Formalização de ambulantes no Carnaval cresce 45% e impulsiona renda

Formalização de ambulantes no Carnaval cresce 45% e impulsiona renda

A formalização de ambulantes no Carnaval alcançou a marca impressionante de 56,4 mil microempreendedores individuais (MEIs) em 2025, revelando um salto de 45% em relação a 2023. O movimento, puxado pelo boom da folia que deve injetar R$ 18,6 bilhões na economia brasileira apenas neste ano, reforça a força econômica dos pequenos negócios ligados à maior festa popular do país.

Os novos números, apurados pelo Sebrae a partir da plataforma DataSebrae, mostram como a festa momesca extrapola o entretenimento e se consolida como enorme geradora de renda, empregos e oportunidades de inclusão produtiva. De costureiras a ambulantes de alimentação, a engrenagem do Carnaval envolve milhares de profissionais que, ao se formalizarem, passam a ter acesso a direitos previdenciários, crédito e novas possibilidades de crescimento.

Neste artigo, mergulhamos nos bastidores dessa transformação: quem são esses empreendedores, por que decidiram se regularizar, como o Sebrae atua para apoiá-los e quais impactos sociais e econômicos decorrem da formalização em massa. O relato traz ainda exemplos inspiradores, como o da baiana de acarajé Maria Emília Bittencourt, que celebrou seis décadas de trabalho e viu seu faturamento aumentar em até 25% durante a festa.

O que explica o salto de 45% na formalização em apenas dois anos?

Para compreender o ritmo acelerado de registros, é preciso analisar uma combinação de fatores que se reforçam mutuamente.

Demanda reprimida e expansão da festa: após as restrições dos anos de pandemia, o Carnaval voltou a ocupar ruas, avenidas e praias do país com força total. Apenas em Salvador, a expectativa é receber mais de 1,2 milhão de turistas neste ano. Para os ambulantes, isso significa uma clientela potencial muito mais ampla, motivando a busca por regularização para atender a exigências de fornecedores, órgãos públicos e grandes blocos.

Vantagens do CNPJ: ao se tornarem MEIs, os profissionais podem emitir nota fiscal, acessar linhas de microcrédito com juros menores e contribuir para a Previdência Social. Na prática, a formalização representa segurança jurídica e novas possibilidades de parcerias, especialmente com camarotes e marcas patrocinadoras que exigem documentação em dia.

Ações de incentivo do Sebrae: programas de capacitação, consultorias gratuitas, palestras e campanhas presenciais durante o período pré-Carnaval têm informado sobre os benefícios da formalização. Na Bahia, por exemplo, o projeto “Sustenta Folia” alia gestão, sustentabilidade e inclusão produtiva, orientando ambulantes sobre práticas mais responsáveis e competitivas.

Radiografia dos números: Brasil e estados em destaque

O levantamento do Sebrae revela um progresso uniforme em quase todo o território, com destaque para três grandes centros carnavalescos:

Brasil: 56,4 mil MEIs ambulantes de alimentação em 2025, contra 38,8 mil em 2023 e 42,8 mil em 2024.

São Paulo: líder absoluto em números absolutos, o estado registrou 16.015 novos ambulantes formalizados em 2025 — alta de 43% sobre 2023.

Rio de Janeiro: berço dos desfiles na Marquês de Sapucaí, o Rio somou 6.572 formalizações em 2025, avanço de 54% em dois anos.

Bahia: coração do Carnaval de rua, o estado alcançou quase 3 mil MEIs no segmento no ano passado, aumento de 39% em relação a 2023.

Esses dados evidenciam que a formalização não se restringe às capitais e grandes desfiles; ela se espalha por todo o país, acompanhando a multiplicação dos chamados “Carnavais de bairro”, blocos independentes e festejos em municípios médios que veem na música e na gastronomia de rua oportunidades para movimentar a economia local.

Quem são os novos MEIs do Carnaval?

Embora o estudo se concentre nos vendedores de alimentos, a cadeia carnavalesca engloba outras categorias que, indiretamente, também embarcam na formalização. Entre os casos mais frequentes no banco de dados do Sebrae estão:

• Vendedores de bebidas artesanais e coquetéis;

• Baianas de acarajé e tapioca;

• Churrasquinhos e espetinhos;

• Food bikes de sanduíches e doces;

• Barracas de frutas, água e coco;

• Pequenos fornecedores de gelo, gelo ecológico e acessórios térmicos.

