O polo catarinense impulsiona moda ao unir conhecimento, tradição industrial e políticas de fomento que beneficiam milhares de pequenos negócios da cadeia têxtil e calçadista brasileira. Em Tijucas e São João Batista, o Sebrae mostrou, na prática, como esse ecossistema colaborativo está elevando a competitividade do setor.
Durante agenda técnica na Grande Florianópolis, representantes do Sebrae Nacional e do Sebrae/SC percorreram indústrias, ouviram empreendedores locais e reforçaram o compromisso de difundir o modelo catarinense para as 27 unidades da federação. A seguir, apresentamos em detalhes os bastidores dessa visita, as iniciativas em curso e o impacto do polo sobre a economia criativa do país.
Panorama da moda em Santa Catarina
Santa Catarina ocupa posição de destaque na moda brasileira. Segundo dados consolidados pelo Sebrae/SC, o estado abriga mais de 95 mil empresas ativas ligadas ao setor, respondendo por cerca de 22% da produção nacional de vestuário. Boa parte desse contingente é formada por micro e pequenas empresas, que se dividem em confecção, jeanswear, moda praia, moda infantil, calçados e acessórios.
Esse desempenho reflete uma tradição têxtil iniciada ainda no século XIX, quando imigrantes europeus trouxeram técnicas de fiação e tecelagem que acabariam moldando a vocação industrial de cidades como Brusque, Blumenau e Jaraguá do Sul. Nos anos 1980, a diversificação ganhou força com o surgimento de polos de calçados em São João Batista e de beachwear no litoral norte. Hoje, o estado concentra players de todos os portes, do artesanato autoral às grandes marcas exportadoras.
Ao longo desse processo, a região de Tijucas e São João Batista consolidou enorme expertise em calçados femininos, bolsas e acessórios em couro. Ao redor das fábricas, prosperaram pequenos ateliês, fornecedores de componentes, serviços de design e logística, formando clusters que geram emprego, renda e inovação de maneira descentralizada.
O nascimento do Polo de Referência Sebrae Moda
Para organizar, ampliar e compartilhar esse conhecimento, o Sebrae/SC lançou, em setembro de 2022, o Polo de Referência e Disseminação Sebrae no Tema de Moda. A iniciativa nasceu com três objetivos centrais:
1) Mapear vocações territoriais — identificar nichos de excelência espalhados pelo estado (como o calçado em couro de São João Batista ou o beachwear de Itajaí) e entender suas necessidades específicas.
2) Desenvolver soluções customizadas — criar programas de capacitação, consultorias e eventos técnicos voltados a cada elo da cadeia, do design à comercialização.
3) Disseminar boas práticas — compartilhar cases de sucesso com outras unidades federativas, para que o modelo catarinense sirva de inspiração a outros polos brasileiros.
Na prática, o polo funciona como hub de inteligência setorial: promove estudos de mercado, organiza missões técnicas, conecta instituições de ensino, empresas, startups e poder público. Tudo isso com foco na perenidade dos pequenos negócios, que costumam enfrentar gargalos de gestão, inovação e acesso a mercados.
A agenda técnica em Tijucas e São João Batista
Na sexta-feira, 13 de outubro, o presidente do Sebrae Nacional, Décio Lima, desembarcou na Grande Florianópolis para acompanhar de perto algumas dessas ações. A programação começou com recepção na Associação Comercial e Industrial de Tijucas (ACIT), onde participaram:
• Gisele de Azevedo, presidente da CDL local;
• Alexsandro Bastos, presidente da ACIT;
• Elson Otto, presidente da Facisc, representando o Conselho Deliberativo do Sebrae/SC;
• Roberto Tavares, gerente de competitividade do Sebrae/SC, representando o diretor técnico Fabio Zanuzzi;
• Décio Lima, presidente do Sebrae Nacional.
Ao abrir o encontro, Roberto Tavares relembrou a longa trajetória de apoio ao segmento. “Santa Catarina tem uma diversidade de polos produtivos que fortalecem o setor em todo o estado”, afirmou, frisando que o conhecimento gerado localmente pode alavancar pequenas marcas de norte a sul do Brasil.
Em seguida, a gestora Luana Feitosa detalhou o histórico do polo e salientou a construção colaborativa das ações, sempre considerando as particularidades de cada território. Segundo ela, “o Polo de Referência Sebrae Moda é resultado de cocriação com as empresas, pensado para gerar resultados mensuráveis tanto para Santa Catarina quanto para todo o Sistema Sebrae”.
