O início do ano tem sido marcado pela volatilidade do bitcoin em 2026, fenômeno que coloca à prova tanto a paciência quanto o planejamento dos investidores brasileiros. Depois de um recuo de 13 % em um único dia, a principal criptomoeda do mercado tenta se firmar em uma faixa de preço mais estreita, enquanto analistas avaliam os desdobramentos macroeconômicos e regulatórios.
Este cenário, recheado de dúvidas sobre juros nos Estados Unidos, balanços corporativos no vermelho e novas regras do Banco Central para o setor, oferece lições importantes sobre gestão de risco, perfil de ativo e maturidade do ecossistema cripto no País. A seguir, destrinchamos o contexto, os números e os possíveis caminhos para quem precisa lidar com tamanha volatilidade.
Por que fevereiro começou turbulento para o bitcoin
A primeira quinzena de fevereiro reservou ao investidor de cripto uma montanha-russa digna de 2022, ano que ainda gera calafrios em quem experimentou a derrocada de US$ 69 mil para US$ 16 mil. Em 5 de fevereiro de 2026, o bitcoin despencou 13 %, testando o piso de US$ 63 mil e registrando a maior queda diária desde aquele traumático colapso. O movimento impactou não apenas traders de curto prazo, mas também grandes companhias expostas ao ativo.
Segundo dados da CoinMarketCap, o preço passou a oscilar numa banda de US$ 65 mil a US$ 70 mil nas semanas seguintes, caracterizando fase de consolidação. Essa tentativa de equilíbrio ocorre após liquidações em cascata nos mercados de derivativos, onde posições alavancadas foram forçadas a zeragem conforme o preço rompia suportes técnicos. Derivativos comprimem o tempo de reação: ajustes que historicamente levariam semanas são condensados em horas, aumentando a sensação de pânico e a percepção de risco.
Do colapso de 2022 à correção atual: ecos que ainda assombram
A memória do crash de 2022 segue viva. Naquele ano, o bitcoin perdeu 77 % do valor após alcançar o recorde de US$ 69 mil, mergulhar em escândalos de insolvência entre exchanges e enfrentar o endurecimento de políticas monetárias globais. A aparente repetição de padrões em 2026 aciona gatilhos emocionais, mas há diferenças quantitativas e qualitativas.
Desta vez, a queda encontrou demanda relativamente forte na casa dos US$ 65 mil, refletindo a presença de compradores institucionais que enxergam valor na escassez programada do ativo. Além disso, a exposição corporativa – embora ainda elevado risco – já é contabilizada em balanços segundo regras de impairment, o que traz transparência a acionistas. Por fim, a regulação avança, oferecendo salvaguardas que simplesmente não existiam há quatro anos.
Impacto corporativo: quando o balanço reflete a oscilação
A Strategy, companhia capitaneada por Michael Saylor e considerada a maior detentora corporativa de bitcoin no mundo, é exemplo contundente dos efeitos financeiros dessa volatilidade. No quarto trimestre de 2025 a empresa reportou prejuízo líquido de US$ 12,4 bilhões, provocado por uma perda não realizada de US$ 17,4 bilhões em seus ativos digitais. O número assusta, mas também ilustra o ponto-de-vista de longo prazo da companhia, que adotou o bitcoin como principal ferramenta de preservação de valor contra inflação monetária.
Para o investidor de varejo, esses dados demonstram a relevância de compreender balanços e indicadores financeiros antes de replicar estratégias corporativas. Perdas não realizadas podem extrapolar diversos trimestres, obrigando empresas a justificar a tese de “reserva digital” frente a conselhos, reguladores e acionistas.
Macroeconomia: juros nos EUA e o efeito risk-off
Enquanto empresas contabilizam prejuízos virtuais, o pano de fundo macro segue nublado. A incerteza em torno do início do ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve impacta todo o mercado de ativos de risco. Caso a taxa básica americana permaneça elevada por mais tempo, a liquidez global encolhe. Em um ambiente de risk-off — aversão ao risco — os investidores preferem títulos de renda fixa considerados seguros, relegando criptos ao fim da fila.
Fabrício Tota, vice-presidente de Negócios Cripto do Mercado Bitcoin, resume bem o contexto: “Cripto ainda funciona, em grande parte, como termômetro de apetite a risco. Quando o mundo entra em risk-off, tudo que tem beta alto sofre”. A eventual mudança de comando no Fed, especulação que circulou no início de fevereiro, adicionou lenha nessa fogueira, reforçando o comportamento “vende primeiro, pergunta depois”.
Fatores de sustentação: compras institucionais e escassez digital
Apesar da queda, forças de sustentação impedem um mergulho mais profundo. Dados da SosoValue mostram que, em fevereiro, os ETFs de bitcoin à vista registraram saída líquida de US$ 916 milhões. Parte desse fluxo negativo, no entanto, foi compensada por compras corporativas diretas. Empresas que utilizam o ativo como reserva aproveitaram a queda para expandir posições, reforçando a tese de que o bitcoin é digitalmente escasso — haverá no máximo 21 milhões de unidades.
Esse comportamento antibear evidencia uma transição: o ativo não depende mais exclusivamente do varejo para formar preço. Embora ainda volátil, a base de detentores institucionais dificulta correções prolongadas sem que algum comprador de tamanho relevante assuma a outra ponta. Na prática, a volatilidade do bitcoin em 2026 passa a refletir um jogo de forças mais sofisticado, no qual liquidações rápidas podem ser seguidas de recompras estratégicas.
