Planeje sua demissão com datas certas é o primeiro conselho para quem decidiu deixar o emprego. Embora a iniciativa parta do trabalhador, certas escolhas de calendário podem elevar o valor da rescisão e evitar perdas financeiras.
Neste guia aprofundado, esclarecemos o que a lei determina, quais verbas você realmente recebe, como calcular cada parcela e por que alguns dias do mês fazem diferença. Reunimos explicações jurídicas, exemplos numéricos, depoimentos reais e a visão do mercado de trabalho para que sua saída ocorra da forma mais vantajosa e segura possível.
Ao longo das próximas seções, você verá que pedir demissão não significa abrir mão de todos os direitos. Entretanto, quem se antecipa, confirma datas e documenta cada etapa pode transformar uma transição tensa em um passo planejado de carreira.
Direitos garantidos na rescisão por pedido de demissão
Quando o colaborador decide encerrar o contrato, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) preserva algumas verbas, mesmo sem a multa de 40% sobre o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) nem acesso ao seguro-desemprego. Veja o que permanece assegurado:
1. Saldo de salário – Dias trabalhados no mês da saída. Se você pede desligamento em 20 de março, por exemplo, deve receber por 20 dias.
2. 13º salário proporcional – Frações iguais ou superiores a 15 dias contam como mês integral. Portanto, trabalhar de 1º a 15 de abril garante um doze avos do 13º.
3. Férias vencidas – Caso existam férias já adquiridas e ainda não usufruídas, o valor vem acrescido de 1/3 constitucional.
4. Férias proporcionais – Meses trabalhados após o último período aquisitivo geram férias proporcionais, sempre com o adicional de 1/3.
5. Depósito do FGTS no mês da rescisão – A empresa é obrigada a recolher o FGTS referente ao mês corrente até a data do desligamento, mas o saque só é liberado em hipóteses legais específicas, que não incluem a demissão voluntária.
O que fica de fora ao pedir demissão
Por iniciativa do trabalhador, dois direitos concedidos na dispensa sem justa causa não se aplicam. São eles:
Sem multa de 40% do FGTS – O empregador não precisa depositar essa indenização.
Sem seguro-desemprego – Como o desligamento parte do empregado, não há cumprimento do requisito de dispensa involuntária exigido pelo programa.
Por que o dia 15 é tão estratégico?
A lei do 13º (Lei 4.749/1965) determina que a fração superior ou igual a 15 dias de trabalho configura mês integral. Na prática, isso significa:
• Se o pedido de demissão ocorre em 14 de junho, aquele mês não conta para o 13º proporcional.
• Se ocorre em 15 de junho, conta como mais um doze avos.
Parecem apenas alguns dias, mas podem representar até 8,33% do salário a mais no acerto. Portanto, quem pretende sair no meio do mês deve refletir se vale aguardar um ou dois dias extras para incluir esse mês cheio no cálculo.
Aviso prévio: obrigações, prazos e negociação
O aviso prévio é o comunicado formal com antecedência mínima de 30 dias. Quando o empregado pede demissão, três cenários se apresentam:
1. Cumprimento integral – O trabalhador continua prestando serviço pelos 30 dias. Recebe salário normalmente e evita desconto.
2. Dispensa do cumprimento – Se o empregador aceita liberar o colaborador antes, não há penalidade.
3. Não cumprimento sem acordo – A empresa desconta um salário equivalente no acerto. Esse valor pode consumir boa parte das verbas rescisórias.
Feriados prolongados não alteram a contagem, pois o aviso prévio corre em dias corridos, não úteis. Então, um feriado de três dias não encurta o período. Caso você precise estar livre até certa data – por exemplo, início em novo emprego – conte 30 dias completos para trás e protocole seu pedido nesse marco.
Impacto das férias na escolha da data
Quem está próximo de completar 12 meses do período aquisitivo deverá analisar dois pontos:
Pedir antes de fechar 12 meses – Recebe somente férias proporcionais. Não há aplicação de eventual penalidade por férias vencidas.
Pedir após completar 12 meses – Surgem férias vencidas a pagar com 1/3. Embora seja um direito adicional, pode pesar no caixa da empresa, que às vezes tende a negociar a saída para data posterior. Se o objetivo for sair logo, avaliar a diplomacia no diálogo é prudente.
Como calcular cada parcela rescisória
Para tomar decisões embasadas, conhecer o cálculo numérico clareia expectativas. Suponha salário mensal bruto de R$ 4.000, sem adicionais:
Saldo de salário – Demissão em 18/05. Cálculo: R$ 4.000 ÷ 30 × 18 = R$ 2.400.
13º proporcional – Trabalhou de janeiro a maio completos e 18 dias de maio. Como maio conta integralmente, são 5/12.
