Indicação Geográfica Taubaté marca um novo capítulo para a economia criativa paulista. O reconhecimento oficial das figuras de argila, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), transforma um saber-fazer secular em ativo competitivo capaz de ampliar mercados e gerar renda sustentável para centenas de artesãos.
Com o selo de procedência, o artesanato taubateano ganha evidência nacional, reafirma suas raízes no século XVII e se projeta como símbolo de identidade cultural no estado de São Paulo. A conquista, apoiada pelo Sebrae, ilustra como a união entre tradição e estratégia de mercado pode impulsionar comunidades inteiras.
O que significa a Indicação Geográfica para Taubaté?
A Indicação Geográfica (IG) é um instrumento de propriedade industrial que protege produtos cujas características estão diretamente vinculadas à origem territorial. No caso de Taubaté, a modalidade reconhecida foi a Indicação de Procedência (IP), que atesta a reputação do local na produção de figuras modeladas em argila.
Para os artesãos, o certificado funciona como garantia de autenticidade. Para o consumidor, atua como selo de qualidade e confiança. Na prática, a Indicação Geográfica Taubaté delimita a região produtora, descreve técnicas tradicionais, define critérios de controle e fortalece a narrativa cultural em torno de cada peça.
Raízes históricas que atravessam séculos
A arte figureira de Taubaté tem registros que remontam à chegada dos frades franciscanos no século XVII, durante a construção do Convento de Santa Clara. Foi nesse ambiente religioso que surgiram os primeiros presépios em argila, um costume europeu reinterpretado com matéria-prima local.
O ofício ganhou difusão de geração em geração, consolidando a cidade como polo ceramista. No entanto, o grande ponto de inflexão ocorreu na transição do século XIX para o XX, graças ao trabalho da artesã Maria da Conceição Frutuoso Barbosa (1866-1944). Ela foi pioneira na modelagem de imagens sacras e responsável por estruturar a identidade das futuras “figureiras”, artesãs que, até hoje, preservam técnicas centenárias.
Do pavão ao azulão: símbolos que contam histórias
Nenhuma peça representa melhor a Indicação Geográfica Taubaté do que o pavão estilizado em cerâmica. Tornado símbolo do artesanato paulista em 1979, o pássaro é reconhecido pelo corpo robusto, rabo em leque e pintura viva. Ao lado dele, surgem santos, presépios, animais do folclore e miniaturas que dialogam com várias manifestações culturais.
Outro traço inconfundível está na técnica de acabamento chamada “azulão”. Trata-se de uma combinação de pó azul ultramar, goma-laca e álcool que confere tonalidade marcante às peças. Embora simples, o processo exige domínio preciso das proporções, secagem e polimento — um segredo mantido à risca pelos ateliês familiares.
Da oficina à vitrine: o ciclo produtivo artesanal
O barro utilizado nas figuras provém, tradicionalmente, de reservas próximas ao Vale do Paraíba. Após a coleta, a argila é limpa, amassada manualmente e modelada sem o auxílio de tornos. A queima ocorre em fornos a lenha que ultrapassam os 800 °C, garantindo resistência às esculturas.
Finalizado o cozimento, inicia-se o ritual da pintura. Pincéis de cerdas naturais aplicam a base branca, seguida por pigmentos terrosos. O azulão, por sua vez, aparece em detalhes que realçam contornos e texturas. Cada etapa, do início ao fim, pode levar de dois a sete dias, dependendo do tamanho da peça e das condições climáticas.
Como o Sebrae impulsionou a obtenção da IG
Embora a qualidade artística fosse reconhecida há décadas, a formalização da Indicação Geográfica Taubaté exigiu mobilização coletiva. O Sebrae atuou como agente articulador, oferecendo consultorias para mapeamento de produtores, padronização de dossiês técnicos, capacitação em gestão e assistência na tramitação junto ao INPI.
A entidade também fomentou oficinas de design, orientação sobre precificação e estratégias de comercialização para feiras nacionais. O resultado é visível: artesãos capacitados em temas que vão da formalização tributária ao marketing digital, aptos a negociar em novos canais de venda sem perder a essência artesanal.
