Confiança das micro e pequenas empresas volta a ser o principal termômetro do início de 2026. Após meses de cautela, o indicador Sebrae/FGV mostra alta de 2,3 pontos em janeiro, levando o índice para 91,4 e sinalizando disposição renovada dos empreendedores.
Na mesma direção, o acesso ao crédito também reagiu: 106,4 pontos, o melhor resultado em um ano. O movimento sugere um cenário no qual capital de giro e investimento voltam a ficar ao alcance de empresas que respondem por mais de 70% dos postos formais do País.
Entenda, a seguir, o que impulsionou o salto na confiança, quais setores lideram a retomada, de que forma cada região reage e por que o crédito tende a ganhar tração ao longo do ano.
Panorama: o que o novo índice revela
O levantamento mensal realizado pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) monitora a percepção de quase 3 mil proprietários de micro e pequenas empresas (MPEs) sobre atividade, demanda e expectativas. Em janeiro de 2026, o Indicador de Confiança subiu para 91,4 pontos, rompendo uma sequência de retrações observada no segundo semestre de 2025.
A escala utilizada vai de 0 a 200, sendo que valores acima de 100 sugerem otimismo consolidado. Embora o patamar atual ainda esteja levemente abaixo desse ponto de ruptura, a elevação contínua devolve ânimo ao segmento, que há 12 meses não registrava resultado tão expressivo.
Dois subcomponentes justificam o desempenho recente: “volume de demanda prevista” e “tendência dos negócios”. Ambos caminham lado a lado: quando o empreendedor percebe aumento de pedidos, naturalmente reforça a intenção de contratar, estocar e investir, retroalimentando o ciclo de confiança.
Metodologia do Indicador Sebrae/FGV
O estudo reúne respostas a questionários distribuídos em todas as regiões, abrangendo indústrias, comércios e serviços de diferentes portes dentro da classificação de MPE. Cada pergunta recebe peso baseado em relevância estatística, gerando subíndices setoriais que, por sua vez, compõem o resultado agregado.
Embora não haja divulgação pública de cada detalhe da fórmula, a FGV adota padrões internacionais de pesquisas de sentimento econômico. O fato de a série histórica ter continuidade desde antes da pandemia possibilita comparações confiáveis e leituras em perspectiva de médio prazo.
Indústria retoma a liderança da confiança
O setor industrial foi o principal responsável pela guinada. Saltou 6,6 pontos e alcançou 90,4, superando comércio (89,9) e serviços (88,4). Três segmentos puxaram a virada:
Refino e químicos: a combinação de preços internacionais favoráveis e demanda interna aquecida por fertilizantes e produtos farmacêuticos estimulou o fluxo de pedidos.
Metalurgia: obras de infraestrutura contratadas no fim de 2025 começaram a sair do papel, ampliando encomendas de vergalhões, chapas e ligas.
Produtos de metal: itens de serralheria, implementos agrícolas e componentes automotivos acompanharam a expansão da construção pesada e do agronegócio.
Ao recuperar a dianteira, a indústria envia sinal positivo para toda a cadeia de fornecedores, tradicionalmente formada por micro e pequenos negócios de usinagem, caldeiraria, confecção de peças plásticas e logística de nicho.
Comércio exibe expectativas mais altas desde 2020
No comércio, a elevação geral de 6,1 pontos veio acompanhada de um dado simbólico: o subíndice de expectativas para os próximos meses atingiu 97,2 – o maior patamar desde fevereiro de 2020, último mês pré-pandemia.
Três ramos se destacaram:
Material de construção: programas habitacionais e lançamentos imobiliários impulsionam vendas de cimento, tintas e revestimentos.
Veículos, motos e peças: maior oferta de crédito, redução do IOF e estoque renovado de modelos híbridos aumentaram o fluxo de clientes.
Varejo de vestuário: coleções antecipadas de outono-inverno, aliadas a liquidações agressivas, elevaram o tíquete médio.
O ritmo de recomposição no comércio é determinante para o emprego formal. Nessa cadeia predominam microempresas que, juntas, respondem por fatias expressivas das contratações temporárias e permanentes.
Serviços engatam recuperação gradual
O setor de serviços avançou 1,4 ponto. Embora pareça modesto, trata-se do primeiro ganho consistente desde agosto de 2025. Os destaques são:
Serviços prestados às famílias: academias, salões de beleza, restaurantes e turismo regional colheram efeito da redução do desemprego, cuja taxa chegou ao menor nível da série histórica no fim do ano passado.
Informação e comunicação: empresas de TI focadas em soluções fiscais e de comércio eletrônico ampliaram contratos, refletindo digitalização acelerada de pequenos varejistas.
Serviços profissionais e transportes: consultorias especializadas em ESG, marketing digital e logística de última milha tiveram ganhos expressivos de novos clientes.
Recorte regional: Sul puxa a fila, mas otimismo é generalizado
Quando se observa o índice por região, todas apresentaram melhora:
Sul: +6,2 pontos, liderança baseada na recuperação industrial catarinense e gaúcha.
