Bitcoin aponta fim do ciclo de baixa com CPI dos EUA em 0,2%
O sinal de que o Bitcoin aponta fim do ciclo de baixa ganhou força nesta sexta-feira (13) depois da divulgação do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) nos Estados Unidos, que subiu apenas 0,2% em janeiro e reacendeu as apostas de cortes de juros ainda no primeiro semestre. Com isso, a maior criptomoeda do mundo voltou a ser negociada na região de US$ 68 mil, aproximando-se novamente da marca simbólica de US$ 70 mil.
Embora o ativo digital ainda se movimente dentro de uma faixa de consolidação entre US$ 65 mil e US$ 70 mil, analistas veem o respeito ao suporte de US$ 60 mil como indício de esgotamento da pressão vendedora. O debate agora gira em torno de quando — e não mais se — o banco central norte-americano retomará o ciclo de afrouxamento monetário.
Contexto: o que mudou desde o último encontro do Fed
Em janeiro, o Federal Reserve (Fed) manteve a taxa básica de juros no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano. A decisão frustrou investidores que aguardavam pistas mais claras sobre o início dos cortes, mas não foi suficiente para provocar um colapso estrutural no preço do bitcoin. Segundo Guilherme Prado, country manager da Bitget no Brasil, a criptomoeda passou a maior parte das semanas seguintes oscilando entre US$ 65 mil e US$ 70 mil, consolidando um piso técnico em torno de US$ 60 mil.
A leitura do CPI de janeiro, divulgada nesta sexta-feira, trouxe um alívio inesperado. O Departamento do Trabalho dos EUA informou avanço de 0,2% na comparação mensal e 2,4% em 12 meses, ambos abaixo do consenso de mercado (0,3% e 2,5%, respectivamente). Na prática, o dado reforça a percepção de que a inflação segue arrefecendo, mesmo diante de juros elevados, o que pode abrir espaço para cortes a partir de junho, conforme projetam economistas consultados pelo Projeções Broadcast.
Por que o dado de inflação impacta diretamente o bitcoin
O bitcoin pertence à classe de ativos considerados mais arriscados que títulos soberanos e ações defensivas. Em períodos de liquidez restrita — quando os juros estão altos —, investidores tendem a exigir retornos maiores para manter posição em ativos voláteis. Ao sinal de que o aperto monetário está próximo do fim, o fluxo costuma migrar novamente para papéis de maior risco, favorecendo criptomoedas.
André Franco, CEO da Boost Research, explica que “o bitcoin é um ativo de risco que se beneficia do aumento de liquidez; com juros mais baixos, a liquidez do mercado sobe”. A inflação mais baixa, portanto, reduz a necessidade de juros elevados por muito tempo e impulsiona a tese de valorização de ativos digitais.
Consolidação entre US$ 65 mil e US$ 70 mil: o que indica o gráfico
No intervalo de sete dias que antecederam a divulgação do CPI, dados da CoinMarketCap mostram o bitcoin movendo-se em um canal estreito, com mínima de US$ 65 mil e máxima próxima de US$ 70 mil. O padrão, segundo Prado, é típico de um período de digestão do mercado após correções bruscas. “Enquanto o suporte na casa dos US$ 60 mil for respeitado, o cenário deixa de ser o de colapso estrutural e passa a ser o de consolidação”, afirma o executivo.
Em análise técnica, a consolidação sugere que compradores e vendedores estão em equilíbrio temporário. A proximidade de um gatilho macroeconômico — neste caso, os cortes de juros — tende a desequilibrar a balança em favor de um dos lados. Se o volume comprador superar a resistência de US$ 70 mil, o rally pode se estender até novas máximas históricas. Em sentido oposto, a perda consistente do suporte de US$ 60 mil retomaria o viés de baixa.
Juros nos EUA: quando devem começar a cair?
A curva de juros futura precifica, no momento, início de afrouxamento monetário em junho, com dois a três cortes de 0,25 ponto percentual até o fim do ano. Essa leitura contrasta com a postura cautelosa do Fed em janeiro, quando seus dirigentes enfatizaram a necessidade de mais evidências de queda sustentada da inflação. O CPI de 0,2% mensal reforça tais evidências, embora não garanta, por si só, mudanças imediatas na política monetária.