Valor: R$ 4.000 ÷ 12 × 5 = R$ 1.666,67.
Férias vencidas – Nenhuma.
Férias proporcionais – Últimas férias gozada em agosto do ano anterior. De setembro a maio, 9/12.
Valor base: R$ 4.000 ÷ 12 × 9 = R$ 3.000.
Adicionar 1/3: R$ 1.000.
Total: R$ 4.000.
FGTS do mês – 8% sobre o saldo salarial: R$ 2.400 × 0,08 = R$ 192 (depositado, mas não sacável).
Total rescisório (sem descontos): R$ 8.066,67.
Se não cumprir aviso, desconta-se R$ 4.000, reduzindo o valor para R$ 4.066,67. Vê-se como o aviso incide significativamente.
Escolhendo a melhor segunda-feira, mito ou verdade?
Alguns profissionais acreditam que sair na segunda-feira aumenta o saldo de salário, pois inclui o fim de semana anterior. De fato, o salário mensal já pressupõe 30 dias corridos, englobando sábados, domingos e feriados. Portanto, se o contrato está válido no domingo, aqueles dias contam sim para cálculo do saldo. Contudo, a diferença só é percebida quando a data programada pularia para além de sexta-feira. Por exemplo:
• Demissão em 29/08 (sexta) – Você tem 29 dias no mês de 31 dias.
• Demissão em 01/09 (segunda) – Recebe dois dias de agosto a mais.
Nesse sentido, pedir demissão na segunda-feira inicial do mês pode acrescentar até dois ou três dias de salário. Embora não seja uma fortuna, pode ajudar a pagar custos de transição.
Mercado aquecido favorece mobilidade voluntária
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontaram criação de 1.279.498 vagas formais em 2025, enquanto a taxa de desemprego medida pelo IBGE recuou a 5,1% no quarto trimestre. Tais indicadores alimentam a confiança do trabalhador para trocar de emprego sem medo de ficar desamparado.
Levantamento da consultoria 4intelligence, elaborado por Bruno Imaizumi, identificou cerca de nove milhões de demissões voluntárias entre outubro de 2024 e outubro de 2025. Segundo o reitor do Ibmec Rio de Janeiro, Samuel Barros, flexibilidade, modelos híbridos e chance de ganhos melhores explicam o fenômeno.
Conclusão: quando a economia gera oportunidades, o profissional assume o risco calculado de deixar um posto estável, desde que entenda seus direitos e programe prazos.
Depoimento: como maximizar verbas na prática
Letícia Peruzzo, gerente administrativa de 41 anos, decidiu sair de uma clínica de terapias infantis em fevereiro. “Eu já sabia que minhas chefes precisariam de mim para treinar outra pessoa. Então ofereci permanecer março inteiro, cumprindo aviso e um pouco mais”, conta.
O planejamento permitiu negociar datas e, consequentemente, planejar sua demissão com datas certas. Letícia recebeu salário integral de março, 13º proporcional maior e férias proporcionais elevadas. “Consegui maximizar essas verbas”, afirma.
Passo a passo para solicitar demissão sem prejuízo
1. Revise o contrato – Verifique cláusulas sobre aviso e possíveis multas específicas.
Imagem: Internet
2. Calcule provisoriamente – Simule saldo, férias e 13º conforme datas prováveis.
3. Defina o objetivo – Precisa sair rápido ou pode ficar 30 dias? A resposta orienta a negociação.
4. Marque no calendário – Prefira dias a partir de 15, ou logo após completar férias, caso queira incluí-las.
5. Formalize por escrito – Entregue carta de demissão datada, assinada e protocole cópia.
6. Guarde comprovantes – Informe de acerto, guias e recibos devem ficar arquivados por ao menos cinco anos.
Erros frequentes que reduzem a rescisão
Ignorar o dia 15 – Perder um doze avos de 13º por horas de diferença.
Não negociar aviso prévio – Abrir mão de um salário completo sem necessidade.
Assinar recibos sem conferir – Valores podem divergir. Exija demonstrativos detalhados.
Deixar férias vencerem antes de decidir – Embora pareça vantagem, pode travar a liberação rápida.
Aspectos psicológicos de pedir demissão
Embora finanças sejam cruciais, saúde emocional também pesa. Ambientes tóxicos, jornadas exaustivas e falta de perspectiva minam a produtividade. Psicólogos organizacionais recomendam:
• Avaliar se mudanças internas resolvem o problema.
• Discutir expectativas de carreira com gestores.
• Buscar apoio de amigos e mentores para validar a decisão.
• Manter discurso profissional, evitando críticas agressivas que possam manchar a reputação.
