No Brasil, MPEs impulsionam emprego e explicam boa parte do vigor do mercado de trabalho registrado em 2025. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE confirmou que a taxa média de desemprego caiu para 5,6%, o menor patamar desde 2012.
No mesmo período, dados consolidados pelo Sebrae a partir do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) revelam que 80,5% do saldo líquido de 1,279 milhão de postos formais foi criado por micro e pequenas empresas (MPEs). Em outras palavras, a cada dez vagas abertas no país no ano passado, pouco mais de oito vieram de iniciativas empresariais com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões.
O que mostram os números mais recentes
Para dimensionar o impacto das MPEs no recuo do desemprego, é preciso observar os dois principais termômetros do mercado de trabalho. O primeiro é a Pnad Contínua, que mede todas as formas de ocupação — formais, informais, com ou sem carteira assinada, autônomos ou temporários — por meio de visitas a 211 mil domicílios em todo o território nacional. O segundo é o Caged, que captura mensalmente admissões e desligamentos de empregados com carteira assinada.
Segundo a Pnad, o índice de desocupação recuou um ponto percentual em relação ao ano anterior, chegando a 5,6%. Já o Caged identificou que, dos 1.279.498 postos formais adicionados ao estoque de emprego em 2025, 1.030.000 vieram de micro e pequenas empresas. Trata-se do segundo melhor resultado do segmento em quatro anos, perdendo apenas para 2023, quando as MPEs representaram 81,3% do saldo positivo.
Desempenho das MPEs de 2023 a 2025
Ao longo dos últimos três anos, o Brasil acumulou um saldo de 4,4 milhões de vagas formais. Desse montante, 4,2 milhões foram gerados por micro e pequenas empresas, o que corresponde a 77,9% do total no período. Esse dado reforça a contribuição recorrente dos pequenos negócios na recuperação do emprego após o choque pandêmico de 2020.
Em termos setoriais, o quadro é igualmente expressivo. Desde 2023, a distribuição de vagas abertas pelas MPEs se deu da seguinte forma:
• Serviços: 1.762.309 novas ocupações
• Comércio: 790.385
• Construção: 482.619
• Indústria de transformação: 304.556
• Agropecuária: 53.306
Os números confirmam a predominância do setor de serviços, que tradicionalmente reúne maior número de estabelecimentos de pequeno porte. Comércio e construção civil, por sua vez, se beneficiaram diretamente da retomada do consumo e do aquecimento do mercado imobiliário, respectivamente.
Quem lidera a articulação pelos pequenos negócios
A análise do desempenho das MPEs no mercado de trabalho passa pela atuação de instituições públicas e privadas dedicadas ao fortalecimento desse segmento. O Sebrae ocupa lugar de destaque. À frente da entidade, o presidente Décio Lima atribui a robustez dos números a um conjunto de fatores:
• Política de crédito mais acessível: o programa Acredita Sebrae, que opera com recursos do Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe), chegou a R$ 11 bilhões em crédito assistido em 2025.
• Incentivos fiscais: a partir de janeiro, a faixa de isenção do Imposto de Renda foi ampliada, permitindo que trabalhadores com renda de até R$ 4.800 mensais deixassem de recolher o tributo. “Com zero de Imposto de Renda, uma pessoa pode economizar cerca de R$ 4 mil por ano, praticamente um 14.º salário”, exemplificou Lima.
• Reação do consumo interno: a combinação de inflação mais controlada, programas de transferência de renda e salários reais em alta impulsionou a demanda por bens e serviços oferecidos majoritariamente por pequenos negócios.
Por que as MPEs criam mais vagas?
A explicação para o protagonismo das micro e pequenas empresas na geração de emprego envolve características intrínsecas ao modelo de negócio:
1. Flexibilidade operacional
Com estruturas enxutas, as MPEs ajustam rapidamente produção e oferta de serviços à demanda. Quando o mercado aquece, contratam com maior agilidade do que grandes companhias, que precisam atravessar processos burocráticos mais longos.