Impacto socioeconômico da Indicação Geográfica Taubaté
Segundo estimativas locais, há aproximadamente 120 famílias envolvidas diretamente na produção de figuras de argila. Com a IG, espera-se aumento de receita média por peça e diversificação de públicos consumidores, incluindo turistas, colecionadores e galerias de arte popular.
A proteção territorial ainda traduz benefícios indiretos: geração de empregos sazonais em logística, embalagens sustentáveis, serviços de guia cultural e gastronomia regional. A cadeia produtiva, antes concentrada em ateliês, se expande para restaurantes, pousadas e roteiros temáticos que integram a cerâmica à história do Vale do Paraíba.
Por que a IG é ferramenta estratégica para pequenos negócios?
Em um mercado globalizado, diferenciação é palavra -chave. Produtos artesanais competem com artigos industriais de baixo custo, mas ganham valor agregado ao exibir atributos de procedência. A Indicação Geográfica Taubaté, portanto, posiciona as figuras de argila como bens culturais únicos, impossíveis de serem replicados em série sem violar a lei.
Ademais, o selo reduz assimetria de informação entre produtor e consumidor. Ao ver a denominação no rótulo, o comprador identifica origem, qualidade e método artesanal. Esse elo de confiança justifica preços superiores e amplia margens de lucro, fundamentais para artesãos muitas vezes vulneráveis a oscilações de demanda.
Processo de registro no INPI: etapas até a chancela
O pedido de IG é formalizado por entidade representativa – no caso, a associação dos figureiros – e segue trâmite que inclui exame técnico, publicações em Diário Oficial e possibilidade de impugnação. Documentos enviados devem comprovar:
• Delimitação da área geográfica
• Histórico do produto na região
• Reputação e reconhecimento público
• Métodos tradicionais de produção
• Mecanismos de controle de qualidade
Depois de cerca de dois anos de análises, o INPI publicou, em 19 de outubro, o certificado de Indicação de Procedência. O resultado elevou o número total de IGs brasileiras para 155 registros, sendo 123 na categoria IP e 32 na classificação Denominação de Origem (DO).
Imagem: Camila Vidal
Políticas públicas e legislações de proteção cultural
O pavão de Taubaté já figurava em legislações municipais, como a Lei Complementar nº 55/1994, que reconhece o patrimônio cultural local. A IG, entretanto, fornece cobertura nacional, complementando esforços de salvaguarda e criando barreiras contra possíveis adulterações.
Outra norma relevante é o decreto que institui o Programa Nacional de Promoção das Indicações Geográficas e Marcas Coletivas, coordenado pelos ministérios da Agricultura, Desenvolvimento Regional e Indústria. A iniciativa prevê linhas de crédito, formação técnica e divulgação em eventos internacionais.
Desafios pós-reconhecimento e estratégias de futuro
Apesar do avanço, a Indicação Geográfica Taubaté impõe responsabilidades. Os produtores precisam manter padrões uniformes, registrar volume de vendas, fiscalizar o uso da marca e solucionar disputas de forma colegiada. O controle social garante que cada pavão, santo ou miniatura reflita a tradição sem ceder a atalhos industriais.
Do ponto de vista mercadológico, o desafio reside em escalar produção sem descaracterizar o trabalho manual. Autoridades locais avaliam criar um centro de formação figureira para capacitar jovens e evitar o êxodo de talentos. Outra frente mira a digitalização: lojas virtuais e marketplaces podem ampliar o alcance global das peças, desde que haja logística adaptada a itens frágeis.
Turismo de experiência: a rota da argila em Taubaté
O Vale do Paraíba já reúne atrativos como fazendas históricas, trilhas ecológicas e museus do escritor Monteiro Lobato. A Indicação Geográfica Taubaté soma-se a esse repertório, possibilitando circuitos de visitação a ateliês, vivências de modelagem e oficinas de pintura em azulão.
