mais de um terço dos potenciais compradores pretende fechar negócio. No médio prazo (12 a 24 meses), somam-se 35%. E, no horizonte superior a dois anos, concentram-se 30%.
Imagem: Internet
Esse fatiamento cria três ondas possíveis para o mercado:
• Onda imediata — estoque pronto, imóveis em fase final de obras e unidades usadas ganham liquidez. Agilidade na documentação e condições de financiamento competitivas serão determinantes.
• Onda de construção — empreendimentos lançados agora devem mirar a entrega entre 18 e 36 meses, alinhada ao segundo grupo de intenção. É o período em que compradores se planejam para poupar a entrada, vender imóvel atual ou ajustar renda.
• Onda de planejamento — para o público que pretende comprar além de dois anos, sustentabilidade, tecnologia embarcada, eficiência energética e localização estratégica tendem a pesar mais do que a urgência do preço.
8. Investidores mantêm presença relevante
Embora correspondam a 11% da amostra, os compradores com foco em retorno financeiro continuam mostrando apetite. Destes, 10% buscam renda com aluguel, enquanto 1% planeja revender. O comportamento indica crença de que a valorização do metro quadrado e a demanda por locação permanecerão firmes, mesmo diante de ciclos econômicos adversos.
Para as construtoras, esse segmento é estratégico: investidores costumam adquirir várias unidades em fase de lançamento, ajudando a impulsionar o VGV (Valor Geral de Vendas) e garantindo capital de giro. Em contrapartida, a presença de investidores pode elevar estoques de locação, influenciar preços e modular a velocidade de vendas ao consumidor final.
9. Perfil do upgrade: além do “maior”, o “melhor”
Dentro do grupo que busca melhorar de imóvel, apenas 15% declaram querer mais espaço. Outros 9% apontam a procura por benefícios adicionais (lazer, garagem, suíte) como principal motivador, e 5% ambicionam imóvel mais novo. O dado reforça que qualidade construtiva, amenities modernas e baixo custo de manutenção passaram a ser medidos na balança junto com a metragem útil.
Esse olhar menos centrado na área total e mais na “experiência de morar” impulsiona tendências como:
• Plantas flexíveis, que permitem integrar ou separar ambientes;
• Condominios-clube, com academia, coworking e espaços gourmet;
• Soluções sustentáveis, de placas fotovoltaicas a sistemas de reuso de água.
10. Desafios: da intenção à entrega das chaves
Transformar o recorde intenção compra imóveis em registro efetivo no cartório depende de variáveis que fogem ao controle do comprador. Entre os desafios mais citados por especialistas e pelo próprio setor estão:
• Burocracia — processos de financiamento, averbações e certidões ainda consomem tempo e recursos.
• Custo de construção — oscilações no preço de insumos impactam o valor final, exigindo soluções industriais e logísticas para conter repasses.
• Infraestrutura urbana — mobilidade, saneamento e segurança moldam a atratividade de bairros e futuros lançamentos.
• Educação financeira — embora a disposição exista, parte dos compradores carece de planejamento detalhado de renda, reserva de emergência e escolha de produtos de crédito.
11. O papel das políticas públicas
Programas habitacionais, subsídios, revisão de alíquotas de impostos e incentivos à inovação podem acelerar ou frear o ritmo de conversão da intenção de compra. A simplificação de processos cartoriais, por exemplo, reduz custos indiretos para o consumidor e eleva a eficiência do setor.
Em várias capitais, governos municipais estudam atualizar o Plano Diretor, o que pode liberar áreas para verticalização ou limitar gabaritos. Cada alteração mexe na oferta futura e condiciona estratégias de construtoras e incorporadoras.
12. Tecnologia e digitalização: novos gatilhos de decisão
Mesmo não contemplada diretamente na pesquisa, a experiência digital transformou a jornada de compra do imóvel. Tours virtuais, assinatura eletrônica de contratos e simuladores de financiamento no celular encurtam o caminho entre interesse e proposta formal. Para as famílias dispostas a comprar em até um ano, essas ferramentas reduzem barreiras, ampliam o poder de barganha e proporcionam comparação rápida entre empreendimentos.
13. Conclusão: mercado atento ao ritmo de execução
O salto de 31% para 50% em intenção de compra em dois anos recoloca o setor imobiliário no centro das atenções do ciclo econômico brasileiro. Famílias em transição, investidores tradicionais e compradores em busca de upgrade formam um tripé de demanda que, se bem atendido, pode sustentar lançamentos, gerar emprego e movimentar cadeias produtivas adjacentes.
Transformar intenção em contrato, entretanto, exigirá coordenação entre iniciativa privada, instituições financeiras e poder público. Taxas de financiamento competitivas, agilidade de licenciamento e segurança jurídica continuarão sendo os pilares para que o entusiasmo captado pela pesquisa da CBIC reflita, nos próximos relatórios, não apenas disposição, mas vendas efetivas.
No ritmo atual, construtoras já revisam metas de lançamento, bancos reforçam equipes de crédito imobiliário e consumidores buscam informação para aproveitar o momento. Resta saber até onde o fôlego da demanda resistirá a oscilações econômicas e se a oferta conseguirá se ajustar em tempo hábil.
Por enquanto, o registro é claro: metade das famílias brasileiras com renda a partir de R$ 2,5 mil planeja comprar imóvel. Se essa trajetória se confirmar, o país poderá assistir a um novo ciclo de expansão imobiliária, com reflexos diretos na urbanização, na mobilidade e na qualidade de vida de milhões de pessoas.
Em síntese, a recorde intenção compra imóveis não é apenas número de pesquisa, mas termômetro de prioridades sociais, econômicas e emocionais. Entender suas nuances é fundamental para empresas, formuladores de políticas públicas e, sobretudo, para quem pretende transformar o sonho da casa própria em endereço definitivo.
Com informações de InfoMoney

