No início desta sexta-feira, o Bitcoin perto de 70 mil dólares voltou ao centro das atenções dos investidores globais após a divulgação de dados de inflação nos Estados Unidos. O movimento, impulsionado pelo índice de preços ao consumidor (CPI) abaixo das expectativas, levou a maior criptomoeda do mercado a valorizar aproximadamente 1,38% em 24 horas, sendo cotada a US$ 68 mil por volta das 12h30 (horário de Brasília).
A proximidade da marca dos US$ 70 mil reacendeu não apenas o debate sobre o fim do ciclo de baixa iniciado semanas atrás, mas também discussões acerca do impacto que um possível afrouxamento monetário do Federal Reserve pode ter sobre ativos considerados de risco elevado, como as criptomoedas.
Contexto macroeconômico: o peso do CPI na estratégia dos investidores
A relação entre política monetária e criptomoedas tornou-se ainda mais visível desde que o Fed sinalizou, em janeiro, a interrupção do ciclo de cortes de juros. Na ocasião, o banco central norte-americano manteve a taxa básica no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano, afastando no curto prazo a chance de novas reduções. Esse posicionamento, naturalmente, elevou a atratividade dos títulos públicos norte-americanos, pressionando ativos mais voláteis como o Bitcoin.
No entanto, o CPI de janeiro surpreendeu o consenso do mercado ao mostrar alta mensal de 0,2% e variação anual de 2,4%, levemente abaixo das projeções de 0,3% e 2,5%, respectivamente. Esse desvio, aparentemente modesto, foi suficiente para mudar expectativas em torno do início de um próximo ciclo de flexibilização monetária, agora cotado pelos analistas para junho.
Na visão de André Franco, CEO da Boost Research, a eventual queda sistemática dos juros tende a aumentar a liquidez global — combustível essencial para a retomada dos criptoativos. “O Bitcoin é um ativo de risco que se beneficia quando o custo de oportunidade para manter liquidez diminui”, resumiu o executivo.
Suporte técnico em US$ 60 mil aponta consolidação
Do ponto de vista gráfico, o comportamento recente do preço corrobora a leitura de um período de consolidação. Dados da CoinMarketCap demonstram que, na última semana, o BTC oscilou entre US$ 65 mil e US$ 70 mil. Para Guilherme Prado, country manager da Bitget no Brasil, o suporte psicológico na faixa de US$ 60 mil é a referência que separa um cenário de consolidação de um possível colapso estrutural mais amplo.
Segundo Prado, “enquanto o suporte na casa dos US$ 60 mil for respeitado, continuaremos no modo de lateralização, porém sensível ao ambiente macroeconômico”. Em outras palavras, a correlação entre política monetária e valor do BTC permanece elevada, tornando divulgações de inflação e decisões do Fed catalisadores diretos de curto prazo.
Quem ganha e quem perde com um BTC valorizado
A recuperação do Bitcoin perto de 70 mil dólares não afeta apenas traders de curto prazo. Companhias listadas em bolsa que possuem BTC em caixa — estratégia iniciada, por exemplo, pela norte-americana MicroStrategy (ticker MSTR) — sentem de forma quase instantânea o impacto dessa oscilação. Nas últimas semanas, a queda de cerca de 50% do BTC desde sua máxima histórica chegou a apagar R$ 275 bilhões em valor de mercado de três empresas com reservas substanciais de criptomoedas.
Em contrapartida, um movimento de alta consistente tende a reforçar balanços corporativos, incentivar novas tesourarias a considerar exposições ao ativo digital e, não menos importante, aumentar receitas de corretoras, gestoras de fundos e plataformas de negociação. Ainda que o BTC continue na zona de consolidação, meros 2% a 3% de variação diária podem representar ganhos expressivos quando alavancagem entra em cena — uma realidade comum em derivativos de criptomoedas.
Por que o corte de juros pode selar o fim do ciclo de baixa
Ao analisar ciclos anteriores, observa-se que períodos prolongados de aperto monetário tendem a limitar a expansão de ativos sem fluxo de caixa físico, como ouro e Bitcoin. Quando o retorno dos títulos soberanos sobe, a atratividade relativa das criptomoedas diminui. No entanto, basta uma inflexão na curva de juros para alterar a dinâmica de demanda.
Se a projeção de cortes a partir de junho se confirmar, o custo de capital cai. Investidores institucionais, muitas vezes impedidos por compliance de buscar renda variável durante fases de aperto, voltam a alocar parcela de portfólio em ativos diversificados de maior risco. Historicamente, o Bitcoin é um dos primeiros candidatos a se beneficiar desse redeployment de liquidez, graças à sua cotação 24/7 e facilidade de acesso global.
O que falta para o BTC romper os US$ 70 mil de vez?
