O empreendedorismo afro no Maranhão ganhou um nome de peso nos últimos anos: Neide Baldez. Administradora de formação, ela deixou para trás uma carreira insatisfatória e, em meio a uma crise pessoal, ergueu a marca Tok Africano, hoje referência em produtos e letramento racial. Sua trajetória mostra como identidade, propósito e apoio institucional podem transformar não apenas a vida de uma mulher, mas também o ecossistema de negócios negros do estado.
A seguir, apresentamos em detalhes a história, os desafios, as conquistas e as lições de Neide Baldez. O objetivo é inspirar, informar e oferecer um panorama ampliado de como o Maranhão se consolida como um dos territórios mais férteis para o afroempreendedorismo no Brasil.
Contexto: Maranhão lidera índice de empreendedores negros
De acordo com levantamento do Sebrae divulgado em novembro passado, cerca de 80% dos empreendedores formais e ativos no Maranhão se autodeclaram negros. O dado coloca o estado no topo do ranking nacional e revela duas tendências: o crescimento do negócio próprio como alternativa econômica e a ascensão de modelos de gestão alinhados à cultura e à ancestralidade afro-brasileira.
Nesse cenário floresce a Tok Africano, empresa fundada por Neide Baldez em São Luís. A marca nasceu em 2017 não apenas para comercializar turbantes, bolsas e outros acessórios, mas para promover letramento racial, empoderamento feminino e cooperação entre empreendedoras pretas.
Primeiros passos: do carro do ovo ao Kitanda
A carreira de Neide começou longe das passarelas de tecido colorido que hoje simbolizam seu negócio. Após concluir a graduação em Administração, ela foi a primeira mulher a dirigir o famoso “carro do ovo” em bairros da capital maranhense. O trabalho exigia madrugar, negociar com fornecedores e interagir diretamente com a clientela.
O sucesso da venda ambulante a levou a abrir um ponto fixo, batizado de Kitanda. Entretanto, a insegurança pública da região e as despesas crescentes comprometeram a sustentabilidade da loja. A empreendedora, então, decidiu retornar ao mercado CLT para garantir estabilidade financeira. O que parecia uma solução virou fonte de angústia.
A crise emocional e a necessidade de recomeço
Contratada pelo departamento pessoal de uma escola renomada de São Luís, Neide passava os dias cercada de papelada. Ela descreve essa fase como sufocante e emocionalmente destrutiva. A insatisfação acumulada quase desencadeou um quadro depressivo, exigindo acompanhamento psicológico.
“Eu ia para o serviço chorando e voltava chorando”, recorda. Foi nesse momento-limite que surgiram duas perguntas decisivas: por que não empreender em algo que a representasse? Por que não canalizar o esforço dedicado a outras empresas em benefício próprio?
O chamado da ancestralidade e o insight da filha
Vivendo um processo de afirmação da própria identidade como mulher negra, Neide começou a percorrer o Centro Histórico de São Luís em busca de referências estéticas que conversassem com suas origens. A virada definitiva veio de um comentário casual da filha adolescente: “Mãe, por que a senhora não empreende em algo voltado para isso?”.
Vaidosa, apaixonada por acessórios de cabelo e consciente de um nicho pouco explorado no mercado local, a empreendedora enxergou a oportunidade de unir propósito e rentabilidade. Nascia, assim, a Tok Africano.
Parceria com o Sebrae: aprendizagem contínua
Transformar paixão em negócio exige habilidades técnicas. Neide recorreu ao Sebrae e mergulhou em uma série de cursos gratuitos sobre gestão, marketing, finanças e transformação digital. Ela destaca três frentes de apoio oferecidas pela instituição:
1. Capacitação: oficinas de precificação, fluxo de caixa e modelo de negócios.
2. Networking: participação em feiras setoriais, rodadas de conversa e missões empresariais.
3. Visibilidade: destaque em eventos como a Feira MA Preta e convites para palestrar sobre protagonismo feminino negro.
Graças a esse envolvimento, Neide foi nomeada Embaixadora do Sebrae no Maranhão, posição que a permite compartilhar aprendizados com outras empreendedoras negras em início de jornada.
Tok Africano: modelo de negócio e propósito
O diferencial competitivo da Tok Africano não está apenas nos produtos, mas na experiência de compra associada a um discurso de valorização étnica. O portfólio abrange turbantes, bolsas, carteiras, brincos e camisas confeccionados por costureiras locais, sempre com estampas africanas. Contudo, como reforça a fundadora, “o turbante é consequência; o letramento racial é a essência”.
Em cada atendimento, Neide não se limita a vender: ela acolhe. Explica o significado cultural das peças, orienta sobre formas de amarração e compartilha relatos de autoaceitação. Esse clima de “aquilombamento” gera fidelização e faz com que as clientes se sintam parte de uma comunidade.
Canais de venda e expansão
Atualmente, a Tok Africano opera em múltiplos pontos:
• Ateliê Pimentinhas, na Praça João Lisboa (Centro Histórico);
• Loja colaborativa na Feira MA Preta, no Rio Anil Shopping;
• Espaço na Fequili, dentro do CAT Liberdade;
• Barraca própria aos domingos na Feirinha São Luís;
• Sistema de entregas via redes sociais e aplicativos de mensagem.
