Por [Seu Nome] – 12/02/2026
A queda do bitcoin e valor de mercado vêm impondo perdas bilionárias a companhias que abraçaram a criptomoeda como reserva financeira. Strategy (MSTR), Méliuz (CASH3) e OranjeBTC (OBTC3) já viram, juntas, cerca de R$ 275 bilhões em capitalização desaparecer desde que o BTC renovou sua máxima histórica em outubro do ano passado.
O cenário atual expõe, de forma contundente, os riscos de atrelar parte relevante do caixa corporativo a um ativo ainda marcado por alta volatilidade e forte correlação com o humor global. Neste artigo, destrinchamos com profundidade o que aconteceu, por que aconteceu e quais reflexos ainda podem ser sentidos por acionistas, gestores e todo o ecossistema cripto–financeiro.
O ponto de virada: do recorde histórico ao sell-off
Em outubro de 2025, o bitcoin superou o pico anterior e alcançou nova cotação recorde. A euforia, que levou diversas empresas a validar suas teses de alocação em BTC, deu lugar a um movimento abrupto de realização de lucros quando os ventos macroeconômicos mudaram de direção.
Entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, a criptomoeda cedeu terreno diante de três forças combinadas:
1. Aversão global a risco. A desaceleração do crescimento em economias centrais reacendeu o temor de recessão. Ativos considerados “não produtivos”, como o BTC, foram os primeiros a sofrer fuga de capital.
2. Escalada geopolítica. Conflitos regionais, sobretudo no Leste Europeu e no Oriente Médio, intensificaram a busca por liquidez imediata e a preferência por portos tidos como mais seguros, a exemplo dos títulos do Tesouro norte-americano.
3. Política monetária restritiva. Bancos centrais mantiveram juros elevados para combater a pressão inflacionária remanescente da pandemia, encarecendo o custo de oportunidade de manter posições em criptoativos.
Com isso, a capitalização total do bitcoin viu-se comprimida e, no rastro dessa correção, apagou R$ 275 bilhões das avaliações de mercado de Strategy, Méliuz e OranjeBTC.
Quem são as empresas impactadas?
Embora pertençam a setores distintos, as três companhias partilham a decisão estratégica de manter bitcoin como parte substancial de sua reserva de valor:
Strategy (MSTR) – Listada na Nasdaq, a companhia abraçou o BTC em 2020 como principal ativo do balanço. A iniciativa, pioneira à época, atraiu holofotes de investidores institucionais.
Méliuz (CASH3) – No Brasil, a empresa de cashback passou a utilizar excedentes de caixa para comprar bitcoin, argumentando que a criptomoeda serviria como proteção contra desvalorização cambial e inflação.
OranjeBTC (OBTC3) – Focada em soluções de pagamentos cripto, a empresa fez do bitcoin parte estruturante de sua tesouraria, reforçando aos acionistas o compromisso com a economia descentralizada.
O recuo do ativo diminuiu não apenas o valor intrínseco dessas posições, mas também esfriou a percepção do mercado sobre a solidez de longo prazo dessas teses de investimento.
Por dentro da decisão: por que adotar o BTC como reserva?
A lógica, em linhas gerais, combina três argumentos:
Proteção contra inflação. Com oferta limitada a 21 milhões de unidades, o BTC é visto por entusiastas como “ouro digital”.
Descorrelação de ativos tradicionais. Até meados de 2021, estudos apontavam correlação relativamente baixa entre bitcoin e S&P 500. Gestores esperavam diversificar riscos.
Marketing institucional. Ser early adopter agrega valor de marca, atrai mídia espontânea e reforça reputação inovadora.
No entanto, a conjuntura de 2025 e 2026 revelou que a correlação volta a crescer em momentos de estresse, reduzindo o poder de diversificação.
Impactos nos balanços corporativos
Contabilizar bitcoin exige revisões periódicas de impairment, isto é, ajustes de valor justo quando o preço de mercado cai abaixo do preço contábil. Esse mecanismo afeta diretamente linhas cruciais dos demonstrativos:
Resultado líquido. Perdas não realizadas podem derrubar o lucro ou até mesmo gerar prejuízo contábil, mesmo que a empresa não venda suas posições.