Embora esteja tecnicamente próximo do patamar simbólico, alguns fatores ainda limitam o rompimento definitivo:
1. Ambiguidade regulatória: discussões em torno de stablecoins, exchanges centralizadas e fundos de índice (ETFs) nos Estados Unidos seguem sem consenso. Qualquer sinal de endurecimento pode frear compras.
2. Realocação de portfólios de curto prazo: gestores que reduziram exposição durante a correção recente podem exigir confirmações adicionais — como duas ou três semanas de candles semanais acima de resistências importantes — antes de aumentarem posições.
3. Agenda de indicadores: a temporada de balanços corporativos norte-americanos, dados de emprego (Payroll) e novas leituras de inflação permanecem no radar. Surpresas negativas podem devolver parte dos ganhos recentes.
Diferença entre consolidação e bull market
Neste momento, o Bitcoin perto de 70 mil dólares pode sugerir, para o investidor menos atento, a retomada de um ciclo de valorização acelerada. Contudo, analistas alertam que consolidação não é sinônimo de tendência de alta. Consolidar significa que compradores e vendedores encontram temporariamente equilíbrio, sem força suficiente para levar o preço a novas máximas nem a mínimas inferiores ao suporte.
O rompimento sustentado de US$ 70 mil — seguido de volume crescente — seria, portanto, o próximo passo técnico para confirmar um bull market. Igualmente importante é a manutenção do suporte em US$ 60 mil, cujo rompimento poderia reabrir espaço para quedas mais agressivas.
Imagem: Daniel Rocha
Lições recentes: volatilidade do ouro supera a do BTC
Nesse ambiente de incertezas, um relatório citado pelo Mercado Bitcoin — com base em dados do JPMorgan — chamou atenção ao apontar que, nos últimos dias, a volatilidade do ouro superou a do Bitcoin. O metal chegou a oscilar até 40%, com preços entre US$ 4 000 e US$ 5 600 por onça antes de recuar a US$ 4 400 em três dias.
Esse cenário embaralha a tese de que o ouro seria “porto seguro” estático em comparação às criptomoedas, reforçando que, em tempos de reprecificação global de ativos, inclusive reservas de valor tradicionais podem registrar amplitudes de movimento equivalentes ou superiores às de criptoativos.
Impactos para o investidor brasileiro
Para quem está no Brasil, acompanhar a narrativa de juros norte-americanos é obrigatório: parte significativa do fluxo que chega às exchanges locais é reflexo direto das decisões do Fed. Quando o dólar ganha força, o BTC em reais pode valorizar mesmo que o par BTC/USD fique estável, graças à depreciação cambial. Já quando o real se fortalece, a cotação em reais tende a amenizar ganhos ou ampliar perdas.
O investidor pessoa física, especialmente aquele que utiliza corretoras nacionais, deve observar:
– Custos de intermediação: spreads podem ficar menores em períodos de alta volatilidade, mas taxas de saque podem subir.
– Estratégias de preço médio: aportes regulares (método DCA) permitem reduzir o impacto de oscilações bruscas.
– Diversificação: manter parcela do portfólio em renda fixa pós-fixada protege contra variações bruscas do câmbio e da própria criptomoeda.
Possíveis cenários para os próximos meses
Cenário otimista: o CPI continua desacelerando, o Fed inicia cortes em junho e indicadores de emprego não aquecem excessivamente. Nesse quadro, o Bitcoin rompe US$ 70 mil, busca novas máximas e atrai capital institucional.
Cenário base: a inflação oscila, mas dentro de margens controladas; o Fed mantém discurso “data-dependent”, adiando cortes para o segundo semestre. O BTC segue lateralizado entre US$ 60 mil e US$ 70 mil, com volatilidade moderada.
Cenário pessimista: leituras de inflação voltam a surpreender para cima, postergando cortes. O suporte de US$ 60 mil é perdido e o mercado revisita mínimas anteriores, reabrindo a tese de colapso estrutural.
Conclusão: entre paciência e estratégia
O atual rali que levou o Bitcoin perto de 70 mil dólares é, antes de tudo, reflexo de dados macro favoráveis. Entretanto, consolidar-se acima desse patamar exigirá confirmação em múltiplos frontes: política monetária, fluxo de capitais e amadurecimento do próprio ecossistema cripto.
Aos investidores, a recomendação que se impõe é a de manter disciplina e clareza de horizonte. Mais do que buscar ganhos rápidos, entender a mecânica entre inflação, juros e liquidez global pode ser o diferencial que separa decisões bem-sucedidas de aventuras de curto prazo.
Por ora, o ciclo de baixa parece, de fato, perder fôlego; mas somente o tempo dirá se assistiríamos ao nascimento de uma nova pernada de alta ou se, como em outras ocasiões, o mercado apenas respira antes de retomar a correção.
Com informações de E-Investidor


