Impacto do fim da escala 6×1 divide micro e pequenos empresários

O Impacto do fim da escala 6×1 nos pequenos negócios brasileiros tem sido objeto de debates intensos no Congresso Nacional, na imprensa especializada e dentro das empresas. À medida que o governo federal manifesta apoio à mudança e quatro projetos tramitam na Câmara e no Senado, proprietários de micro e pequenas empresas buscam entender de que forma essa possível alteração na jornada de trabalho afetará custos, produtividade e competitividade.

Uma pesquisa recente do Sebrae, divulgada na 9ª edição do estudo “Pulso dos Pequenos Negócios”, traz números que ajudam a dimensionar a percepção dos empreendedores. Segundo o levantamento, 47% dos entrevistados acreditam que não haverá impacto significativo em seus negócios caso a escala de seis dias trabalhados por um de descanso seja extinta. Outros 32% enxergam possíveis prejuízos. Esse cenário heterogêneo reflete diferentes realidades setoriais, tamanhos de equipe e níveis de digitalização.

Este artigo aprofunda o tema, contextualizando a discussão, detalhando os principais pontos da proposta, analisando oportunidades e riscos para os pequenos negócios e apresentando recomendações já sugeridas por especialistas para uma transição segura.

Entendendo a escala 6×1: origem e funcionamento

No regime 6×1, previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o empregado cumpre seis dias consecutivos de serviço e tem direito a um dia de folga. Essa lógica foi historicamente pensada para setores que operam de segunda a sábado — comércio, indústria e serviços de atendimento ao público — garantindo um fluxo ininterrupto de produção ou vendas, sobretudo em momentos de menor mecanização e automação.

Com a aceleração digital, a adoção de novas tecnologias e a mudança no comportamento do consumidor, diversos segmentos vêm ajustando espontaneamente suas escalas. Muitas grandes companhias já migraram para o modelo 5×2 (cinco dias de trabalho por dois de descanso) ou alternativas flexíveis baseadas em metas, especialmente em escritórios de tecnologia e em empresas de economia criativa.

O que está em discussão no Congresso

Quatro projetos de lei tratam da extinção formal da escala 6×1 ou da redução da jornada semanal de trabalho. Embora possuam redações diferentes, todos convergem na intenção de:

Garantir um segundo dia de descanso remunerado ao trabalhador, sem redução salarial.
Permitir negociação coletiva para setores cujas atividades exijam operação contínua.
Prever período de transição que evite aumento abrupto de custos, sobretudo para micro e pequenas empresas.

Em linhas gerais, as proposições sugerem escalonar prazos e criar mecanismos de apoio, como linhas de crédito ou incentivos fiscais, para cobrir eventuais custos adicionais na folha de pagamento de empresas de menor porte.

Por que o debate ganhou força em 2024

Duas razões principais explicam o avanço do tema: a sinalização oficial do governo a favor da medida e a conjuntura econômica pós-pandemia, que expôs a importância do bem-estar do trabalhador para a produtividade. Desde 2023, os pequenos negócios respondem por cerca de 80% do saldo líquido de vagas formais no país. Esse protagonismo colocou as micro e pequenas empresas no centro das discussões trabalhistas.

O Palácio do Planalto sustenta que uma jornada menor, sem corte de salários, pode estimular contratações, reduzir o desemprego e elevar o poder de compra das famílias. Para evitar choque nos custos, o governo já indicou que apenas micro, pequenas e médias empresas seriam beneficiadas por um cronograma escalonado de adoção da nova jornada.

Números da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios

Realizada entre novembro e dezembro de 2024, a 9ª edição da pesquisa do Sebrae ouviu milhares de donos de microempresas, pequenas empresas e microempreendedores individuais (MEI). O estudo revelou:

47% acreditam que a mudança “não terá impacto” em seus negócios.
32% temem efeitos prejudiciais diretos, como aumento de despesas e logística de escalas.
21% veem oportunidade de ganhos em produtividade ou reputação ao oferecerem mais descanso.

Setores como academias, logística, beleza, agronegócio e economia criativa aparecem entre os que menos preveem impactos negativos. O contexto de trabalho flexível, forte presença de prestação de serviços por empreendedores individuais e a adoção crescente de ferramentas digitais explicam parte desse otimismo.

O papel do Sebrae e a defesa de uma transição negociada

Para o presidente do Sebrae, Décio Lima, o debate precisa ser construído coletivamente: “Entendemos que as mudanças na jornada devem ser feitas com diálogo e a partir de uma negociação com amplos setores da sociedade, garantindo segurança jurídica e sustentabilidade para empresas e trabalhadores”.

O dirigente também vê potencial para melhora na qualidade de vida e aumento de produtividade. Contudo, reconhece desafios específicos para negócios com até nove empregados — grupos que podem sentir mais o peso de reorganizar escalas ou contratar pessoal extra.

Estudo do Ipea sobre impactos macroeconômicos

Uma análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que a economia nacional tem capacidade de absorver a redução na jornada, mas aponta vulnerabilidades nos pequenos negócios, sobretudo aqueles com até nove colaboradores. As dificuldades residem, principalmente, em:

Remanejamento de turnos.
Necessidade de contratar temporários ou fixos adicionais.
Ajustes em folha, encargos e benefícios.

O estudo propõe políticas públicas complementares, como linhas de crédito a juros subsidiados para financiar contratações, capacitação para otimizar processos e adoção de tecnologias de automação.