Regulação brasileira: o que muda para o investidor
No Brasil, a discussão sobre regras para prestadores de serviços de ativos virtuais ganhou corpo com a Lei 14.478, de 2022. Em 2025, o Banco Central publicou as resoluções 1.519, 1.520 e 1.521, determinando requisitos de capital, governança e escopo de atuação para exchanges. Segundo Tota, “cai o argumento de quem dizia esperar a regulação para investir”. O mercado entra, assim, em fase de supervisão formal.
Para o investidor, o principal impacto é a clareza sobre responsabilidades de custódia, segregação de ativos e mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro. Por outro lado, exigências de capital mais altas podem acirrar a competição, favorecendo plataformas maiores e potencialmente reduzindo o número de players locais. A pergunta que resta é: essa barreira favorece a segurança ou diminui a inovação? Especialistas apontam que, embora o filtro pareça duro, ele responde a fraudes recentes no sistema de pagamentos, não a um viés contra cripto.
Stablecoins e tokenização: a convergência em curso
Cerca de 90 % do volume reportado no País encontra-se em stablecoins, segundo levantamento citado na entrevista. Isso não implica que o brasileiro se restringe a operações de paridade cambial. Na prática, parte desse montante decorre de transações de grande porte e pagamentos internacionais. Tota afirma que “o investidor brasileiro é bem mais sofisticado do que um simples usuário de stablecoins”. Bitcoin, Ethereum, Solana e títulos de renda fixa digital ganham espaço em carteiras diversificadas.
Outro vetor de convergência é o projeto de tokenização da B3, que inclui até a criação de uma stablecoin própria. Para o executivo do Mercado Bitcoin, o movimento é bem-vindo, mas “criar uma stablecoin não é detalhe operacional”. Exige governança, liquidez e times especializados. Por isso, modelos colaborativos entre instituições tendem a prevalecer, em vez de cada banco lançar um token fechado. No fim, ganha o usuário que terá à disposição aplicações financeiras sobre infraestrutura blockchain sem nem perceber a tecnologia subjacente.
ETFs versus compra direta: vantagens e limitações
Com a listagem de ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos e no Brasil, muitos investidores se questionam: vale a pena optar por esse veículo? Segundo Fabrício Tota, “para a pessoa física, a compra direta ainda é a melhor alternativa”. As justificativas envolvem liquidez 24/7, possibilidade de autocustódia e menores taxas em algumas exchanges. Em um ETF, o investidor transfere a custódia a terceiros, perde a disponibilidade em fins de semana e feriados e pode se ver preso em horários restritos de negociação.
Isso não significa que ETFs sejam vilões. Eles oferecem simplicidade para quem prefere manter todos os ativos na mesma corretora tradicional, além de facilitar declarações fiscais. A decisão deve considerar perfil de risco, familiaridade tecnológica e horizonte de investimento. O ponto crucial é alinhar expectativas: ETFs não eliminam volatilidade; eles apenas a empacotam em um formato mais palatável ao investidor tradicional.
Perspectivas para o restante de 2026
O futuro a curto e médio prazos depende de variáveis simultâneas. No front macroeconômico, a definição do ritmo de cortes de juros nos EUA será determinante. Caso o Fed sinalize alívio a partir do segundo semestre, ativos de risco podem ensaiar retomada, inclusive o bitcoin. Por outro lado, se a inflação persistir e o banco central prolongar a política restritiva, novas ondas de venda não estão descartadas.
No âmbito regulatório, o aprofundamento da supervisão do Banco Central pode ampliar a confiança do varejo e de investidores institucionais locais. A chegada de players de infraestrutura, como a B3 na tokenização, incrementa o debate sobre padrões de segurança, interoperabilidade e educação financeira. A palavra-chave, nas palavras de Tota, é “convergência”: blockchain passará a atuar nos bastidores de serviços cotidianos, diluindo a fronteira entre finanças tradicionais e cripto.
Para o investidor, o desafio continua o mesmo: entender que a volatilidade do bitcoin em 2026 faz parte da natureza desse ativo escasso e ainda em fase de descoberta de preço. Alocações conscientes, com horizontes de longo prazo e gestão de risco adequada, são mais sustentáveis do que tentativas de capturar cada variação diária.
Conclusão
O ano de 2026 confirma que o bitcoin permanece como um termômetro de apetite a risco e, ao mesmo tempo, como um experimento de política monetária descentralizada. A queda expressiva de fevereiro assustou, mas também ofereceu oportunidade de entrada a investidores convictos na tese de escassez digital. À medida que regulações se consolidam, empresas lidam com perdas contábeis e stablecoins ganham força, reforça-se a noção de que o mercado avança em ciclos de aprendizado.
Seja por meio de ETFs, compra direta ou tokens emitidos por bolsas tradicionais, o investidor brasileiro dispõe de múltiplas portas de entrada. O segredo está em alinhar estratégia, perfil e expectativa. Afinal, conviver com a volatilidade do bitcoin em 2026 não é um infortúnio, mas a própria essência de um ativo ainda jovem que, a cada novo choque de preço, redefine quem fica e quem sai do jogo.
Com informações de E-Investidor