Para o bitcoin, o cronograma de cortes é mais relevante do que a magnitude inicial. Cada sinalização de que o processo pode começar antes do previsto ou ser mais agressivo que o esperado tende a impulsionar a criptomoeda. Por outro lado, leituras de inflação acima das estimativas ou declarações hawkish dos dirigentes do Fed podem ampliar a volatilidade negativa.
Entenda o suporte psicológico dos US$ 60 mil
A cotação de US$ 60 mil ganhou fama desde o ciclo de alta de 2025, quando a criptomoeda quebrou sucessivas máximas e testou, pela primeira vez, a zona dos US$ 70 mil. O nível também representou, no passado, o ponto de equilíbrio de várias mineradoras que ajustaram equipamentos e despesas operacionais para sobreviver neste patamar. Essa confluência de interesses cria um “piso” no curto prazo, onde compradores institucionais e mineradores demonstram maior apetite.
A força desse suporte é monitorada de perto. Se mantido, ajuda a consolidar o sentimento de que o mercado já precificou boa parte das incertezas macroeconômicas. Caso seja rompido, sinalizaria que a liquidez apertada ainda não terminou de afetar ativos de risco.
O papel dos ETFs de bitcoin spot
Outro elemento a sustentar a hipótese de que o Bitcoin aponta fim do ciclo de baixa é o fluxo observado nos ETFs de bitcoin spot aprovados pela Securities and Exchange Commission (SEC) em 2025. Apesar de períodos pontuais de resgates líquidos, o saldo anual permanece positivo, indicando entrada constante de capital institucional. Esse movimento não apenas sustenta preços como fortalece a narrativa de adoção mainstream do ativo.
Embora o artigo se concentre nos dados de preço e de inflação divulgados em 13 de fevereiro de 2026, é impossível ignorar que a profundidade do mercado aumentou significativamente desde que os ETFs passaram a negociar. Cada incremento de liquidez facilita operações de grande volume sem distorcer a cotação, diminuindo riscos de manipulação e ampliando a atratividade para investidores profissionais.
Comparação com ciclos anteriores: lições de 2018, 2020 e 2022
A história do bitcoin é marcada por grandes altas seguidas de longos períodos de correção. Na queda de 2018, por exemplo, o ativo retraiu quase 80% após o pico de dezembro de 2017. Já entre 2020 e 2021, a disparada que levou o preço a novas máximas históricas coincidiu com estímulos monetários sem precedentes e juros próximos de zero em economias desenvolvidas.
Em 2022, o endurecimento do Fed e a fuga de liquidez global derrubaram novamente o bitcoin, que perdeu mais da metade do valor antes de encontrar suporte. A dinâmica atual, marcada por inflação em desaceleração e expectativa de cortes graduais, lembra o início de 2020, embora em ambiente de juros ainda relativamente altos. Se a trajetória de afrouxamento se confirmar, o ciclo de baixa deve dar lugar a uma nova fase de acumulação — possivelmente menos explosiva que a de 2021, mas ainda assim positiva.
Imagem: Daniel Rocha
A visão dos especialistas citados
Guilherme Prado, da Bitget, ressalta que “o mercado ainda é muito sensível ao ambiente macroeconômico e ao fluxo de investidores”. Dessa forma, cada leitura de indicador ou pronunciamento de autoridade monetária pode produzir oscilações relevantes. O executivo acrescenta que, enquanto o preço permanecer acima de US$ 60 mil e abaixo de US$ 70 mil, prevalecerá o cenário de consolidação.
Já André Franco, da Boost Research, enfatiza que o bitcoin é hoje percebido como ativo de risco, mas com características singulares: oferta limitada, liquidez global e independência de políticas governamentais. Esse tripé o torna potencial beneficiário direto de períodos de juros em queda. “Se houver um corte de forma sistemática, é provável que o bitcoin pare definitivamente de cair”, afirma.