Décio Lima reforçou a importância estratégica do programa: “O Sebrae é, acima de tudo, uma porta de sonhos para quem empreende. Nosso papel é criar oportunidades para que esses empresários cresçam e transformem suas realidades”, disse, lembrando que micro e pequenos negócios representam 99% das empresas brasileiras e empregam mais da metade da mão de obra formal.
Case Martisse: artesanato que vira negócio escalável
Um dos momentos mais aguardados da manhã foi a apresentação do case Martisse, conduzida pela empreendedora Márcia Campetti. A marca, especializada em acessórios artesanais, ilustra como a combinação de criatividade, capacitação e suporte institucional pode gerar valor agregado mesmo em empresas de microporte.
Márcia relatou que começou produzindo semijoias em casa, num ateliê improvisado. Depois de participar de oficinas do Sebrae sobre design, branding e planejamento financeiro, estruturou processos, reformulou a identidade visual e passou a vender para multimarcas fora do estado. Hoje, a Martisse emprega cinco pessoas diretamente e terceiriza parte da produção com artesãos parceiros, mantendo forte compromisso com a sustentabilidade no uso de insumos naturais.
Para os participantes do evento, o depoimento evidenciou o poder do polo catarinense impulsiona moda em transformar talentos individuais em empreendimentos rentáveis, com impactos socioeconômicos palpáveis.
Visita à indústria Mariza Dias: tecnologia e tradição lado a lado
No período da tarde, a comitiva se deslocou a São João Batista para visitar a fábrica da Mariza Dias, referência na produção de calçados e acessórios em couro. Fundada há mais de três décadas, a empresa equilibra técnicas artesanais, como o trabalho manual no acabamento de bolsas, com tecnologias de ponta, entre elas corte a laser e softwares de modelagem 3D.
Durante a visitação, os executivos percorreram o chão de fábrica, observaram máquinas de costura computadorizadas, dialogaram com operadores e conferiram o laboratório de pesquisa de tendências. O objetivo foi mostrar como a inovação pode conviver com a herança local de marcenarias, curtumes e selarias, típicas da cultura do couro na região.
Segundo a direção da Mariza Dias, o apoio do Sebrae em consultorias de gestão da produção, design thinking e acesso a feiras internacionais contribuiu para abrir mercados na América Latina e na Europa, elevando o faturamento anual em 15% mesmo durante períodos de instabilidade econômica.
Como o Sebrae difunde o modelo catarinense pelo Brasil
Entre as estratégias elencadas pela equipe técnica para replicar o know-how catarinense em outras unidades federativas, destacam-se:
Programas de imersão
Empresários de todo o país são convidados a participarem de circuitos de visitas a indústrias, laboratórios de design e centros de formação profissional em Santa Catarina. A ideia é vivenciar boas práticas e adaptá-las conforme a realidade local.
Biblioteca de conhecimento
O Polo de Referência Sebrae Moda mantém repositório digital com pesquisas sobre comportamento de consumo, materiais sustentáveis, tendências de passarela, legislação e compilação de cases regionais.
Mentorias remotas
Consultores catarinenses prestam atendimento online a empreendedores de outros estados, auxiliando na elaboração de coleções, precificação, gestão de estoques e estratégias de marketing digital.
Intercâmbio entre designers
Estudantes e profissionais de moda são estimulados a trocar experiências por meio de residências criativas, hackathons e desafios de inovação aberta, promovidos em parceria com universidades.
Essas ações reforçam o compromisso de que o polo catarinense impulsiona moda não apenas internamente, mas também como motor de desenvolvimento para a indústria nacional.
Imagem: Redação
Impactos econômicos e sociais do polo
Os benefícios do programa extrapolam o universo estritamente empresarial. Entre os resultados mais relevantes estão:
Geração de emprego qualificado
Estimativas do Sebrae/SC indicam que, somente na região de Tijucas e São João Batista, mais de 20 mil postos formais de trabalho estão ligados à produção de calçados e artigos de couro. Cursos de capacitação ofertados pelo polo elevam a empregabilidade de jovens e mulheres, historicamente maioria no setor de costura e montagem.
Formalização de microempreendedores
Com orientações sobre enquadramento como MEI, tributação e emissão de notas fiscais, centenas de trabalhadores autônomos migraram para a economia formal, garantindo direitos previdenciários e maior acesso a crédito.
Melhoria de renda na base da pirâmide
Ao elevar o valor percebido de produtos artesanais, como jóias em palha ou sandálias tramadas manualmente, o polo permite que famílias tradicionais de artesãos multipliquem a renda mensal.