Índices de alavancagem. A redução patrimonial encurta a margem para emitir dívidas, pois deteriora métricas como dívida líquida/EBITDA.
Distribuição de dividendos. Menor lucro ou prejuízo reduz ou zera a capacidade de remunerar acionistas no curto prazo.
Dessa forma, os R$ 275 bilhões suprimidos do valor de mercado não são, por si sós, uma saída de caixa, mas representam retração real na percepção de riqueza dos stakeholders.
Leitura do investidor: volatilidade versus visão de longo prazo
A adoção corporativa do BTC tem nuances que vão além da simples compra do ativo. Cada empresa cria políticas internas sobre alocação máxima, horizonte temporal e critérios de desfazimento. Para o investidor, três perguntas-chave emergem:
1. Qual porcentual do caixa está em bitcoin? Estruturas de capital mais conservadoras tendem a limitar a exposição a um dígito.
2. Existe hedge natural? Se a companhia obtém receitas em cripto ou presta serviços relacionados, há compensação parcial das oscilações.
3. Qual é a resiliência operacional? Empresas com geração robusta de caixa suportam ciclos de baixa sem precisar liquidar posições em prejuízo.
Ainda assim, o recado de 2026 é claro: volatilidade deve ser integrada ao planejamento financeiro, não ignorada.
A interseção entre macroeconomia e cripto
O preço do bitcoin, embora molde-se pela oferta e demanda nativas, é cada vez mais influenciado por fatores convencionais da economia:
Taxa de juros real. Quando o retorno de títulos públicos supera a inflação com folga, investidores priorizam renda fixa.
Crescimento global. Expansão econômica estimula apetite a risco; retração faz o oposto.
Dólar forte. Valorização do dólar gera pressões de venda em mercados emergentes e em criptoativos cotados em USD.
No ciclo atual, as três variáveis moveram-se contra o BTC, reforçando a correlação com classes de ativos tradicionais, como o Nasdaq-100.
Setor de tecnologia x bitcoin: convergências e divergências
Como Strategy, Méliuz e OranjeBTC atuam em vertentes tecnológicas, muitos analistas argumentam que a exposição ao bitcoin intensifica a já alta volatilidade inerente ao setor. Há, porém, pontos onde cripto e tech divergem:
Escalabilidade. Empresas de software podem crescer receita sem grandes custos marginais; o valor de BTC depende diretamente da expansão da rede e do sentimento de mercado.
Regulação. Companhias listadas obedecem a um arcabouço regulatório estabelecido. O bitcoin, por sua vez, navega em zonas cinzentas que podem mudar subitamente.
Imagem: Daniel Rocha
Essa dicotomia explica por que investidores institucionais tendem a separar alocação em “tech pura” daquele em “cripto tesouraria”.
O que esperar: cenários possíveis para 2026
Modelos de previsão de preços de bitcoin variam amplamente, mas podemos traçar três cenários-guia:
1. Retomada do ciclo de alta. Se os bancos centrais sinalizarem cortes de juros no segundo semestre e as tensões geopolíticas arrefecerem, é plausível imaginar retorno da liquidez a ativos de risco.
2. Lateralização prolongada. Inflação persistente e crescimento anêmico manteriam o BTC em patamar mediano, segurando as empresas em terreno incerto.
3. Nova perna de baixa. Qualquer choque adicional de crédito ou escalada militar relevante pode provocar capitulação, testando suportes abaixo dos vistos em 2024.
Na prática, as tesourarias corporativas vinculadas ao bitcoin precisam preparar-se para qualquer uma das hipóteses, ajustando provisões e políticas de risco.
Estratégias de mitigação adotadas pelas empresas
Mesmo diante das perdas, as três companhias não ficaram paradas. Embora os detalhes específicos não tenham sido divulgados integralmente, a literatura financeira indica caminhos comuns seguidos por corporações alocadas em cripto:
Alocação em stablecoins. Parte do caixa é convertida em moedas estáveis lastreadas em dólar para reduzir volatilidade diária.
Contratos de hedge. Opções ou futuros podem travar preços mínimos, ainda que a liquidez desses derivativos nem sempre seja suficiente para volumes corporativos.
Rebalanceamento periódico. Em ciclos de alta, empresas vendem frações de BTC para realizar lucro e recompram em quedas, reduzindo preço médio.
