Mulheres impulsionam seguros moto em todo o país, fenômeno que já altera ofertas, processos e discursos de seguradoras tradicionais e de insurtechs emergentes.
O dado mais recente, levantado pela Suhai Seguradora, aponta expansão de 21% na contratação de apólices por mulheres entre 2024 e 2025, com destaque absoluto para motocicletas: apenas nesse segmento, o avanço foi de 25% em doze meses.
Essa guinada, que acompanha o aumento das habilitações femininas, reposiciona produtos, ajusta canais de venda e, acima de tudo, põe em pauta a segurança como instrumento de autonomia e mobilidade.
Panorama da participação feminina na mobilidade
Nas rodovias, nas vias urbanas congestionadas ou em bairros periféricos onde o transporte público não supre a demanda, a presença de mulheres ao volante — e ainda mais sobre duas rodas — tornou-se perceptível a olhos atentos. De acordo com a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), a quantidade de mulheres com alguma categoria de habilitação saltou mais de 45% na última década. No caso das motos, a curva é ainda mais acentuada: alta aproximada de 70% no mesmo recorte temporal.
Esses números refletem transformações sociais profundas. A necessidade de conciliar trabalho, estudos, cuidado com a família e lazer faz muitas brasileiras buscarem meios de transporte que garantam independência de horários e rotas. A motocicleta, ao unir mobilidade ágil, custo de aquisição relativamente baixo e manutenção acessível, passa a ser vista como solução prática para agendas múltiplas.
Se o aumento de condutoras já justificaria atenção, o impacto fica particularmente evidente no setor segurador. A cada habilitação emitida ou veículo adquirido, surge um novo ponto de decisão: proteger ou não o patrimônio. E, segundo os dados da Suhai, a resposta feminina tende a ser “sim”.
O que há por trás do interesse em seguros
Segundo Ana Paula Rodrigues, CMO da Suhai Seguradora, a contratação do seguro está intrinsecamente ligada à ideia de independência. “Quando o carro ou a moto entram para a rotina, a motorista percebe que não pode ficar exposta aos riscos cotidianos. O seguro torna-se parte do planejamento de mobilidade”, afirma.
A lógica vale para profissionais que dependem do veículo para gerar renda—caso de entregadoras e motoristas de aplicativo—e também para quem busca apenas deslocamento eficiente. Em ambos os contextos, o prejuízo potencial de um furto, roubo ou colisão é alto. Quem encontra no veículo uma ferramenta de trabalho não pode ficar parada; quem vê nele um atalho para gerir o tempo não admite voltas onerosas ao transporte coletivo lotado.
Além disso, há uma questão de percepção de vulnerabilidade. Inúmeras condutoras relatam sentir-se menos expostas quando sabem que eventual sinistro será amparado financeiramente, sem comprometer orçamento já pressionado por inflação e custo de vida.
Desempenho por tipo de veículo
Embora a maior variação proporcional tenha ocorrido no seguro para motocicletas (25%), os demais segmentos também registraram crescimento:
• Automóveis – avanço de 15% nas apólices femininas;
• Caminhões – incremento de 5%, cifra modesta, porém expressiva dentro de um nicho historicamente dominado por homens.
No agregado, a alta de 21% demonstra que a decisão de contratar proteção deixou de ser exceção. E o salto nas motos ganha destaque porque o preço médio do seguro, nesse caso, tende a ser relativamente superior (proporcionalmente ao valor do bem) em função dos índices de sinistralidade. Mesmo assim, a percepção de custo-benefício prevaleceu.
Perfil de consumo: atenção aos detalhes e às coberturas
Beto Faitarone, corretor especializado e membro da Comissão de Seguro Automóvel do Sincor-SP, destaca particularidades desse novo público. “Elas costumam ser mais minuciosas na análise e valorizam benefícios adicionais. Se as coberturas são bem explicadas, a contratação ocorre com mais segurança”, diz.
