Café Chapada de Minas IG reconhecida impulsiona valor regional

O Café Chapada de Minas IG reconhecida acaba de entrar para o seleto rol de cafés brasileiros que carregam um selo oficial de procedência. A chancela, concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) na modalidade Indicação de Procedência (IP), coloca 22 municípios do nordeste mineiro no mapa mundial dos produtos de origem controlada e abre novas perspectivas econômicas e sociais para milhares de pequenos produtores.

Mais do que um reconhecimento formal, a certificação coroa anos de organização coletiva, assistência técnica e construção de marca territorial, apoiados decisivamente pelo Sebrae e encabeçados pelo Instituto do Café da Chapada de Minas (ICCM). As quatro letras “IG” agora estampadas nas sacas sintetizam características naturais e humanas únicas, confirmam reputação e, sobretudo, reposicionam a região diante do mercado interno e dos compradores internacionais.

O que representa uma Indicação Geográfica

A Indicação Geográfica (IG) é um instrumento legal que sinaliza ao consumidor a origem específica de um produto cujas qualidades, reputação ou características são essencialmente vinculadas ao local em que é produzido. No Brasil, ela se divide em duas modalidades: Indicação de Procedência (IP) e Denominação de Origem (DO). Enquanto a IP atesta que determinada região se notabilizou por produzir ou extrair um artigo diferenciado, a DO exige, além desse reconhecimento, a comprovação de que atributos como sabor, aroma ou textura derivam diretamente dos fatores naturais e dos saberes tradicionais do território.

O Café Chapada de Minas IG reconhecida recebeu o registro de IP, o que significa que as 22 cidades delimitadas apresentam histórico de produção e reputação consolidadas. Isso respalda ações de marketing, favorece a formalização de parcerias comerciais e garante a preservação da identidade regional contra usos indevidos do nome.

A área delimitada: 22 municípios em sintonia

O território cafeeiro protegido pelo novo selo abrange municípios como Água Boa, Angelândia, Capelinha, Carbonita, Diamantina, Minas Novas, Novo Cruzeiro e Turmalina, entre outros. Situados no nordeste de Minas Gerais, esses municípios compartilham características de relevo que lembram chapadas, altitudes que variam de 800 a 1.200 metros e solos predominantemente argilosos, condição que confere ao grão atributos sensoriais específicos.

Embora a IG não altere as fronteiras administrativas dessas cidades, ela desenha um contorno imaginário que passa a ser gerido coletivamente. As regras internas — chamadas de Regulamento de Uso — definem critérios agronômicos, boas práticas de beneficiamento e padrões mínimos de qualidade que os cafeicultores deverão cumprir para estamparem o selo em suas embalagens.

Como o Sebrae e o ICCM articularam a conquista

Desde 2019 o Sebrae vem conduzindo oficinas, missões técnicas, análises de amostras e capacitações em gestão para produtores da Chapada de Minas. O Instituto do Café da Chapada de Minas, por sua vez, assumiu o papel de entidade gestora da IG, compilando estudos de solo, clima e cultura, além de registros históricos de comercialização que comprovaram a notoriedade regional.

Carmen Lydia Meirelles, presidente do ICCM há oito anos, resume o sentimento coletivo: “Levamos amostras à Semana Internacional do Café para provar onde a Chapada estava inserida. Hoje vemos um mundo novo se abrir, com olhar diferente do mercado para a qualidade.” A parceria público–privada reduziu custos de laudos laboratoriais, acelerou a preparação da documentação exigida pelo INPI e, principalmente, reforçou a autoconfiança dos pequenos produtores.

Impactos econômicos projetados

A literatura especializada demonstra que produtos com IG costumam alcançar valores entre 20% e 50% superiores aos de origem não certificada. Embora não exista garantia automática de preços melhores, o Café Chapada de Minas IG reconhecida tende a obter margens mais altas por unir narrativa de origem, qualidade sensorial e práticas sustentáveis, atributos cada vez mais valorizados por torrefadores, cafeterias especiais e consumidores finais.

Adicionalmente, a certificação cria oportunidades em segmentos correlatos, como turismo rural, gastronomia regional e venda de subprodutos (cascas, farinhas, cafés fermentados). Hotéis fazenda e roteiros de experiência na colheita podem explorar a chancela para atrair visitantes, aumentando o giro econômico local.

Relevância para a agricultura familiar

Segundo o Sebrae, o Brasil contabiliza cerca de 300 mil propriedades cafeeiras, das quais aproximadamente 70% pertencem a agricultores familiares. Ao atuar em mais de 40 territórios produtores e atender diretamente 5,8 mil cafeicultores, a instituição reforça políticas de inclusão produtiva e profissionalização.

Na Chapada de Minas, a maioria das lavouras não ultrapassa 20 hectares. A IG chega, portanto, como elemento de coesão: padroniza práticas de manejo, facilita acesso a crédito rural diferenciado e aumenta o poder de barganha em negociações com grandes torrefações. Além disso, a rastreabilidade exigida pelo selo induz à formalização, fator que eleva a transparência perante compradores internacionais preocupados com critérios socioambientais.

Panorama das IGs do café no Brasil

Com a entrada da Chapada de Minas, o país soma agora 22 Indicações Geográficas de café. Os demais selos se distribuem por regiões já consagradas, como Cerrado Mineiro, Mantiqueira de Minas, Sul de Minas, Matas de Rondônia e Vale do Café Fluminense. O resultado consolida a bebida como o produto agropecuário com maior número de IGs reconhecidas no território nacional.

