Impacto do Carnaval nos negócios: pequenos empreendedores lucram

Impacto do Carnaval nos negócios: pequenos empreendedores lucram

O impacto do Carnaval nos negócios ganha novos contornos quando observamos, de perto, as histórias de micro e pequenos empreendedores baianos que transformam a folia em motor de crescimento econômico. Neste especial, exploramos como a maior festa de rua do planeta se converte em renda, emprego e visibilidade para quem aposta no próprio talento.

Da cozinha que quadruplicará de tamanho sem recorrer a empréstimos à costureira que já planeja construir a casa da filha com a renda extra de fevereiro, as narrativas reunidas aqui revelam a potência de um evento que deve movimentar mais de R$ 18 bilhões no país em 2024, segundo estimativas de instituições ligadas ao turismo e à cultura. Ao longo das próximas linhas, analisamos o que, quem, quando, onde, como e por que esse fenômeno ocorre, sempre à luz do trabalho de apoio do Sebrae, que assumiu papel estratégico no circuito Barra-Ondina.

O Carnaval como alavanca econômica para microempresas

Nos últimos anos, pesquisas de entidades como Confederação Nacional do Comércio (CNC) e Ministério do Turismo têm reforçado que a folia momesca vai muito além do entretenimento. O fluxo maciço de visitantes, o aquecimento de bares, restaurantes, hotéis, transportes e o consumo de produtos personalizados formam um ecossistema complexo, capaz de impulsionar setores diversos.

Salvador, que recebe mais de 3 milhões de pessoas durante a festa, é um dos principais laboratórios desse fenômeno. Lá, o Sebrae ergueu o projeto “Empreendedorismo baiano: tem Sebrae nesse molho”, instalando-se em ponto estratégico do circuito Barra-Ondina, onde 90 % dos fornecedores são micro ou pequenas empresas. A escolha não é casual: segundo levantamento interno da instituição, cada real investido em capacitações no período gera até R$ 5 em faturamento adicional para os negócios participantes.

Quem são os protagonistas desta reportagem

Para compreender, na prática, o impacto do Carnaval nos negócios, conversamos com quatro personagens centrais:

Ricardo Silva, 46 anos, ex-engenheiro da construção civil que migrou para a gastronomia e fundou o restaurante Silva Cozinha em 2023.

Thereza Priore, estilista responsável pela marca de moda autoral criada há 16 anos, hoje referência em personalização de abadás.

Rosenildes Santos, 43 anos, costureira que vê na alta temporada carnavalesca o impulso para realizar o sonho de erguer a casa da filha.

Cleber Soares Pereira, 39 anos, percussionista do grupo Paparicco, banda com 16 anos de estrada e picos de demanda durante a folia.

Como o Sebrae estrutura sua ação no circuito Barra-Ondina

O ponto de apoio montado pelo Sebrae reúne consultores de plantão, estúdio de gravação de conteúdos e uma vitrine de fornecedores locais. A curadoria prioriza microempresas formalizadas, de preferência atendidas em algum momento por programas como o Empretec, curso de empreendedorismo de metodologia ONU aplicado no Brasil pela própria instituição.

Além de fornecer assessorias rápidas sobre gestão financeira, marketing digital e enquadramento tributário, o espaço se transforma em palco de networking. Empresários, artistas, produtores de eventos e jornalistas circulam ali diariamente. Nessa teia de contatos, contratos são fechados em tempo real, criando um ambiente fértil para novos negócios que se estendem muito além da Quarta-Feira de Cinzas.

O caso Silva Cozinha: expansão de 50 para 200 lugares

Quando ainda atuava em grandes construtoras, Ricardo Silva não imaginava que a panela substituiria o capacete. Mas a paixão pela culinária baiana cresceu, e, após concluir o Empretec, a visão de negócio amadureceu. Em 2023 nascia o Silva Cozinha, bar que se consolidou rapidamente pelo menu autoral e pelo clima de boteco sofisticado. O imóvel de 50 lugares tornou-se pequeno, e o Carnaval deste ano representa a virada de chave.

Sem o Carnaval eu não conseguiria expandir. O buffet corporativo que assinaremos em camarotes e eventos privados garantirá o capital de giro necessário para bancar a reforma do novo espaço, com 200 lugares”, explica Ricardo. A operação especial demandou quadruplicar temporariamente o quadro de funcionários: de 30 para cerca de 200 pessoas entre garçons, auxiliares de cozinha e logística.