Os itens mais buscados incluem:
• Furto e roubo;
• Responsabilidade civil para terceiros;
• Assistência 24 horas.
Entre motociclistas, coberturas para danos a equipamentos — como baús e suportes de entrega — também ganham relevância, indicando que o público profissional feminino quer blindar a renda derivada da motocicleta.
Transformações internas nas seguradoras
Observado o movimento, seguradoras revisam processos, treinam equipes e adaptam comunicação. Três eixos se destacam:
1. Linguagem inclusiva. As campanhas abandonam estereótipos e apostam em narrativas que enfatizam independência, eficiência e proteção familiar.
2. Produtos modulares. Ao permitir combinações de coberturas, as empresas alinham apólices ao orçamento e às prioridades de cada condutora, sem pacotes engessados.
3. Atendimento digital humanizado. Aplicativos e chatbots convivem com suporte humano treinado para esclarecer dúvidas técnicas sem recorrer a termos excessivamente jurídicos, facilitando a compreensão.
Motocicleta como vetor de oportunidades
O estudo “Elas & as Motos: universo invisível das motociclistas brasileiras”, conduzido em parceria com a Scopo Consumer Insights, revela que 56% das mulheres habilitadas utilizam a moto todos os dias. As razões predominantes:
• Deslocamento para compromissos e trabalho – 53%;
• Lazer – 38%.
De forma transversal, procuram trajetos mais rápidos, mais seguros (no sentido de evitar transporte noturno em ônibus ou trens) e mais econômicos. A motocicleta viabiliza trajetórias que antes exigiam baldeações ou custos altos de transporte por aplicativos.
A segurança como debate central
No Brasil, o tema da segurança viária ganha contornos específicos para as mulheres, que enfrentam não apenas o risco de acidentes, mas também assédios e violência urbana. Ao contratar um seguro, muitas condutoras relatam sensação de proteção que extrapola o veículo: assistência 24 horas, por exemplo, garante apoio em regiões isoladas ou em horários de menor movimento.
Ainda segundo Ana Paula Rodrigues, colocar a segurada no centro demanda mais do que cobertura financeira. “É preciso oferecer experiência positiva desde a cotação até o sinistro, com canais de atendimento empáticos, linguagem clara e tempo de resposta curto”, pontua.
Adequações exigidas a corretores e concessionárias
Corretoras independentes e concessionárias que vendem planos atrelados à compra do veículo relatam mudanças na abordagem comercial. Argumentos baseados meramente em preço cedem espaço a consultorias breves sobre gestão de risco, tipos de cobertura e valor real do veículo. A cliente busca clareza: qual franquia será aplicada? Há opção de carro ou moto reserva? Qual a rede de oficinas credenciadas?
Para se destacar, os corretores investem em ferramentas digitais de comparação e assumem postura de educadores financeiros, explicando tabelas de referência, índices de roubo por região e impactos de sinistralidade no cálculo do prêmio.
Imagem: Internet
Efeito dominó: legislação, educação e mercado de trabalho
Quando cresce o número de mulheres habilitadas, outros setores sentem repercussões. Escolas de trânsito adaptam material didático, campanhas governamentais criam recortes de gênero e empresas que recrutam entregadoras ou motoristas repensam benefícios. A disponibilidade de seguro torna-se vantagem competitiva na atração de profissionais.
No segmento de logística urbana, por exemplo, apps de entrega têm bonificado condutoras que apresentam apólice vigente. A medida reduz custos indiretos com sinistros e reforça imagem de responsabilidade corporativa.