A formalização é vista por esses profissionais como uma etapa essencial para negociar pontos de venda com prefeituras, acessar editais de patrocínio e participar de feiras gastronômicas no circuito. Além disso, muitos indicam a intenção de continuar operando durante todo o ano, seja em festas regionais, seja em eventos corporativos, tornando o CNPJ um passaporte para a expansão contínua do negócio.

Como se tornar MEI: passos, custos e benefícios

O processo de registro como Microempreendedor Individual é simples, gratuito e pode ser feito pela internet. Para ser enquadrado, o faturamento anual não pode ultrapassar R$ 81 mil, e o titular não deve participar de outra empresa como sócio ou administrador. No caso de ambulantes de alimentação, é possível ter um funcionário com remuneração de até um salário mínimo ou piso da categoria.

Depois de concluído o cadastro, o empreendedor passa a pagar uma guia mensal (DAS) que hoje gira em torno de R$ 70,00 para o segmento de comércio ou indústria, valor que inclui a contribuição ao INSS e tributos municipais e estaduais específicos.

Entre os benefícios de imediato figuram:

Aposentadoria e benefícios do INSS;

Direito a auxílio-doença e salário-maternidade;

Acesso a linhas de microcrédito;

Emissão de nota fiscal;

Participação em licitações e eventos formais.

Sebrae na avenida: apoio técnico e visibilidade

Durante a folia de 2025, o Sebrae apostou em ações de live marketing para demonstrar, na prática, como a instituição pode potencializar resultados de pequenos negócios. No camarote Viva Bahia, localizado no circuito Barra-Ondina, quase 90% dos fornecedores são micro e pequenas empresas. A curadoria inclui iniciativas de moda, economia criativa, alimentos e bebidas — um retrato de como os empreendedores locais abastecem a festa.

Segundo Ana Paula Garcia, coordenadora nacional da marca Sebrae, “o Carnaval é um dos maiores palcos de conexão com o público no Brasil; estar presente de forma estratégica é fundamental para traduzir em valor tudo o que os pequenos negócios entregam.”

Além da exposição de produtos, o Sebrae oferece consultorias expressas sobre gestão financeira, marketing digital e atendimento ao cliente. Muitas vezes, esses atendimentos ocorrem diretamente na rua, próximo aos circuitos, com orientações rápidas sobre documentação, manipulação segura de alimentos e descarte correto de resíduos.

Sustentabilidade em destaque: o caso do projeto Sustenta Folia

A responsabilidade ambiental tem ganhado peso nas discussões sobre grandes eventos no país. Em Salvador, o projeto Sustenta Folia promoveu oficinas sobre redução de plásticos de uso único, escolha de insumos menos poluentes e logística reversa de resíduos gerados no circuito.

Um dos resultados mais visíveis foi a substituição de copos descartáveis convencionais por versões de papel ou reutilizáveis, além do incentivo ao uso de talheres de madeira. Para os ambulantes, a mudança representa economia de longo prazo e novo apelo comercial, pois o público valoriza empresas alinhadas a princípios de preservação ambiental.

História que inspira: Maria Emília Bittencourt, a baiana que conquistou o mundo

Nenhuma estatística é tão poderosa quanto a trajetória de quem vivencia o Carnaval na pele. Aos 75 anos, Maria Emília Bittencourt soma mais de seis décadas preparando acarajé para baianos e turistas. Dos tempos em que vendia o quitute no Largo de Amaralina até as noites atuais na praia do Porto da Barra, ela testemunhou a evolução dos trios elétricos, a explosão do Axé Music e o surgimento dos blocos afros.

“Estou com mais de 60 anos trabalhando e não pretendo parar. Isso me faz forte”, afirma, orgulhosa dos sete filhos criados com a renda do tabuleiro e de ter visitado mais de 40 países graças ao reconhecimento que seu acarajé ganhou mundo afora.

Com a capacitação do Sebrae, a baiana decidiu adotar copos, canudos e pratos de papel, além de garfos de madeira, reduzindo seu impacto ambiental. A mudança dialoga com a nova geração de foliões, mais atenta a temas de sustentabilidade. Segundo Maria Emília, suas vendas sobem, em média, 25% durante a folia, reforçando a importância de se planejar para aproveitar o momento de pico de demanda.