Gerando empregos formais e temporários

Dados da Secretaria do Trabalho da Bahia apontam que, a cada ano, o Carnaval soteropolitano cria aproximadamente 60 mil postos temporários. Embora parte dessas vagas seja de curta duração, muitos contratos viram efetivos, como ocorreu em edições anteriores nas áreas de cozinha, limpeza e atendimento em restaurantes que mantiveram o ritmo após a festa.

No caso do Silva Cozinha, Ricardo optou por assinar carteira para todos os 30 colaboradores fixos. “É uma forma de reter talentos num mercado extremamente competitivo. Durante o Carnaval ampliamos o time com contratações temporárias, mas já sinalizamos a possibilidade de integrar alguns à equipe permanente, caso a expansão cumpra as metas de faturamento”, revela.

Moda e customização: a força dos abadás personalizados

Abadá customizado faz parte do imaginário do folião que deseja exibir estilo próprio; por isso, marcas especializadas faturam alto em fevereiro. A estilista Thereza Priore, que assina a grife homônima, percebeu cedo essa tendência. Há 16 anos ela abriu o ateliê com foco em peças autorais, mas foi no Carnaval que encontrou seu principal palco de visibilidade.

Em 2024, a marca terá exclusividade no Camarote Viva Bahia para personalizar milhares de camisas. O trabalho exige logística milimétrica: cada peça chega padronizada, passa por triagem, recebe cortes estratégicos, bordados, paetês, aplicações de fitas e arremates com cola quente. A produção vai ao corpo do cliente em até 30 minutos — tempo médio entre a chegada e o brinde de boas-vindas oferecido pelo camarote.

“O impacto do Carnaval nos negócios da moda é fundamental. Em fevereiro, as vendas convencionais caem por causa de IPVA, material escolar e outras despesas das famílias. O faturamento gerado pela personalização equilibra todo o trimestre”, garante Thereza. Para dar conta da alta demanda, o time fixo de cinco pessoas sobe para 15 costureiras e designers temporários, lhes oferecendo renda e, em muitos casos, experiência para empreender depois.

Rosenildes Santos e o sonho da casa própria

Entre as novas contratadas de Thereza está Rosenildes Santos, 43 anos. Costureira desde a adolescência, ela já passou por confecções de jeans, lingeries e figurinos para blocos afros. No ateliê sazonal do Camarote Viva Bahia, Rosenildes recebe cerca de 60 clientes por turno. “Atendo e crio na hora. Cada pessoa quer algo diferente: decote nas costas, aplicações de pedraria, franjas fluorescentes. É um desafio gostoso porque estimula a criatividade e ainda rende um dinheiro extra fundamental”, relata.

Com a remuneração de oito dias de folia, Rosenildes planeja levantar as primeiras paredes da casa da filha, que se casará em breve. “Trabalho o ano inteiro, mas o Carnaval me proporciona um pico que seria impossível alcançar em meses tradicionais. É como se eu tivesse 13.º salário, só que gerado pela minha habilidade de costurar”, comemora.

Quando a música impulsiona carreiras: o exemplo do grupo Paparicco

Se a gastronomia e a moda são setores diretamente beneficiados, a música é alma e coração da festa. O percussionista Cleber Soares sabe disso há 16 carnavais. Integrante do grupo Paparicco, ele celebra uma agenda de 14 shows em apenas uma semana — marca que dobra sua renda mensal.

“É exaustivo, mas vale cada gota de suor. A gente se apresenta em trio elétrico, camarotes, festas fechadas e after parties. Cada palco é uma vitrine. Normalmente fechamos novos contratos para São João, Réveillon e formaturas a partir dos contatos feitos nessa época”, explica Cleber. O artista destaca ainda que produções locais contratam serviços de transporte, alimentação, figurino e cenografia predominantemente de microempresas, reforçando a cadeia produtiva.

Por que o Carnaval impulsiona negócios mesmo fora do eixo turístico

Embora Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro sejam destinos mais lembrados, pesquisas do Sebrae indicam que a festa também aquece economias de cidades sem tradição carnavalesca. Empresas de tecnologia fornecem sistemas de ticket e controle de acesso; gráficas entregam abadás; e marketplaces de fantasias registram picos de tráfego nacionalmente.