Fortalecimento da identidade cultural
O resgate de técnicas locais, como bordados típicos do Vale do Itajaí ou o uso de fibras naturais de restinga, reforça a autenticidade das coleções, preservando patrimônio imaterial e atraindo consumidores ávidos por narrativas genuínas.
Desafios que ainda precisam ser enfrentados
Apesar dos avanços, gestores e empresários reconhecem alguns gargalos a resolver:
Escassez de mão de obra especializada
Com a transformação digital, cresce a demanda por profissionais que dominem softwares de modelagem 3D e automação industrial. Programas de qualificação precisam acompanhar essa velocidade.
Internacionalização consistente
Embora marcas catarinenses já exportem, a fatia ainda é tímida diante do potencial. Barreiras tarifárias, adaptações de grade de tamanhos e certificações ambientais são desafios frequentes.
Financiamento para inovação
Micro e pequenas empresas encontram dificuldades para acessar crédito de longo prazo destinado à compra de máquinas de alta tecnologia ou à implantação de processos circulares, como reaproveitamento de retalhos.
Gestão sustentável de resíduos
A indústria da moda é apontada como uma das mais poluentes. O polo busca incentivar soluções de logística reversa, mas ainda há longo caminho para reduzir descarte de plásticos e tecido sintético.
Por que o case é exemplo para o país
Especialistas em economia criativa apontam quatro fatores que fazem do polo catarinense impulsiona moda um benchmark nacional:
Ecossistema equilibrado
Grandes fabricantes, microempresas, entidades de classe, instituições de pesquisa e governo local atuam de forma integrada, evitando sobreposição de iniciativas.
Foco regional com visão global
As ações partem das vocações do território, mas contemplam tendências internacionais, como sustentabilidade e digitalização.
Políticas públicas articuladas
Programas de incentivos fiscais, incubadoras e linhas de crédito complementam o suporte do Sebrae, criando ambiente favorável ao empreendedor.
Medição de resultados
Metas de aumento de faturamento, geração de vagas e expansão de mercados são acompanhadas periodicamente, garantindo aperfeiçoamento contínuo.
Perspectivas para os próximos anos
Os coordenadores do Polo de Referência antecipam algumas frentes que devem ganhar protagonismo até 2025:
Moda circular
Implantação de hubs de reciclagem têxtil, upcycling de couro e certificações de cadeia limpa devem receber novos investimentos.
Indústria 4.0 acessível
Parcerias com fabricantes de máquinas prometem linhas de crédito subsidiadas e treinamentos para digitalizar ateliês de microporte.
E-commerce com logística inteligente
Soluções de roteirização e centros de distribuição compartilhados reduzirão prazos de entrega, permitindo que marcas catarinenses disputem o mercado nacional via marketplace.
Integração acadêmica
Universidades estaduais e institutos federais ampliarão programas de estágio e P&D voltados à nanotecnologia têxtil e ao design sustentável.
Como empreendedores de outros estados podem participar
O Sebrae disponibiliza canais para que empresários interessados participem do hub catarinense:
• Plataforma Sebrae Moda: acesso gratuito a relatórios de tendências, vídeos e calendários de capacitações.
• Sebrae Conecta: ferramenta que cruza demandas de empresas de todo o Brasil com consultores credenciados no polo.
• Missões técnicas: periodicamente, grupos são formados para roteiros de imersão que incluem visitas a Polo de Tijucas, Brusque, Jaraguá e Vale do Itajaí.
• Programas locais: cada estado pode contatar a unidade Sebrae regional para solicitar oficinas ou consultorias alinhadas ao modelo catarinense.
Conclusão
A visita do presidente Décio Lima ao polo reforça a relevância estratégica de Santa Catarina no esforço nacional de transformar a moda em vetor de desenvolvimento econômico inclusivo. O polo catarinense impulsiona moda ao gerar conhecimento, fomentar capacitações e criar pontes que fortalecem pequenos negócios em toda a cadeia produtiva.
Num momento em que o consumidor valoriza propósito, sustentabilidade e originalidade, investir em ecossistemas colaborativos como o catarinense é essencial para posicionar a moda brasileira com diferenciação no cenário global. Se depender do dinamismo observado em Tijucas e São João Batista, o país tem condições de costurar um futuro no qual criatividade, tecnologia e inclusão se entrelaçam em benefício de milhões de empreendedores.
Com informações de Agência Sebrae de Notícias