No total, o Brasil possui 156 IGs registradas, sendo 124 Indicações de Procedência e 32 Denominações de Origem. O avanço demonstra amadurecimento institucional e desperta interesse de consumidores brasileiros, que gradativamente passam a buscar cafés “com sobrenome”, a exemplo do que ocorre há décadas no universo dos vinhos.

Critérios de qualidade: da lavoura à xícara

Para que um lote de café receba a chancela da IG Chapada de Minas, ele deverá cumprir requisitos mínimos estabelecidos pelos próprios produtores e auditados pelo ICCM. Entre eles:

• Altitudes médias superiores a 800 metros;
• Colheita seletiva, preferencialmente manual ou semimecanizada;
• Processamento pós-colheita controlado (natural, cereja descascado ou lavado);
• Umidade final do grão inferior a 12%;
• Pontuação sensorial desejável em provas de xícara (método SCA) superior a 80 pontos.

Esses critérios garantem uniformidade, minimizam defeitos e potencializam notas de chocolate, frutas amarelas e acidez equilibrada, típicas dos cafés da Chapada.

Fortalecimento da governança local

O selo impõe a necessidade de governança permanente. Produtores, cooperativas, poder público municipal e instituições de pesquisa formam agora um conselho deliberativo que decide desde o uso do logotipo até a divulgação em feiras internacionais. Esse modelo de cogestão fortalece o capital social, pois exige diálogo constante, definição de metas e monitoramento de resultados.

Para o Sebrae, que continuará ofertando capacitação gerencial, a fase pós-registro é tão importante quanto o processo de reconhecimento. A manutenção da reputação depende de auditorias internas, investimentos em branding coletivo e revisão periódica do Regulamento de Uso, sempre que inovação técnica ou mudança climática exigir novas práticas.

Sustentabilidade e exigências socioambientais

Critérios de sustentabilidade, antes percebidos como tendência, tornaram-se exigência contratual em cadeias globais de alimentos e bebidas. A IG, nesse contexto, fornece uma plataforma robusta para adoção de protocolos alinhados a legislações trabalhistas, rastreabilidade de insumos e respeito à floresta nativa. Ao compartilhar custos de certificações complementares — por exemplo, Rainforest Alliance ou Fair Trade — os produtores diluem despesas e ampliam acesso a mercados premium.

Perspectivas para as próximas safras

A colheita 2023/24 foi marcada por condições climáticas relativamente favoráveis na Chapada de Minas. Com o selo em vigor, a expectativa é aproveitar a sinergia de preço e visibilidade já no próximo ciclo. A presença em eventos como Semana Internacional do Café, Specialty Coffee Expo e feiras europeias deve ser intensificada, com estandes coletivos que agreguem valor narrativo ao produto.

Ao mesmo tempo, as torrefações locais planejam lançar microlotes numerados com QR codes que direcionem o consumidor para páginas de transparência, onde constarão dados sobre produtor, altitude, variedade e pontuação. Essa estratégia reforça o encantamento e viabiliza a venda direta, encurtando a cadeia e aumentando a margem dos cafeicultores.

Desafios ainda no horizonte

Apesar do otimismo, alguns desafios persistem:

• Logística: estradas vicinais carecem de manutenção, encarecendo o frete;
• Renovação de lavouras: parte dos cafezais tem idade avançada, exigindo renovação varietal;
• Acesso a crédito: pequenos produtores ainda enfrentam burocracia bancária;
• Comunicação: a promoção da IG carece de estratégia digital integrada, voltada a públicos diversos.

O Sebrae planeja enfrentar esses gargalos por meio de programas de crédito assistido, consultorias em marketing digital e convênios com prefeituras para melhoria de infraestrutura rural.

Importância simbólica para Minas Gerais

Minas Gerais, maior estado produtor de café do país, alcança agora oito IGs reconhecidas apenas para o grão. A Chapada de Minas soma-se a Cerrado Mineiro, Mantiqueira de Minas, Sul de Minas, Matas de Minas, entre outras, consolidando o estado como referência mundial em diversidade de terroirs. Para o consumidor, isso se traduz na possibilidade de montar “cartas de café” semelhantes às cartas de vinho, explorando perfis sensoriais distintos dentro de um mesmo estado.

Educação e sucessão familiar

Outro efeito colateral positivo é a atração de jovens para o campo. A associação entre tecnologia, qualidade e prestígio desperta interesse de filhos de cafeicultores, que vislumbram carreiras ligadas à torra artesanal, barismo ou coordenação de redes sociais das marcas familiares. Essa renovação geracional é crucial para manter a vitalidade do território nos próximos 20 ou 30 anos.

Conclusão: o legado da chancela

O Café Chapada de Minas IG reconhecida não é apenas um selo no rótulo. Ele sintetiza história, tradição, resiliência e inovação de uma coletividade que aprendeu a enxergar no café muito mais do que uma commodity. Ao validar a identidade territorial e ampliar oportunidades econômicas, a IG estabelece um ciclo virtuoso capaz de inspirar outros polos produtivos brasileiros a buscar o mesmo caminho.

Se mantidos os investimentos em governança, sustentabilidade e promoção, a Chapada de Minas não apenas garantirá preços mais justos aos agricultores, como também oferecerá ao consumidor global uma experiência sensorial marcada por origem, histórias e rostos que dão vida a cada xícara. É, por fim, mais um passo firme rumo a um Brasil que sabe valorizar a pluralidade de sabores cultivados em seu vasto território.


Com informações de Agência Sebrae de Notícias

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