Especialistas em marketing digital apontam outros fatores:

1. Exposição de marca espontânea – Fotos e vídeos circulam em redes sociais, gerando tráfego orgânico e oportunidades de venda pós-evento.

2. Inovação acelerada – Para conquistar espaço, empresas testam produtos ou serviços em protótipos rápidos, validando modelos de negócio que, se bem-sucedidos, viram linha fixa no portfólio.

3. Formação de comunidade – O ambiente festivo facilita networking, criando grupos de empreendedores que trocam fornecedores, clientes e conhecimento.

O papel da capacitação: do Empretec às oficinas relâmpago

Ricardo Silva cita o Empretec como ponto de virada. A metodologia trabalha comportamentos empreendedores, como busca de oportunidades, persistência e planejamento. Estudos do Sebrae mostram que 75 % dos egressos assumem riscos calculados com mais segurança e registram crescimento acima da média no primeiro ano pós-formação.

Durante o Carnaval, o Sebrae oferece oficinas relâmpago de gestão financeira para quem atua em barracas de comida de rua, ambulantes e artesãos. São sessões de 45 minutos sobre precificação, fluxo de caixa e atendimento, ministradas em linguagem acessível. A adesão costuma ultrapassar 80 % de lotação.

Desafios que ainda precisam ser enfrentados

Nem tudo, porém, é confete. Empreendedores listam dificuldades recorrentes:

Burocracia – Leis municipais e estaduais variam sobre emissão de alvarás temporários, o que pode atrasar montagem de estruturas.

Logística urbana – Bloqueios de trânsito exigem planejamento robusto para entrada de insumos. Falhas encarecem custos.

Gestão de riscos – Falta de seguro para equipamentos, chuvas repentinas e oscilação no preço de matérias-primas podem comprometer margens de lucro.

Para mitigar esses gargalos, o Sebrae fornece check-lists de compliance e conecta empresas a programas de microcrédito com carência estendida, reduzindo a necessidade de capital imediato.

Panorama numérico do Carnaval 2024

• Previsão de R$ 18 bilhões movimentados no Brasil, segundo CNC.
• 3 milhões de turistas esperados em Salvador.
• 10 mil horas de música ao vivo em palcos oficiais e privados.
• 60 mil contratações temporárias apenas na capital baiana.
• 90 % dos fornecedores do espaço Sebrae são micro ou pequenas empresas.

O que esperar dos próximos anos

Especialistas em economia criativa projetam que, até 2027, o faturamento gerado pelo Carnaval brasileiro possa crescer 20 %, impulsionado pela digitalização de serviços e pelo avanço da formalização de microempreendedores individuais (MEIs). Tendências observadas:

Realidade aumentada – Experiências imersivas em camarotes devem ampliar a venda de ingressos exclusivos.
Pagamentos cashless – Pulseiras e aplicativos integrados a carteiras digitais tendem a dominar, reduzindo filas e melhorando a segurança financeira.
Sustentabilidade – Materiais recicláveis e logística reversa serão exigências contratuais, abrindo mercado para fornecedores verdes.

Conclusão: Carnaval como catalisador de sonhos e resultados

As histórias de Ricardo, Thereza, Rosenildes e Cleber evidenciam que o impacto do Carnaval nos negócios vai além das manchetes sobre bilionários fluxos turísticos. Ele se traduz em expansão física de restaurantes, estabilidade financeira de ateliês de moda, realização de projetos familiares e projeção artística.

Quando instituições como o Sebrae entram em cena, unindo capacitação, crédito orientado e networking, a festa assume papel de política pública complementar, capaz de reduzir informalidade e estimular inovação. Assim, o confete de fevereiro espalha sementes que germinam o ano inteiro, transformando a economia criativa brasileira em território fértil para quem decide empreender.

No fim das contas, se não fosse o Carnaval, muitos pequenos negócios talvez não tivessem nascido — e vários sonhos, certamente, ainda estariam no papel.

Com informações de Agência Sebrae de Notícias

Rolar para cima
Logo do site Renda Boa
Políticas de privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.