2. Capilaridade regional
Espalhadas por todos os municípios brasileiros, elas suprem necessidades locais em segmentos que vão de padarias a oficinas mecânicas, passando por serviços de tecnologia, turismo e saúde. Essa pulverização gera vagas onde a mão de obra reside, sem exigir deslocamentos para grandes centros.
3. Intensidade de mão de obra
Muitos ramos mantêm proporção elevada de funcionários por unidade de produção — caso típico de restaurantes, lojas de varejo e empresas de transporte urbano. Ainda que o faturamento seja menor, o “coeficiente de emprego” por real faturado tende a ser superior ao das corporações de grande porte.
Informalidade ainda é desafio
Embora as MPEs impulsionem emprego formal, a informalidade continua elevada. A Pnad Contínua apontou taxa anual de 38,1% entre os ocupados, equivalente a 39 milhões de pessoas que trabalham sem carteira assinada ou como autônomos sem CNPJ.
As maiores taxas de informalidade foram registradas no Maranhão (58,7%), Pará (58,5%) e Bahia (52,8%); as menores, em Santa Catarina (26,3%), Distrito Federal (27,3%) e São Paulo (29%). Essa distribuição regional reflete diferenças de renda, escolaridade e grau de urbanização.
Renda média avança, mas desigualdade persiste
O rendimento real habitual de todos os trabalhos chegou a R$ 3.560 em 2025. Apesar de representar avanço nominal em relação a anos anteriores, o indicador expõe variações significativas entre regiões. Distrito Federal (R$ 6.320), São Paulo (R$ 4.190) e Rio de Janeiro (R$ 4.177) concentram os maiores valores. Já Maranhão (R$ 2.228) e Bahia (R$ 2.284) figuram na ponta oposta.
O contraste salarial ajuda a explicar tanto a heterogeneidade da informalidade quanto a capacidade de poupança das famílias. Rendas superiores ao piso de isenção do Imposto de Renda se beneficiaram da nova faixa, deixando mais recursos disponíveis para consumo ou investimento — um mecanismo que retroalimenta o círculo virtuoso de expansão das MPEs.
Como o crédito direcionado impulsiona contratações
O Fampe, administrado pelo Sebrae, funciona como um garantidor de dívidas. Ao cobrir parcialmente o risco de inadimplência junto às instituições financeiras, o fundo reduz as exigências de garantia real solicitadas aos empreendedores. Em 2025, o volume contratado superou R$ 11 bilhões, recurso que chega com orientação técnica (“crédito assistido”) sobre gestão financeira, marketing e inovação.
Isso se traduz em maior capacidade de investimento em estoque, capital de giro e expansão de unidades, o que demanda contratação de novos trabalhadores. Segundo o Sebrae, empreendimentos que acessam crédito assistido aumentam o quadro de pessoal em média 2,3 vezes mais rápido que os que não recorrem à linha.
Efeitos da política fiscal sobre o emprego
A política de elevação do teto de isenção do Imposto de Renda, citada por Décio Lima, atua duplamente sobre o mercado de trabalho:
Imagem: André Gomes
• Oferta de trabalho: renda líquida maior torna ocupações de menor remuneração relativamente menos atraentes, pressionando empregadores a melhorar salários ou benefícios para reter mão de obra.
• Demanda por trabalho: famílias com mais renda disponível tendem a consumir serviços locais, como alimentação fora de casa, reformas residenciais e cuidados pessoais — setores povoados por MPEs.
O efeito combinado é um estímulo ao dinamismo econômico que favorece novos contratos de trabalho. Nesse ambiente, as estatísticas de 2026 tendem a reforçar a tendência de queda do desemprego, conforme projeta o Sebrae.
Comparação histórica da taxa de desemprego
Desde 2012, quando a aferição passou a adotar metodologia contínua, a taxa de desocupação variou entre 4,8% (em 2014) e 13,7% (no primeiro trimestre de 2021, auge dos impactos da pandemia). A marca de 5,6% alcançada em 2025 representa o segundo melhor resultado da série, perdendo apenas para 2014.