Além disso, a empresa mantém parcerias com costureiras independentes, uma social media e fornecedores de tecidos em São Paulo e Belo Horizonte. A meta, segundo Neide, é conquistar um espaço físico próprio e tornar-se referência nacional em empreendedorismo afro no Maranhão e, por extensão, no Brasil.
O impacto sobre clientes e comunidade
Soraya Mendonça, frequentadora assídua da loja, resume a essência da Tok Africano: “Não é só comprar um turbante. É ser recebida com afeto, aprender sobre nossa história e sair daqui mais forte”. Esse feedback não é isolado. Depoimentos semelhantes multiplicam-se nas redes sociais da marca, refletindo NPS (Net Promoter Score) elevado e taxa de recompra acima da média do setor.
Para além do consumo, a empresa gera impacto social. O ciclo produtivo inclui costureiras de bairros periféricos, que aumentam a renda familiar. As palestras e oficinas ministradas por Neide em escolas públicas estimulam a autoestima de adolescentes negros e negras. Já as mentorias informais a outras microempreendedoras reforçam a economia solidária.
Desafios estruturais e soluções encontradas
Como a maioria das microempresas brasileiras, a Tok Africano também enfrenta obstáculos estruturais:
Capital de giro: a sazonalidade das vendas afeta o fluxo financeiro. Para driblar o problema, Neide criou um “fundo-reserva” equivalente a três meses de despesas fixas.
Logística: alguns fornecedores estão fora do estado, o que encarece o frete. A solução foi unir-se a outros empreendedores para compras coletivas e dividir custos.
Imagem: ASN MA
Escalabilidade: manter a qualidade artesanal em larga escala requer mão de obra qualificada. A marca investe em treinamento periódico de costureiras e estabelece cota de produção semanal para não sobrecarregar ninguém.
Lições de empreendedorismo para mulheres negras
Em palestras e entrevistas, Neide enfatiza três pilares que julga decisivos para o sucesso:
1. Conhecimento: estudar gestão, finanças e marketing evita erros caros e amplia a vantagem competitiva.
2. Rede de apoio: nenhuma empreendedora prospera sozinha. Sebrae, familiares e colegas de nicho são fundamentais.
3. Autoconfiança: a autossabotagem, comum entre mulheres negras, precisa ser combatida com referências positivas e resultados práticos.
Planos futuros e legado
O horizonte de Neide inclui:
• Loja-conceito: ambiente que combine vendas, coffeebar e espaço de oficinas culturais.
• Linha de vestuário: roupas em tamanho inclusivo, produzidas com tecido de origem certificada.
• Plataforma online: e-commerce com logística integrada para todo o país, incluindo programa de fidelidade.
• Escola de turbante: curso presencial e online destinado a profissionais de salão de beleza e influenciadoras.
Quanto ao legado, ela acredita que, se um dia a filha optar por outro caminho, tudo bem. O importante é mostrar que negócios podem nascer da ancestralidade e prosperar sem abrir mão da identidade cultural. “Você pode perder tudo, menos sua cultura e o que aprende”, costuma dizer.
Recomendações do Sebrae para quem quer empreender
O Sebrae Maranhão disponibiliza uma rede de atendimento presencial em diversas cidades — de Imperatriz a Bacabal — e serviços digitais acessíveis pelo portal e pela central 0800 570 0800. Vale destacar quatro programas úteis para quem deseja seguir os passos de Neide:
• Empretec: imersão comportamental que desenvolve características empreendedoras.
• Sebrae Delas: voltado exclusivamente ao empreendedorismo feminino, com ênfase em liderança e acesso a crédito.
• ALI (Agentes Locais de Inovação): consultorias gratuitas para introduzir inovação em micro e pequenas empresas.
• Programa Brasil Mais: melhorias de produtividade e transformação digital subsidiadas pelo governo federal.
Conclusão: quando propósito e negócio caminham juntos
A história de Neide Baldez confirma que o empreendedorismo afro no Maranhão é mais do que uma tendência; é um movimento socioeconômico capaz de redefinir narrativas e gerar prosperidade coletiva. De vendedora de ovos à embaixadora do Sebrae, ela prova que crises podem ser pontos de inflexão rumo a projetos alinhados à identidade e ao bem-estar.
Para quem busca inspiração ou avalia abrir um negócio com viés cultural, o case da Tok Africano evidencia a importância de:
• Associar paixão e conhecimento técnico;
• Construir uma comunidade ao redor da marca;
• Reinvestir parte do lucro em capacitação e inovação.
Seja nos corredores de feiras locais ou nas redes sociais, Neide continua a lembrar diariamente que empreender é também um ato político: “Quando vejo outra mulher preta colocar um turbante e se reconhecer linda, sinto que estou no caminho certo”.
Assim, a cada amanhecer às seis da manhã, São Luís testemunha não apenas a disciplina de uma empreendedora, mas a evolução de um movimento que transforma autoestima em potência econômica — e que tem tudo para se espalhar pelo Brasil.
Com informações de Agência Sebrae de Notícias