Implicações para investidores brasileiros
Com a taxa Selic acima de 9% ao ano, o mercado local oferece rentabilidade real competitiva em renda fixa. Ainda assim, a crescente distribuição de ETFs de bitcoin na B3 — além de fundos multimercado com exposição cripto — facilita o acesso de investidores domésticos ao ativo. Para quem mira diversificação, a atual consolidação global, combinada a taxa real atrativa no Brasil, cria janela de oportunidade para compras graduais.
Especialistas recomendam cautela e alocação compatível com o perfil de risco de cada investidor, uma vez que a volatilidade do bitcoin supera a de ativos tradicionais. Mesmo assim, a perspectiva de afrouxamento monetário nos EUA e o eventual fortalecimento do dólar podem compensar parte da oscilação cambial e beneficiar a exposição em cripto para brasileiros.
Impacto do CPI em outros mercados correlacionados
Embora o foco recaia sobre o bitcoin, o dado de inflação abaixo do esperado provocou reação generalizada: índices de ações norte-americanos operaram em alta intradiária, os rendimentos dos Treasuries recuaram e o ouro se manteve estável. A correlação temporal entre bitcoin e Nasdaq, observada nos últimos anos, voltou a se intensificar, mas o ativo digital apresenta beta superior, movendo-se com amplitude maior que o mercado acionário.
O alívio no rendimento dos títulos de dez anos reforça a tese de que o custo de oportunidade de manter posições em cripto tende a cair. Consequentemente, investidores institucionais começam a recalibrar modelos de portfólio que antes excluíam ativos digitais, o que pode induzir novos fluxos de entrada.
Riscos que ainda merecem atenção
Mesmo que o Bitcoin aponta fim do ciclo de baixa, algumas variáveis continuam no radar:
1. Ritmo da inflação: leituras acima da expectativa podem adiar cortes de juros.
2. Regulação: discussões sobre supervisão de stablecoins e exchanges seguem avançando nos EUA e na Europa.
3. Geopolítica: tensões em grandes potências podem afetar liquidez global e percepção de risco.
4. Sentimento de mercado: movimentos especulativos ainda dominam parte do volume negociado.
Esses fatores não anulam a tese de valorização, mas reforçam a necessidade de gerenciamento de risco adequado, especialmente para quem entra em momentos de preços próximos de máximas históricas.
Conclusão: a encruzilhada do bitcoin em 2026
A divulgação de um CPI bem-vindo abre espaço para o Fed iniciar, possivelmente em junho, um novo ciclo de cortes. Para o bitcoin, esse evento pode marcar a passagem definitiva de um período de correções para uma fase de valorização sustentada. O suporte técnico em US$ 60 mil permanece como referência de curto prazo, enquanto a quebra dos US$ 70 mil representaria gatilho para retomada de alta.
Investidores atentos ao contexto macroeconômico, à postura do Fed e ao fluxo nos ETFs de bitcoin spot encontrarão sinais adicionais que confirmem (ou refutem) a narrativa de que o Bitcoin aponta fim do ciclo de baixa. Até lá, a consolidação visível no gráfico serve como lembrete de que, mesmo em um dos mercados mais voláteis do mundo, períodos de calma podem antecipar grandes movimentos.
Para quem considera exposição, a estratégia de aportes escalonados continua indicada, mitigando riscos de entrar em topo local. Caso o cenário de cortes se materialize e a liquidez global aumente, os níveis atuais podem ser lembrados como ponto de inflexão de um ciclo que começou a perder força exatamente quando a inflação deu novo sinal de arrefecimento.
O relógio agora está nas mãos do Federal Reserve. Enquanto ele não se move, o bitcoin se equilibra em torno de US$ 68 mil, lembrando ao mercado que a narrativa de escassez digital permanece tão relevante quanto a velha lei da oferta e da procura. Em outras palavras, a combinação de inflação controlada e juros cadentes pode finalmente selar o destino de um ciclo de baixa que já dura meses.
Com informações de E-Investidor/Estadão