Comunicação transparente com a liderança
Pedir demissão surpreende alguns gerentes. Uma conversa franca sobre insatisfação pode, inclusive, gerar contraproposta. Caso você já esteja decidido, deixe claro:
• A data pretendida de desligamento.
• Disponibilidade para transição e treinamento.
• Agradecimento pelas oportunidades.
Profissionalismo mantém portas abertas para futuras parcerias, algo valioso num mercado cada vez mais conectado.
Impostos e contribuições: o que observar
O Imposto de Renda retido na fonte incide sobre férias e 13º, considerados rendimentos tributáveis. Entretanto, verbas indenizatórias, como a multa de 40% do FGTS – inexistente na demissão por iniciativa própria – são isentas. Se seus rendimentos no ano ultrapassarem o limite da Receita Federal, inclua todos os informes no ajuste anual para evitar malha fina.
Prazos para pagamento das verbas rescisórias
O artigo 477 da CLT determina:
• Aviso prévio trabalhado: pagamento no 1º dia útil após o término do contrato.
• Aviso prévio indenizado: até o 10º dia contado da notificação da demissão.
A empresa que atrasa sofre multa equivalente ao salário do colaborador, paga em favor dele. Conhecer esse direito garante que você cobre a quantia caso ocorra descumprimento.
Se surgir uma proposta antes de terminar o aviso
É comum receber convite de outra empresa durante o aviso prévio. Duas saídas possíveis:
Acordo de dispensa – Negocie redução ou eliminação dos dias restantes. Tudo formalizado.
Aviso prévio trabalhado parcial – A CLT permite redução de duas horas diárias ou sete dias corridos, a critério do empregado, para buscar recolocação. Entretanto, muitos profissionais desconhecem esse benefício. Solicite por escrito.
Planejamento financeiro pós-demissão
Mesmo ao planejar sua demissão com datas certas, você pode ficar algumas semanas sem renda. Monte reserva de emergência suficiente para entre três e seis meses de despesas. Ajuste plano de saúde, previdência complementar e contribuições ao INSS como contribuinte individual se permanecer sem vínculo.
Trabalho informal ou MEI após a saída
Vários profissionais saem para empreender ou atuar como prestadores de serviço. Ao virar Microempreendedor Individual (MEI):
• Contribui 5% do salário-mínimo para a Previdência.
• Mantém direito à aposentadoria por idade, auxílio-maternidade e afastamento por doença após carência.
• Precisa emitir nota fiscal quando o contratante for pessoa jurídica.
Se o seu novo emprego for PJ, planeje impostos, contabilidade e benefícios que antes estavam a cargo do empregador.
Quando vale repensar a decisão de demitir-se
• Oferta interna de promoção imediata.
• Mudanças organizacionais que eliminem o problema original.
• Condições econômicas externas que piorem subitamente, como recessão ou alta do desemprego.
• Falta de reserva financeira mínima.
Nesse caso, talvez seja prudente adiar algumas semanas para fortalecer o colchão financeiro ou avaliar novas condições.
Checklist final antes de entregar a carta
1. Reserva de emergência revisada?
2. Novo emprego ou fonte de renda confirmada?
3. Cálculo das verbas pronto?
4. Data inclui mais de 15 dias do mês?
5. Alguém revisou seu pedido por erros de digitação ou data?
6. Protocolar pessoalmente ou via e-mail corporativo com cópia para RH?
Modelo simples de carta de demissão
“Local, ___ de _______ de 20__
À [nome da empresa]
A/C Departamento de Recursos Humanos
Eu, [nome completo], portador(a) do CPF nº ____, venho por meio desta solicitar meu desligamento do cargo de ______, que exerço desde ___/___/____.
Nos termos da CLT, concedo aviso prévio de 30 (trinta) dias, a contar desta data, com término em ___/___/____. Coloco-me à disposição para auxiliar na transição de minhas atividades.
Atenciosamente,
Assinatura”
Guarde uma cópia assinada pela empresa ou e-mail de confirmação como prova da data.
Pontos-chave para recordar
• Dia 15 define o 13º proporcional.
• Aviso prévio pode ser trabalhado, indenizado ou negociado.
• Férias vencidas aumentam a rescisão, mas podem travar acordos.
• Segunda-feira estende o saldo de salário em fins de semana.
• Mercado aquecido favorece troca voluntária, mas planeje reserva.
Seguindo essas diretrizes, você conseguirá planejar sua demissão com datas certas, otimizando ganhos, evitando surpresas e mantendo boa reputação profissional. Demitir-se é um passo estratégico de carreira; com informação e cálculo preciso, torna-se uma transição tranquila rumo a novos desafios.
Com informações de InfoMoney