Agentes de turismo planejam pacotes que incluem almoço em fogão a lenha, apresentações de viola caipira e paradas em feiras de artesanato. O conceito de slow travel — viagens mais lentas e imersivas — encontra terreno fértil para valorizar culturas locais e, simultaneamente, ampliar o fluxo de caixa dos produtores.
Vozes dos artesãos: sentimento de orgulho e responsabilidade
Embora o dossiê entregue ao INPI contenha relatórios técnicos, é nos depoimentos que se percebe o real impacto da conquista. “Agora temos reconhecimento que nossos avós sonharam”, diz uma figureira que prefere anonimato. Já um artesão veterano ressalta: “Não é só papel; é garantia de que o pavão vai voar por outros continentes sem perder suas cores”.
Hulda Giesbrecht, coordenadora de Negócios de Base Tecnológica do Sebrae Nacional, sintetiza o momento: “A IG cria um ambiente mais seguro para o artesão acessar novos mercados, agregar valor ao produto e preservar a autenticidade do saber-fazer local.”
Comparativo com outras IGs de artesanato no Brasil
O artesanato brasileiro reúne registros expressivos: o capim-dourado do Jalapão (TO), as rendas de bilro de Florianópolis (SC) e a cerâmica do distrito de Goiabeiras (ES) são exemplos. A Indicação Geográfica Taubaté ocupa lugar de destaque por representar um polo tradicional dentro do maior estado industrial do país, provando que inovação e memória podem coexistir.
Especialistas apontam que o sucesso de IGs anteriores serve de roteiro. No Tocantins, por exemplo, o capim-dourado incrementou a renda média de artesãs em até 40% cinco anos após o registro. Em Santa Catarina, as rendeiras garantem exportações para a Europa. O mesmo potencial se desenha para Taubaté, desde que haja planejamento orientado a longo prazo.
Estratégias de marketing digital pós-IG
Com a chancela, surge a necessidade de estruturar presença online. Páginas institucionais podem explicar o significado da Indicação Geográfica Taubaté, listar pontos de venda e divulgar catálogos virtuais. Investir em fotografia profissional, vídeos de bastidores e narrativas humanizadas ajuda o consumidor a compreender o valor simbólico do produto.
Redes sociais como Instagram e Pinterest são vitrine para peças artísticas. A integração com políticas de frete compensado, embalagens recicláveis e emissão de certificados de autenticidade fortalece a confiança do comprador. Já plataformas de e-commerce especializadas em artesanato sustentam transações seguras, convertendo alcance digital em receita tangível.
Educação patrimonial: o papel das escolas e universidades
O reconhecimento da Indicação Geográfica Taubaté não deve ficar restrito ao setor produtivo. Iniciativas escolares podem introduzir oficinas de modelagem, visitas aos ateliês e palestras sobre patrimônio imaterial. Universidades, por sua vez, podem desenvolver pesquisas em design, química de pigmentos e economia criativa, ampliando a base de conhecimento científico.
Tais ações criam orgulho local, engajam novas gerações e asseguram que o ofício não se perca frente à mecanização. Além disso, contribuem para integração interdisciplinar entre artes visuais, história, geografia e empreendedorismo.
Conclusão: legado preservado, futuro promissor
A Indicação Geográfica Taubaté representa mais que um selo. É reconhecimento institucional de uma trajetória iniciada há mais de 300 anos, mantida viva pela habilidade de mãos que transformam barro em poesia visual. Ao legitimar esse patrimônio, o INPI pavimenta caminho para desenvolvimento econômico inclusivo, fundamentado em identidade cultural.
Desafios permanecem: manter qualidade, gerir uso coletivo da marca e equilibrar tradição e modernidade. Entretanto, o horizonte é alentador. Com apoio do Sebrae, políticas públicas alinhadas e engajamento comunitário, o pavão de Taubaté tem tudo para alçar voos internacionais, carregando consigo histórias, cores e a força de uma comunidade que aprendeu a moldar o tempo em argila.
Com informações de Agência Sebrae de Notícias