A adoção dessas medidas depende do apetite a risco e da sofisticação operacional de cada firma, mas todas partilham o objetivo de proteger o balanço sem abdicar da tese de longo prazo.
O papel do investidor de varejo
Para quem detém ações de Strategy, Méliuz ou OranjeBTC, o principal conselho dos analistas é olhar além do preço instantâneo do bitcoin e focar fundamentos:
Fluxo de caixa operacional. A empresa consegue gerar caixa independentemente da cotação da criptomoeda? Quanto disso cobre despesas correntes?
Vantagem competitiva. A adoção do BTC melhora, de fato, o produto ou serviço oferecido? Ou trata-se apenas de uma decisão financeira?
Governança. Há transparência nas políticas de compra e venda de criptoativos? O acionista sabe qual o preço médio de aquisição?
Responder a essas perguntas ajuda a filtrar o ruído da volatilidade e a tomar decisões racionais, em vez de reativas.
Regulação em horizonte: impacto potencial
À medida que mais empresas listadas adotam bitcoin, órgãos reguladores aumentam o escrutínio. Três frentes concentram atenção:
Contabilidade padronizada. Novas normas podem exigir marcação a mercado mais frequente, aumentando a transparência – e a volatilidade dos resultados.
Divulgação obrigatória. Relatórios trimestrais tendem a detalhar exposição, estratégia e riscos, facilitando a análise, mas pressionando a gestão a justificar cada movimento.
Restrição de alocação. Em cenários extremos, reguladores podem limitar porcentuais máximos de caixa em cripto para companhias com perfil de risco elevado.
Embora ainda não haja diretrizes definitivas, a expectativa de regras mais rígidas já influencia decisões de diretoria e de conselho.
Comparativo histórico: aprendizados com outros ciclos
Esta não é a primeira vez que o bitcoin despenca após atingir novos máximos. Em 2014, a moeda perdeu 80 % do valor em poucos meses; em 2018, recuou 84 %. A diferença, agora, é a participação corporativa:
2014: Exposição estava concentrada em entusiastas de varejo.
2018: Fundos de venture capital começam a experimentar, mas ainda timidamente.
2026: Empresas de capital aberto, gestoras e grandes bancos já compõem a base de investidores.
A entrada de novos atores amplifica o efeito-rede, mas também multiplica repercussões quando o movimento é de baixa, como demonstram os R$ 275 bilhões evaporados.
Como fica o Google Discover e a monetização de conteúdo cripto
Para portais de notícias especializados, o interesse repentino em quedas bruscas do bitcoin impulsiona cliques, mas exige abordagem equilibrada para manter credibilidade. Boas práticas incluem:
Títulos informativos. Evitar “clickbait” e fornecer números concretos logo de início.
Conteúdo aprofundado. O algoritmo do Google Discover privilegia matérias que entregam contexto além do óbvio.
Atualização constante. Incorporar novas cotações e declarações de executivos reforça relevância em tempo real.
Ao aliar esses pilares, veículos conseguem converter tráfego em receita via Google Adsense, sem sacrificar a qualidade editorial.
Considerações finais: lições da baixa para o futuro da adoção corporativa
A volatilidade do bitcoin, muitas vezes celebrada em ciclos de alta, transforma-se em desafio concreto quando o ativo recua de forma prolongada. Para Strategy, Méliuz e OranjeBTC, a lição primordial está na necessidade de mecanismos de hedge e comunicação transparente com o mercado.
O investidor, por outro lado, precisa reconhecer que a tese “ouro digital” não elimina risco de curto prazo e que correções de dois dígitos são parte constitutiva desse universo. A adoção corporativa do BTC continuará, mas provavelmente virá acompanhada de políticas de risco mais robustas, limite de exposição e diversificação genuína – fatores essenciais para que nenhum balanço seja refém de um único ativo volátil.
Assim, a queda do bitcoin e valor de mercado que eclipsou R$ 275 bilhões serve como alerta para o equilíbrio entre inovação e prudência financeira, lembrando que, em mercados emergentes como o cripto, navegar é preciso, mas com bússola e colete salva-vidas.
Com informações de E-Investidor/Estadão