Impactos macroeconômicos: R$ 18,6 bilhões em circulação

O Carnaval é o maior evento de turismo interno do Brasil. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) projeta um faturamento de R$ 18,6 bilhões em 2025, considerando hospedagem, alimentação, transportes, lazer e serviços diversos. Dentro desse montante, a venda ambulante de alimentos exerce papel crucial, ao oferecer opções acessíveis e rápidas para milhões de foliões.

Para as prefeituras, o aquecimento na arrecadação de ISS e taxas de licenciamento compensa os investimentos em infraestrutura e segurança pública. Já para os pequenos negócios, a temporada pode representar até 40% do lucro anual, conforme pesquisas do Sebrae em estados como Pernambuco e Bahia.

Desafios ainda presentes na formalização

Apesar dos avanços, especialistas reconhecem obstáculos que limitam a migração total para a legalidade:

Burocracia municipal: embora o registro como MEI seja federal, cada cidade adota regras próprias para conceder alvarás temporários ou fixos. Processos confusos e taxas elevadas acabam desestimulando parte dos empreendedores.

Falta de informação: muitos ambulantes desconhecem que podem se registrar gratuitamente ou temem custos extras. Campanhas educativas são decisivas para desmistificar o processo.

Capacitação contínua: formalizar é apenas o primeiro passo. Gestão de estoque, precificação, atendimento ao cliente e marketing digital são competências que precisam ser desenvolvidas para garantir longevidade ao negócio pós-Carnaval.

Perspectivas para 2026 e além

Diante do crescimento contínuo e do interesse de municípios em potencializar seus Carnavais de rua, a projeção do Sebrae é de que o número de ambulantes formalizados ultrapasse 65 mil em 2026. Alguns fatores que podem acelerar esse processo incluem:

Diversificação de produtos: a popularização de alimentos veganos e sem glúten abre espaço para novos nichos e obriga vendedores tradicionais a se reinventar.

Pagamentos digitais: a massificação do PIX e de carteiras eletrônicas reduz a dependência de dinheiro em espécie e traz mais segurança para clientes e comerciantes.

Turismo internacional: a retomada de voos e a cotação favorável do real podem atrair maior fluxo de estrangeiros, estimulando ganhos em dólar.

Parcerias com marcas: empresas de bebidas, vestuário e tecnologia buscam cada vez mais se aliar a vendedores oficiais para ampliar sua presença nos circuitos, gerando renda extra e demandas por formalização.

Como preparar seu negócio para o próximo Carnaval

Empreendedores que desejam aproveitar ao máximo a temporada devem iniciar o planejamento com antecedência mínima de três meses. Especialistas do Sebrae recomendam o seguinte roteiro:

1. Regularize seu CNPJ: garanta que todas as certidões estejam válidas para obter alvará municipal e participar de licitações de área de venda.

2. Faça pesquisa de mercado: identifique quais itens foram mais procurados no último Carnaval e analise tendências de consumo (por exemplo, bebidas de baixo teor alcoólico ou opções veganas).

3. Negocie com fornecedores: comprar insumos em volume ainda na pré-temporada permite preços menores e assegura estoque.

4. Invista em capacitação: cursos curtos sobre manipulação de alimentos, gestão financeira e marketing podem ser determinantes para aumentar margem de lucro.

5. Divulgue nas redes sociais: mantenha página atualizada com localização, cardápio e diferenciais (produtos sustentáveis, meios de pagamento, promoções).

Considerações finais

A expansão da formalização de ambulantes no Carnaval não é apenas estatística: representa a consolidação de uma economia criativa que move milhões de reais, gera empregos e assegura inclusão social. Ao obter um CNPJ, o vendedor de rua deixa a informalidade, amplia horizontes e passa a contribuir formalmente com tributos que retornam para melhorias urbanas e políticas públicas.

Para o consumidor, a formalização significa maior segurança alimentar, meios de pagamento modernos e um serviço que responde a padrões de qualidade. Para a cidade, traduz-se em arrecadação, ordenamento do espaço público e fortalecimento da marca turística.

Seja nas ladeiras de Olinda, na passarela do samba carioca ou no circuito Barra-Ondina, o grito de “Olha o churrasquinho!” ecoa cada vez mais profissional, organizado e sustentável. Dos 56,4 mil MEIs que já fazem parte dessa festa, muitos deram o primeiro passo por influência de ações do Sebrae. Aos que ainda hesitam, fica o convite: formalizar é abrir alas para um futuro de oportunidades que vai muito além dos quatro dias de folia.


Com informações de Agência Sebrae de Notícias

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