A sustentação desse patamar, contudo, depende de fatores macroeconômicos como crescimento do PIB, estabilidade inflacionária e taxa de juros real. Em cenários de baixo crescimento, micro e pequenas empresas tendem a segurar investimentos, mas o histórico recente mostra que elas se adaptam com rapidez, preservando empregos e até criando novas vagas em nichos surgidos de mudanças de comportamento do consumidor.
Perspectivas para 2026
O presidente do Sebrae se mostrou confiante: “O ano de 2026 será ainda melhor, não tenho a menor dúvida, com relação ao momento que estamos vivendo”. A previsão se ancora em quatro vetores:
1. Consolidação do crédito assistido: espera-se expansão do Fampe, com maior número de operações para capital de giro e modernização, inclusive via fintechs.
2. Digitalização acelerada: plataformas de comércio eletrônico, meios de pagamento instantâneo e marketing digital tendem a ampliar a base de clientes das MPEs sem a necessidade de grandes estruturas físicas.
3. Crescimento do turismo interno: a valorização do real frente a moedas fortes, aliada a melhorias em infraestrutura aeroportuária e rodoviária, favorece viagens domésticas, colocando hotéis, pousadas, restaurantes e guias de turismo — na maioria, pequenos negócios — em rota de expansão.
4. Sustentabilidade como oportunidade: legislação ambiental mais rígida e conscientização do consumidor abrem espaço para produtos recicláveis, agricultura familiar e energia solar, segmentos com elevada participação de microempreendedores.
Importância do acompanhamento estatístico
Monitorar o desempenho das MPEs pelo Caged e pela Pnad Contínua é fundamental para calibração de políticas públicas. Quando se observa retração no ritmo de admissões, programas de crédito e capacitação podem ser reforçados. Se há concentração regional de desemprego, convênios estaduais e municipais podem direcionar incentivos à formalização, por exemplo, via ampliação do Microempreendedor Individual (MEI).
Do ponto de vista do investidor privado, conhecer a evolução do emprego por porte de empresa auxilia no desenho de fundos que apostam em microcrédito ou em franquias de baixo investimento, infravermelho onde as MPEs se multiplicam.
Recomendações para empreendedores em 2026
À luz dos dados apresentados, empreendedores que pretendem ampliar ou abrir um negócio de pequeno porte podem seguir três linhas mestras:
• Gestão financeira rigorosa: planejar fluxo de caixa, separar finanças pessoais e empresariais, adotar sistemas de controle e buscar orientação contábil.
• Qualificação profissional: equipes treinadas em atendimento, vendas online e procedimentos de segurança elevam a competitividade. O Sebrae oferece cursos gratuitos e consultorias subsidiadas que aceleram a curva de aprendizado.
• Inovação incremental: pequenas mudanças em embalagem, canais de venda e meios de pagamento já geram diferencial competitivo sem demandar grandes investimentos de capital.
Conclusão: pequenos negócios, grande impacto
Ao reduzir a taxa nacional de desemprego a 5,6% e responder por mais de 80% das vagas formais criadas em 2025, as micro e pequenas empresas demonstram força imprescindível para a economia brasileira. MPEs impulsionam emprego, fortalecem a arrecadação tributária nos municípios e distribuem renda de forma mais homogênea pelo território.
Se o crédito continuar chegando de maneira direcionada, se a política fiscal mantiver estímulos ao consumo e se a capacitação técnica permanecer acessível, o país tem chance de consolidar taxas de desocupação semelhantes às economias desenvolvidas. Para isso, é essencial que gestores públicos e privados reconheçam o papel das MPEs como alavanca estruturante do desenvolvimento inclusivo.
Os números apresentados pelo IBGE e pelo Sebrae não deixam dúvidas: apoiar o empreendedor de pequeno porte é, na prática, investir no emprego, na renda e no futuro de milhões de brasileiros.
Com informações de Agência Sebrae de Notícias