Tendência de longo prazo
Os especialistas ouvidos projetam continuidade da curva ascendente. Fatores que sustentam o otimismo:
a) Poder de compra feminino em expansão. À medida que a participação das mulheres no mercado de trabalho aumenta, cresce o orçamento destinado a bens de mobilidade.
b) Urbanização e precariedade do transporte coletivo. Grandes centros ainda enfrentam gargalos, ampliando atratividade das motos.
c) Popularização de consórcios e financiamentos acessíveis. Linhas de crédito específicas para motocicletas incentivam aquisição.
d) Mudança cultural. A presença feminina em pistas de motovelocidade, rallies e passeios de longa distância inspira novas adeptas, diminuindo barreiras psicológicas.
Desafios a serem enfrentados
Se por um lado o avanço é motivo de celebração, por outro expõe obstáculos:
• Acidentalidade. Estatísticas do Observatório Nacional de Segurança Viária mostram que colisões envolvendo motos ainda concentram alto número de vítimas graves. Educação continuada é crucial.
• Diferenças regionais. No interior de alguns estados, a oferta de peças e serviços homologados é limitada, elevando custos de reparo e, consequentemente, prêmios de seguro.
• Desinformação sobre coberturas. Termos técnicos e jargões podem afastar contratantes, reforçando a urgência de comunicação didática.
Boas práticas recomendadas às futuras seguradas
Para quem avalia contratar ou renovar a proteção, especialistas indicam passos objetivos:
1. Pesquisar franquias. Um prêmio baixo pode esconder franquia alta, tornando o reparo oneroso no sinistro.
2. Conferir reputação. Índices de satisfação em sites de reclamações e tempo médio de indenização sinalizam qualidade da seguradora.
3. Checar coberturas adicionais. Reboque, carro ou moto reserva e extensão de perímetro podem fazer a diferença, principalmente para quem trabalha com o veículo.
4. Atualizar dados. Declarar endereço, perfil de uso e antirroubo instalado reduz risco de negativa futura.
Perguntas frequentes respondidas por corretores
Entre os questionamentos mais comuns de novas seguradas, três ganham destaque:
“O seguro para mulher é mais barato?”
Não há regra geral. Embora alguns cálculos considerem histórico de sinistralidade e perfil de risco, a tarifa sofre influência maior de modelo do veículo, região de circulação e índice de roubo.
“Posso transferir bônus acumulado?”
Sim, desde que a apólice anterior esteja em nome da mesma pessoa. O bônus, resultado de anos sem sinistro, reduz o preço da nova contratação.
“Existe cobertura exclusiva para roupas e capacete?”
Algumas seguradoras oferecem cláusulas adicionais que cobrem danos a vestimenta e acessórios de segurança após acidentes, mediante pagamento extra.
Cases que ilustram a mudança de comportamento
Corretoras relatam episódios em que motociclistas empreendedoras, após sofrerem tentativa de roubo sem sucesso, optaram por seguros abrangentes para preservar a operação diária. Já no segmento de caminhões, mesmo com crescimento mais tímido (5%), existem histórias de donas de pequenas transportadoras que, ao ampliar frota, preferiram centralizar contratos e exigir rastreador, mostrando visão de gestão de risco tipicamente empresarial.
Conclusão: de tendência a nova realidade
O salto de 25% na procura feminina por seguros de motocicleta, aliado ao aumento geral de 21% nas apólices para mulheres, não é um dado isolado. Representa um ponto de inflexão: mobilidade, segurança financeira e autonomia convergem para consolidar um mercado que ainda tem margem de crescimento significativo.
Do lado das seguradoras, ganha quem antecipa necessidades, revisa cláusulas e otimiza o atendimento. Para as condutoras, a mensagem é clara: proteger o patrimônio não é luxo, mas estratégia que garante continuidade de rotinas profissionais e pessoais, sobretudo em cenários de incerteza econômica.
Se a história mostra que o setor segurador evolui em resposta a mudanças sociais, a ascensão dessas motoristas e motociclistas aponta o rumo. Hoje, mulheres impulsionam seguros moto; amanhã, definirão novos serviços de assistência, formatos de pagamento e experiências digitais que moldarão o futuro da mobilidade assegurada.
Com informações de InfoMoney