Aprovação popular em alta

Segundo o Instituto Nexus, 73% da população brasileira apoia a extinção da escala 6×1, desde que não haja queda na remuneração. A opinião pública favorável tende a pressionar o Legislativo por uma decisão ainda em 2025. Esse apoio popular, somado ao posicionamento governamental, cria um ambiente propício à mudança.

Possíveis benefícios para os pequenos negócios

Embora parte dos empreendedores tema custos, especialistas em gestão de pessoas elencam vantagens competitivas, entre elas:

Retenção de talentos: dois dias de folga podem ajudar a reduzir turnover, problema comum em micro e pequenas empresas.
Melhora de imagem: marcas que valorizam o bem-estar tendem a atrair consumidores conscientes.
Ganhos de produtividade: descansos mais longos podem ampliar criatividade e engajamento, inclusive em equipes enxutas.

Impacto do fim da escala 6×1 divide micro e pequenos empresários - Imagem do artigo original

Imagem: André Gomes

Riscos e desafios apontados pelos empreendedores

O levantamento do Sebrae mostra que 32% temem prejuízos. Entre os fatores listados por esse grupo estão:

Aumento dos custos fixos com folha de pagamento.
Complexidade na montagem de escalas para não interromper o atendimento ao cliente.
Necessidade de ampliar quadro de funcionários, impactando financeiramente empresas de caixa limitado.

Além disso, microempresas localizadas em regiões com demanda sazonal — turismo, agronegócio e eventos — receiam não encontrar profissionais extras em períodos de pico ou não conseguir financiá-los.

Estratégias para uma adoção sustentável

Na avaliação de consultores de gestão entrevistados pelo próprio Sebrae, as micro e pequenas empresas que se preparam com antecedência têm maiores chances de transformar o desafio em oportunidade. As recomendações incluem:

Revisão de processos: mapear atividades que podem ser automatizadas ou terceirizadas.
Capacitação da liderança: treinar gestores na criação de escalas flexíveis e na gestão por resultados.
Investimento em tecnologia: usar softwares de ponto, plataformas de trabalho remoto e soluções de autoatendimento.
Negociação coletiva: articular com sindicatos locais acordos que considerem sazonalidade e características regionais.

Casos ilustrativos de setores otimistas

A pesquisa identificou nichos onde a preocupação é menor. Veja por que:

Academias de ginástica
Empresas desse segmento frequentemente funcionam em horários estendidos ou 24 horas. Muitas já adotam escalas 12×36 ou rodam turnos curtos de instrutores, o que facilita redistribuir folgas sem elevar custeio.

Logística de entregas
O uso de motoristas autônomos e plataformas digitais possibilita revezamentos por demanda. Por ser setor que opera por produtividade, o gasto adicional pode ser diluído.

Beleza e estética
Salões, barbearias e clínicas dependem de horários marcados. É comum trabalharem apenas cinco dias por semana, com agendamentos concentrados em períodos de pico, o que torna a migração para 5×2 quase natural.

Como grandes empresas lidaram com a mudança

Embora o foco desta análise sejam os pequenos negócios, vale observar a experiência de companhias de maior porte que já implementaram duas folgas semanais. Essas organizações relatam:

Queda no absenteísmo.
Elevação gradual da produtividade entre 3% e 10% nos 12 primeiros meses.
Melhora na atração de talentos, especialmente para posições que exigem qualificação técnica.

Esses resultados reforçam a hipótese de que bem-estar e resultado financeiro podem caminhar juntos, mesmo em estruturas menores, se houver planejamento.

Inovação e produtividade: o argumento-chave

Para o presidente do Sebrae, é preciso enxergar o debate além da compensação de horas: “As empresas devem ser estimuladas a investir em tecnologias e métodos de trabalho que aumentem a produtividade (…) transformando o desafio em uma oportunidade de inovação”. Automatização de tarefas rotineiras, integração de sistemas de gestão e digitalização de vendas fazem parte desse pacote.

Possíveis instrumentos de apoio governamental

Nos bastidores, parlamentares e membros do Executivo estudam alternativas para mitigar impactos, especialmente nos primeiros anos de adoção. Entre as ideias aventadas estão:

Linhas de crédito lastreadas em bancos públicos para contratação de pessoal adicional.
Desoneração temporária da folha para empresas que comprovarem aumento de headcount.
Programas de consultoria gratuita do Sebrae focados em reorganização de processos.

Próximos passos no Legislativo

Os quatro projetos que tratam do tema podem ser unificados em um substitutivo, segundo líderes partidários. Há expectativa de votação em comissão ainda no primeiro semestre de 2025, seguida de deliberação em plenário. Se aprovada, a matéria seguirá para o Senado antes de eventual sanção presidencial.

Conclusão: para além do custo imediato

O Impacto do fim da escala 6×1 não se resume a folha de pagamento. Ele envolve cultura organizacional, modernização de processos e valorização do capital humano. A pesquisa do Sebrae mostra que a maioria dos empreendedores acredita em impacto neutro ou positivo, mas não ignora desafios específicos, sobretudo para negócios com até nove colaboradores.

O caminho apontado por especialistas passa por planejamento estratégico, negociação setorial e apoio governamental direcionado. Caso o Congresso aprove a mudança, os pequenos negócios que adotarem postura proativa — investindo em eficiência, tecnologia e gestão de pessoas — poderão converter a nova jornada em vantagem competitiva no mercado brasileiro.


Com informações de Agência Sebrae de Notícias

Rolar para cima
Logo do site Renda Boa
Políticas de privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.