Sudeste: +1,7 ponto, sustentado por polos metalmecânicos de Minas e setores criativos de São Paulo.
Imagem: Meireles Junior
Nordeste: +1,5 ponto, apoiado no agronegócio irrigado e no turismo costeiro.
Norte/Centro-Oeste: +0,2 ponto, com movimentação capitaneada pela produção de grãos e minerais.
A homogeneidade dos resultados evita concentração de risco e cria ambiente propício a cadeias interestaduais de suprimentos – contexto fundamental para micro e pequenas empresas que dependem de mercados fora de seu estado de origem.
Como a demanda prevista impulsiona a Confiança das micro e pequenas empresas
A pesquisa identificou que expectativas sobre volume de pedidos são o principal motor do salto. Quando o empreendedor antecipa novas encomendas, tende a:
– Repor estoque com fornecedores locais, gerando efeito multiplicador;
– Ampliar linhas de crédito para capital de giro;
– Planejar contratações ou treinamento de equipe;
– Aumentar a verba de marketing para capturar demanda reprimida.
Dessa maneira, o indicador funciona como bússola para bancos, investidores e formadores de políticas públicas, apontando para onde e quando o capital deve ser alocado a fim de maximizar impacto econômico.
Crédito: melhor pontuação em 12 meses
O acesso ao crédito alcançou 106,4 pontos, maior marca em um ano. A pontuação acima de 100 já indica sentimento de facilidade, algo pouco comum entre empresas de menor porte, historicamente penalizadas por juros altos e garantias exigidas.
Três fatores auxiliam a explicação:
Programas de garantias complementares: iniciativas que reduzem risco bancário facilitaram a aprovação de empréstimos sem bens em alienação.
Taxa básica de juros estável: ainda elevada, mas com sinalização de estabilidade, facilitou projeções de fluxo de caixa para amortização.
Adoção de ferramentas digitais: fintechs integradas ao Pix e a plataformas de vendas agilizam análise de crédito baseada em dados de faturamento em tempo real.
Impactos esperados na geração de empregos
Maior confiança e crédito mais acessível costumam se refletir diretamente na criação de vagas formais. Embora o levantamento não apresente números de contratações, a correlação histórica sugere que MPEs elevam o quadro de pessoal pouco depois de encontrarem ambiente de menor incerteza. O País encerrou 2025 com a menor taxa de desemprego desde o início da série, o que reforça a tendência de absorção de mão de obra pelas empresas menores.
Abertura de novas empresas segue em ritmo recorde
Nesse contexto de otimismo, o Brasil bateu recorde de novos CNPJs em 2025, segundo dados oficiais citados pelo presidente do Sebrae, Décio Lima. O ambiente competitivo se intensifica, mas também amplia a rede de fornecedores e clientes potenciais, beneficiando quem se adapta rapidamente às necessidades de mercado.
Pontos de atenção para 2026
Apesar do avanço, desafios permanecem:
– Inflação de insumos específicos, como embalagens e combustíveis;
– Custos trabalhistas e tributários que impactam a margem;
– Exigências regulatórias crescentes ligadas a ESG e proteção de dados.
Monitorar esses vetores ajudará empreendedores a sustentar o ciclo virtuoso inaugurado no primeiro mês do ano.
Por que o índice de 91,4 pontos importa?
Embora abaixo da linha de 100, o resultado marca virada de tendência. Dois aspectos justificam sua relevância:
Base de comparação: após sucessivas quedas na segunda metade de 2025, qualquer retomada sustentada sugere inversão do humor econômico.
Sinal para a política pública: com termômetro em alta, governo e instituições financeiras obtêm dado empírico para calibrar programas de incentivo, evitando injetar liquidez além do necessário ou, ao contrário, restringir antes que a recuperação seja sólida.
Perspectivas para o restante do ano
Se a curva se mantiver ascendente, a Confiança das micro e pequenas empresas poderá ultrapassar a barreira simbólica dos 100 pontos ainda no primeiro semestre, consolidando ambiente de otimismo. A sustentabilidade do movimento dependerá de:
– Continuidade da demanda interna;
– Manutenção, ou possível redução, do custo do crédito de longo prazo;
– Estabilidade cambial que preserve a competitividade industrial.
Conclusão: sinais claros de um novo ciclo
O salto de confiança e a melhora no acesso a recursos financeiros apontam para um início de 2026 marcado por perspectivas favoráveis. Micro e pequenas empresas voltam a se posicionar na linha de frente da atividade econômica, refletindo o dinamismo inerente ao segmento que mais gera empregos e inovação no Brasil.
Com liderança da indústria, entusiasmo do comércio e recuperação gradual dos serviços, o País reúne condições para um ciclo virtuoso capaz de fortalecer a renda, ampliar oportunidades e fomentar o desenvolvimento regional de forma equilibrada. Cabe agora a empreendedores, gestores públicos e instituições financeiras manterem sinergia para transformar expectativas em resultados concretos, sustentando a confiança conquistada no primeiro indicador do ano.
Com informações de Agência Sebrae de Notícias

